Sim, FlatOuters. Mais um meta-review do Jaguar Type 00 — ou, melhor dizendo, do Jaguar GT. Desta vez os jornalistas europeus e americanos finalmente puderam dirigir o carro que está mudando a história da Jaguar, em vez de apenas passear no banco do passageiro enquanto o piloto da marca demonstra apenas o que a marca queria demonstrar, como aconteceu no “test ride”.
Infelizmente o test drive não foi realizado nas ruas e estradas da Europa, muito menos em um autódromo seco. Em vez disso, os jornalistas foram levados ao interior da Suécia, onde a Jaguar faz os testes de clima frio com o carro. Isso significa que a primeira vez dos jornalistas ao volante do Jaguar GT teve baixa aderência e pouca referência espacial para um teste real, onde podemos aprender mais sobre este carro tão importante para a Jag.
Sobre a neve, você não tem tração nem aceleração lateral intensas como em uma pista seca de asfalto. Mesmo a entrega de potência às rodas é atenuada pela baixa aderência, assim como o feeling de direção (as rodas têm menos atrito com o solo, certo?) e, claro, a frenagem do carro. Na prática, este meta-review traz mais da sensação de se estar ao volante do carro, do impressões concretas sobre seu comportamento. Contudo, embora a neve filtre parte das respostas e impeça qualquer leitura fina, o caráter de um carro não desaparece só porque está em um ambiente de baixa aderência. A essência do que se percebeu ali — inevitavelmente atenuada — tende a se amplificar em maior ou menor intensidade quando o carro finalmente for para a pista seca com os jornalistas.
Além disso, o interior do carro ainda estava camuflado — ninguém viu como ele é, tampouco pôde tocar nos materiais de acabamento porque eles simplesmente não existem — ainda. Ao menos, é um primeiro contato direto que, finalmente, permite começar a entender como será este “renascimento” da Jag e até mesmo responder se este era mesmo o caminho certo.
A primeira coisa que vem à mente após ler as avaliações é o consenso sobre o caráter do carro: ele não é um supercarro agressivo, apesar de ter 1.000 cv e mais de 100 kgfm. Ele é um carro civilizado, progressivo, quase cerimonial — “a direção é calma, precisa e passa confiança”, descreve o Top Gear, e “seu comportamento está mais próximo de um Bentley do que de um Porsche”, diz a Auto Express.
As publicações também parecem consensuais ao mencionar o acerto do carro, que parece mais coreografado do que controlado. A Autocar, por exemplo, diz que “a carroceria é deixada livre para se mover”, enquanto o Top Gear menciona que “há um pouco de rolagem e mergulho, apenas o suficiente, e intencional”. Até o mais combativo entre eles, o PistonHeads, que normalmente procura o lado mais agressivo em tudo, acaba admitindo que o volante “cai naturalmente nas mãos” e foi calibrado “para oferecer o máximo de feeling”.

Muito disso vem do acerto de suspensão, que claramente vai na contra-mão daquele acerto sólido e controlador dos carros alemães – e que foi copiado por muita gente, incluindo a própria Jaguar, em um passado não muito distante, algo que destoava dos carros tradicionais da marca. A Auto Express notou isso ao mencionar que a Jaguar buscou “a fluidez dos modelos clássicos”, que era um tipo de rodagem típico do luxo britânico, mais conhecida pelos Rolls-Royce, mas que também era observada nos Bentley e Jaguar de luxo. O acerto próprio agradou também a Road & Track: “Um GT deve respirar com a estrada”, disseram. Em resumo: o carro balança, mas não por falta de rigidez da suspensão, e sim como uma forma de entregar conforto pela naturalidade dos movimentos.
Onde as publicações divergem é sobre a entrega de potência do carro. Não chega a ser divergência, na verdade, mas nuances sobre a percepção da entrega de potência. Todos concordam que o carro exige delicadeza. A Road & Track fala em “ser delicado com o pé direito” enquanto a Autocar reforça que “com 1.000cv você precisa de sensibilidade” — algo corroborado pela Auto Express (“com tanta potência você precisa de um pé direito sensível”).
A Motor Trend, por outro lado, descreve que a potência do GT é entregue de forma moderada: “Você aponta o carro, mantém o volante parado, e pode ir acelerando sem medo. O Jaguar não despeja potência — ele entrega exatamente o que o chão aceita.” Já o Piston Heads foi mais emotivo: “Mais de 100 kgfm de torque nunca foram tão fáceis de gerenciar… parece bruxaria.”

Aqui, relembrando o que o pessoal falou na ocasião do test-ride, fica claro que a grande estrela do desempenho do Jaguar GT é o gerenciamento eletrônico — o que me leva a questionar quanto dessas impressões não foram influenciadas pelo pessoal da Jaguar por sugestionamento. Acontece com qualquer um. Ao mesmo tempo, é esperado que um Jaguar seja assim, afinal, um carro elétrico de 1.000 cv pode ser uma besta indomável, mas um Jaguar não pode ser isso. Tal como a Porsche usou a eletrificação para moldar o caráter do 918 Spyder, a Jaguar está usando a eletrônica para fazer o mesmo com o GT.

Como mencionei antes, o interior ainda não foi revelado, então a maioria das publicações mantém uma certa cautela ao tratar dele. A Motor Trend mencionou que o carro é mais fácil de entrar e sair do que o protótipo anterior, com bancos claramente mais confortáveis e melhor ergonomia. A Road & Track descreve o ambiente interno como mais fechado e envolvente, quase como um Jaguar clássico reinterpretado em escala maior, enquanto o PistonHeads fala explicitamente em uma cabine intimista e justa, algo que pode ser visto tanto como charme quanto como limitação.

Ao terminar os reviews, tive a impressão de que a imprensa europeia, em geral, está sendo cautelosa com a Jaguar. A relação da imprensa com a marca deve ser estritamente jornalística: se a marca tomou a decisão, por mais que ela seja polêmica, é papel da imprensa avaliar o carro de forma objetiva, nesse caso do test drive. Por isso há esta sensação de cautela: o que realmente parece positivo foi considerado positivo. O resto ficou meio en passant, afinal o carro não está pronto.
O que ficou claro é que a imprensa estrangeira não o trata como sucessor de nenhum modelo conhecido e parece ter mesmo comprado a ideia corporativa de que ele é um carro como nenhum outro da marca — embora ele seja claramente um sucessor de facto de modelos como o XJ Coupé e o XJ-S. Quase todas as publicações respeitam profundamente o Jaguar GT, mas nenhuma parece apaixonada por ele. E isso não é defeito direto do carro, nem crítica explícita de ninguém; é simplesmente o tom que atravessa todos os textos, como se a imprensa reconhecesse algo brilhante, competente, bem calibrado… mas ainda não como algo que tenha apelo.

Eles elogiam a fluidez, a calma, a progressividade, a precisão — tudo sempre com adjetivos muito racionais, quase clínicos. A frase da Road & Track sobre o carro “respirar com a estrada” é bonita, sim, mas descreve um comportamento, não uma sensação íntima do motorista. O PistonHeads, quando fala em “bruxaria”, está descrevendo o gerenciamento eletrônico dos motores, e não a bruxaria que é a subida de giros do GMA T.50. Você percebe a diferença?
Por último, devemos lembrar que estas ainda são avaliações muito preliminares — o primeiro contato dos jornalistas com o carro. Em um ambiente que mascara muito do que o carro tem de bom e ruim. Mas essa cautela mostra que ninguém parece muito empolgado com o carro — há respeito, mas não admiração. Há reconhecimento, mas não empolgação. Talvez isso mude com o carro pronto, com uma cabine completa, acelerando no asfalto em uma estrada secundária da Escócia, a caminho de Skyfall. Talvez, sem a neve, um novo teste apenas amplifique essa sensação de que o carro é certinho e tudo mais, mas não muito além disso. O que faz de um carro um Jaguar, afinal? Esta é a pergunta que falta ser respondida.


