FlatOut!
Image default
História

A Ferrari que fez nascer a Lamborghini


 

Tal qual o mítico Graal na literatura que trata da corte do Rei Artur, a história da humanidade está cheia de buscas por artefatos perdidos que, de alguma forma, transcenderam seu valor como coisa somente, para se tornar algo mais. O cálice santo deixou de ser apenas um copo de vinho qualquer por ser usado por Cristo na última ceia; assim outras coisas se tornam maiores por seu contato com gente importante, e sua importância na história destas pessoas.

Ferruccio Lamborghini e o Miura

Como não poderia deixar de ser, no mundo do automóvel existem vários carros assim, que ultrapassam sua condição de apenas máquinas de transporte para se tornarem muito mais. Vejam por exemplo o Bugatti tipo 41 de Ettore: era o protótipo original, e como veículo de uso pessoal dele por décadas, viu todo seu arco de perto. Do ápice à queda e morte, o carro viu tudo.

Mas todo mundo sempre soube onde ele esteve. Hoje, por exemplo, está no museu “La Cité de L’automobile”, em Mulhouse, na Alsácia francesa. Não é o caso com outros carros deste tipo, que permanecem perdidos, alvos de buscas incessantes dos arqueólogos automotivos modernos. Gente que dedica a vida a isso; afinal de contas, além da emoção da busca, existe o prêmio: o valor deste tipo de carro é literalmente incalculável.

É também um terreno pantanoso, principalmente no caso de Ferraris e outros exóticos italianos da região de Bolonha, alvo principal da maioria das buscas hoje em dia. Há décadas já, por exemplo, carros como as Ferrari 250GT são desmontados para construção de réplicas de GTO, Spider california, SWB, e outros modelos mais desejados; a falta de registros oficiais de época piora muito o trabalho de autenticação deles. Como são carros que podem mudar de preço na casa dos milhões dependendo desta autenticação, um trabalho estressante e litigioso também.

Um dos melhores e maiores especialistas nisso é o inglês Ian Tyrrel. Um músico, narrador e cantor de ópera com treinamento clássico que se tornou restaurador de carros italianos exóticos principalmente, seu Tyrrell’s Classic Workshop é hoje uma referência também em pesquisa e autenticação de carros. Ian encontrou e restaurou o Miura que aparece no início do filme “Italian Job” (“Um golpe à Italiana”); o Countach que foi de Ferrucio Lamborghini. É também o restaurador preferido de Harry Metcalfe, o fazendeiro que fundou a revista Evo em 1998, e hoje é o mais popular Youtuber de cabelos brancos da Inglaterra, com seu canal Harry’s Garage. Por meio da amizade com Metcalfe, que filmou a restauração de seu Lamborghini Espada na oficina de Tyrrel, começou também seu próprio canal, outro sucesso estrondoso.

Mas nada nos preparava para seu achado revelado esta semana em seu canal: o Ferrari 250 GT de Ferruccio Lamborghini. Um carro que se imaginava perdido para sempre, mas que foi encontrado e autenticado por Tyrrel, que agora vai terminar uma restauração. O carro foi de Lamborghini de 1961 até 1970.

E por que motivo este carro é tão importante? É simplesmente a ligação entre Ferruccio e Enzo, o estopim dos desentendimentos entre os dois que culminam com a criação da Automobili Ferruccio Lamborghini, o maior concorrente que a Ferrari jamais teve. Desta forma, é um objeto místico; carrega consigo o peso da história. Mais que isso: determinou a história e o futuro, por existir.

Mas o mais engraçado é que fez isso não por ter uma bela e sóbria carroceria de Pininfarina; pelo seu pequeno e compacto V12 de três litros e pedigree impecável. Não por ser um carro de alto desempenho, ou por seu grito inconfundível em alta rotação, que parece vir direto das retas de Le Mans. Não, sua importância como objeto histórico vem do fato de que foi o pior carro que Ferruccio Lamborghini já teve.

Todo mundo sabe que a Lamborghini nasceu de uma treta entre os dois capi: Enzo e Ferruccio discutiram e o segundo vai embora determinado a ir à forra. Mas como isso aconteceu de verdade é um mistério total: um milhão de histórias existem dos pormenores deste histórico encontro. Mas uma coisa sabemos de verdade: o assunto era justamente o 250 GT de Ferruccio, seus problemas, e a forma com que os clientes eram tratados em Maranello.

No interesse de esclarecer o que se sabe ou não sobre a história desse encontro, vamos rever os fatos, e as teorias a este respeito. Começando por conhecer os dois protagonistas.

 

Ferrari

No início dos anos 1960, Enzo Ferrari sentava-se em um pedestal que ele mesmo criara. Exímio criador de lendas ao seu redor, colocava-se num manto de superioridade total. Seus carros tinham sucesso em competição em todo lugar do mundo, e todo mundo vinha até sua porta, o pequeno povoado de Maranello, perto de Modena, lhe prestar respeito. E pedir coisas.

Não era qualquer pessoa também. Reis. Presidentes. Estrelas de Hollywood. Todos iam até lá ver a mágica de 12 cilindros acontecer, pedir um lugar na fila para comprar o próximo impossivelmente belo cupê de doze cilindros a sair dali, e, quem sabe conhecer ele, Enzo Ferrari. Os melhores pilotos do mundo também vinham até ele, vindos de todos os cantos do mundo, pedir um lugar no cockpit de um Ferrari de corrida: era meio caminho para a vitória.

“O Papa do Norte”, era como era conhecido. Enzo quase nunca saiu de Modena a vida toda, mas o mundo veio à ele, de uma forma ou outra. E todo mundo que vinha, fosse o rei da Bélgica, Clark Gable ou John Surtees, recebia o mesmo tratamento: ficava esperando horas a fio.

O Papa do Norte

Na entrada da fábrica, adjacente a seu escritório, havia uma sala de espera pequena, sem decoração ou calefação, e, portanto, muito fria. Lá Enzo deixava todos os que tinham a “honra” de conseguir uma audiência consigo, a esperar por horas a fio. Depois, vinha buscar o “sortudo” com a candura de um velho vovô e o encaminhava a sua sala.

Lá, com a iluminação parca, desenrolava uma cena que lembraria Marlon Brando interpretando Don Corleone. Todos, desde diretores da Ford até pilotos como Phill Hill, Surtees, Von Trips e Fangio passaram pela salinha. Mas todos deixaram-se envolver pelo carisma de Enzo, esqueceram-se de tudo e ouviram-no falar como crianças ouvindo histórias de ninar. Enzo sabia criar lendas, mas a maior lenda que criou foi ele mesmo.

Um sujeito assim, pode se imaginar, não se importava em falar o que quisesse, sem se importar com o que pensassem dele. Era famoso por não tomar bem críticas sobre seus carros de rua: ele fazia um favor a esses filisteus endinheirados, deixava eles usarem seus magníficos chassis V12 em carros de rua, afinal de contas. Reclamar era não entender o privilégio de se ter um Ferrari. Falta de educação. E ponto.

 

Lamborghini

Enquanto isso, na mesma região de Bolonha, outro empresário italiano estava também na fase mais próspera de sua vida. Mas diferente de Enzo e seu comportamento de superioridade divina, Ferruccio Lamborghini era um trabalhador. Foi a custa de muito trabalho que ficou rico.

Era um entusiasta da engenharia e das máquinas; foi mecânico de aviões durante a guerra, e depois dela, dono de uma oficina em Pieve di Cento, na região de Bolonha também. Nesta oficina fez duas coisas: primeiro, modificava Fiat Topolino para competição. Depois, começou a fazer e vender tratores usando peças diversas, para os fazendeiros da região. Correu na Mille Miglia com seu Topolino especial, mas eram os tratores que logo consumiriam todo seu tempo.

Logo, seus tratores o tornariam um industrial de sucesso, um dos mais ricos italianos no início dos anos 1960. Nesta mesma época, lança uma empresa de aquecedores a gás, que depois entraria no ramo de ar-condicionados industriais também.

Com isso, Ferruccio tinha o dinheiro para exercitar sua paixão por automóveis. Teve, por exemplo, um Mercedes-Benz 300SL, e um Jaguar E-type, que adorava. Disse famosamente: quem precisa de um V12 quando se tem um seis em linha assim?

E, é claro, comprou um Ferrari. Um 250 GT com carroceria cupê Pininfarina. Mas como todo dono de Ferrari então, encontrou problemas: era realmente um carro de corrida adaptado para uso em ruas, e não muito bem acertado para isso. Apesar de dinamicamente superiores a quase tudo à venda na época, e vestidos com o que de melhor os carrozziere italianos podiam criar, os Ferraris daquele tempo eram terrivelmente ruins em uso normal. Esquentavam e “ferviam” a qualquer velocidade abaixo de 120 km/h, quebravam e se engasgavam a baixas rotações. Embreagens se desintegravam rapidamente. Se você desligasse o motor após um ataque às estradas vizinhas, tinha de esperar esfriar para ligá-la novamente. Fora os curto-circuitos, falhas de instrumentos e um outro sem-fim de problemas extremamente irritantes.

Ferrari mesmo usava um Peugeot ou uma série de Fiats e Minis em seu uso normal; dizia que seus carros eram muito caros para ele mesmo, mas a verdade deveria ser outra; apenas mais adiante, quando começaram com ajuda da Fiat, a se tornar melhor validados em testes, e produzidos mais industrialmente, passou a usar Ferraris no dia-a-dia.

Ferruccio estava chateado com a qualidade de seu 250 GT então. É neste ponto, em algum lugar no início dos anos 1960, que teria acontecido o famoso encontro entre os dois. Mas será que aconteceu mesmo?

 

A lenda

Este encontro é campo estritamente da lenda. Foi contado em uma dúzia de versões diferentes, em um monte de lugares diferentes. Pode ter acontecido, sim, mas muito provavelmente é inventada. Eu digo já o que acredito: pegando uma página do livro de Enzo, Ferruccio inventou ela para dar substância e lenda para sua nova marca. É uma lenda baseada na realidade, porém: ninguém duvida que pudesse ter acontecido de verdade.

Versão 1: Lamborghini, cansado de seus problemas com o 250 GT, e mais cansado ainda de tratar com “subalternos”, demandou uma audiência imediata com o sr. Ferrari. Não queria reclamar com ninguém a não ser o dono.

Nesta versão, Ferruccio foi até Maranello e bateu na porta da fábrica. Sentou-se no famoso banquinho da famosa salinha gelada. Mas, para ele, aquele banquinho e aquela salinha não eram famosos. Já não gostou. Esperou vinte minutos e já foi reclamar com o porteiro lá fora. Nada. Esperou mais dez minutos, a essa altura já andando de um lado para o outro impacientemente na sala. Mas, algum tempo depois, estranhamente se sentou com aparência mais calma, e começou a pensar. Dez minutos depois, levantou-se resoluto e foi embora. Na portaria, falou com o porteiro algo com o seguinte efeito:

“Pode falar para o sr. Ferrari que ele não precisa vir me buscar. Vou embora. Só avise que quem esteve aqui foi Ferruccio Lamborghini. LAMBORGHINI! Um dia, ele vai se lembrar.”

Versão 2: Lamborghini e um amigo estão almoçando em um restaurante em Modena, quando avista Ferrari e outra pessoa, também comendo ali. Vai até a mesa dele, se apresenta e educadamente conta os problemas insolúveis de seu 250 GT. Enzo começa a fazer piada. “O Sr não sabe dirigir um carro puro-sangue como um Ferrari, está destruindo a embreagem. Volte aos seus tratores!”. Uma xingação em voz alta com braços para lá e para cá, como só italianos sabem fazer, começa imediatamente. Lamborghini vai embora e promete vingança.

Versão 3: Ferruccio resolve que pode ensinar uma coisa a outra a Ferrari: ao desmontar seu 250 GT na fábrica de tratores, descobre que a embreagem é subdimensionada e a troca por uma proveniente de um de seus tratores. Marca uma reunião com Enzo propondo sociedade, mas Enzo não aceita críticas, o ofende, e ele vai embora.

Versão 4: Igual a primeira, mas nesta Enzo recebe Ferrucio na sala. Obviamente se ofendem mutualmente e o resultado é igual: Lamborghini vai embora batendo portas para nunca mais voltar.

Podíamos ficar aqui o dia todo, mas vocês já entenderam: ninguém sabe como fato o que aconteceu de verdade, se é que aconteceu. Ferruccio conta outra lenda a respeito disso: diz que descobriu que a embreagem de um de seus Ferraris, que ele trocava regularmente, era idêntica à utilizada em seus tratores — exceto pelo fato de que Enzo cobrava o triplo do preço por cada uma delas.

A Ferrari 250 GT

Embreagem parece ser a raiz dos problemas de Ferruccio; por isso, com a 250 GT dele em mãos, Tyrrel resolve tentar provar as lendas: desmonta a embreagem de dois tratores Lamborghini da época, um de 2 e outro de 4 cilindros, e nenhuma cabe no Ferrari. Termina o vídeo prometendo achar o trator que falta, de três cilindros, e testar: meu chute é que não existe esta intercambiabilidade; de novo, tudo vapor à italiana.

O mais provável que Lamborghini começou por dois motivos: primeiro por ser um entusiasta, e segundo por achar que poderia ganhar um bom dinheiro. Sabia da fama da Ferrari, e nem tentou reclamar com Enzo; desmontou seu carro particular, o estudou, e acreditou que podia fazer aquilo também, só que melhor. A lenda veio para lhe ajudar, seja criada por ele ou por outro. Talvez tenha contado a fama de Enzo e dito de sua insatisfação, e alguém tirou suas próprias conclusões.

Mas pode ter acontecido, em alguma dessas versões ou uma misturada? Claro que sim. A verdade, nunca saberemos.

 

O 250 GT de Ferrucio

O único fato comprovado de verdade desta história toda é que Ferruccio tinha um 250 GT, e não gostou dele. Por causa da sua revolta com o carro, e a forma que Maranello tratava clientes, decide que pode fazer melhor ele mesmo e cria a marca de automóveis que conhecemos hoje como Lamborghini.

Uma verdadeira Start-up antes do nove ser inventado, a Lamborghini contrata uma série de pessoas jovens, dispostas a trabalhar muito ganhando pouco, para criar uma nova linha de supercarros italianos. A sorte de Ferruccio é que hoje sabemos que era gente simplesmente genial: Gianpaollo Dallara desenhava os chassis, Giotto Bizzarrini criou o motor V12 original. Marcello Gandini na Bertone criou o desenho imortal do Miura, e depois do Countach. Bob Wallace acertou chassi em testes de estrada, e Paolo Stanzani garantiu que tudo funcionava como um carro que podia ser vendido.

Ambos os carros, Miura e Countach, criaram o que hoje chamamos de supercarro: de alguma forma “carro esporte” era muito pouco para definí-los. A história da Lamborghini é um conto de fadas automobiístico que nunca mais se repetirá.

E tudo por causa desta Ferrari 250 GT, agora em restauração. Um carro que, somente por isso, é mais que um carro. É um objeto místico que criou uma encruzilhada no tempo, e uma nova marca e um novo futuro diferente. Imaginou já um mundo sem a Lamborghini? Ferrari nenhuma compensaria um absurdo desses.

O 250 GT em si é um dos vários modelos que a Ferrari fez desde 1952 usando um mesmo chassi multitubular e carroceria comprada. Usava uma versão de três litros e 200 cv do famoso V12 Colombo, uma unidade OHC de alumínio compacta, potente e giradora nascida em competição. O câmbio era de cinco marchas manual, e a suspensão traseria era um leve eixo rígido com feixe de molas, mas localizado por braços inferiores e superiores. Era sensacional como um carro esporte; o Ferrari que fez a Ferrari famosa.

Este 250 GT, por ser um Ferrari dos anos 1960, seria especial por si só; mas é ainda maior por causa de sua história. O Ferrari que causou a criação da Lamborghini. Os herdeiros da Ferrari aposto que prefeririam ver ele queimar inteirinho, até virar metal derretido. Já para nós, é um símbolo de nada fica igual para sempre.

E de que toda lenda tem um fundo real; aqui com a forma de um Ferrari 250 GT.

ESTE Gol GTS 1.8
PODE SER SEU!

Clique aqui e veja como