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História Zero a 300

A história da GAZ, parte 2: o icônico Volga e o fim dos carros de passeio | Lasanhas sem Fronteiras

Em clima de Copa do Mundo na Rússia, a última adição à série “Lasanhas sem Fronteiras” foi a GAZ, que pode ser considerada a primeira fabricante de automóveis da União Soviética. A empresa nasceu de um acordo com a Ford, mas não demorou para ganhar independência e, mais do que isto, para se tornar uma pioneira: o GAZ M-20 Pobeda, seu primeiro modelo totalmente projetado in-house, foi a base para o primeiro utilitário baseado em um carro da história.

Acontece que o Pobeda, fabricado a partir de 1946, já era um carro obsoleto dez anos depois, mesmo para os padrões do comunismo soviético. Assim, naquele ano foi lançado seu sucessor: o GAZ-21 Volga, primeiro membro e uma linhagem que durou até 2010. Mas a gente vai por partes, ok?

A evolução rápida do design automotivo no pós-Guerra foi o que motivou a GAZ a dar início ao desenvolvimento do substituto do Pobeda já em 1951. No ano seguinte já havia dois protótipos distintos: o Zvezda (“Estrela” em russo), que era uma evolução do desenho do Pobeda, com carroceria fastback e detalhes na traseira que lembravam os “rabos-de-peixe” norte-americano; e o Volga, que tinha uma carroceria de três volumes mais tradicional. O Volga foi o escolhido por questões práticas: suas linhas mais simples o tornavam mais viável para a realidade tecnológica da época. Aparantemente não existem registros visuais do Zvezda.

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Volga, para quem não sabe, é o nome do rio mais longo da Europa. Ele nasce no norte da Rússia, no planalto de Valdai, corre pela planície russa e deságua no mar Cáspio, que é o maior lago do planeta e por vezes é classificado como um mar de verdade. O Volga é considerado o rio nacional da Rússia e tem grande importância histórica, cultural e econômica para o país. A cidade de Nizhny Novgorod, que na época se chamava Gorky e abrigava a sede da GAZ, fica às margens do Volga, assim como onze das 20 maiores cidades russas, incluindo Moscou. Ou seja, não é difícil entender o motivo para que o GAZ-21 tenha recebido o sobrenome Volga.

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Protótipos do GAZ-24 Volga sendo testados entre 1954 e 1955

Em 1954 ao menos cinco protótipos estavam prontos e passavam por uma intensa bateria de testes que foi concluída a tempo de começar a produção em 1956.

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O Gaz Volga tinha visível influência dos carros norte-americanos da época, em especial o Ford Mainline, modelo mais básico da marca do oval azul nos EUA – as proporções gerais da carroceria, o formato da grade e dos para-lamas deixava isto bem evidente. Da Ford também vinha o projeto básico da transmissão automática de três marchas, que era baseada no câmbio Ford-O-Matic.

O motor era um quatro-cilindros de 2,5 litros capaz de entregar entre 65 cv e 80 cv – a versão mais potente era reservada aos modelos de exportação. Dito isto, as primeiras 1.000 unidades saíram com o motor flathead (com vávulas na na lateral do bloco) do Pobeda, pois a produção do novo motor, que tinha comando no bloco e válvulas no cabeçote, só começou em 1957.

Apesar de inovar por ter sido o primeiro carro russo produzido em série com câmbio automático, o GAZ Volga acabou tendo problemas exatamente por isto, sofrendo com vazamentos do fluido de transmissão e forçando a companhia a adotar uma caixa manual de quatro marchas que não demorou para conquistar a preferência do público – tanto que, apesar de disponível até 1965, o câmbio automático só foi instalado em 700 carros antes de deixar de ser oferecido.

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A primeira geração do GAZ Volga foi vendida em três fases distintas entre 1956 e 1970. A primeira, produzida entre 1956 e 1958, ficou conhecida como Zvezda em homenagem ao protótipo cancelado, e era a fase que tinha maior semelhança como Ford Mainline.

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Entre 1958 e 1962 foi produzido o GAZ Volga Akula, que significa “tubarão” em russo e era uma referência à grade com 16 aletas verticais – se fosse vendido no Brasil, ele provavelmente ficaria conhecido como “Volga Tubarão”… Em todo caso, não foi apenas a grade que mudou: pela primeira vez o Volga tinha refletores nas lanternas traseiras, lavador de farol, abertura interna do porta-malas e uma tela de metal para o alto-falante. Algumas mudanças, porém, não foram muito bem aceitas – como em 1961, quando o Volga perdeu o ornamento em forma de veado no capô, marca registrada dos carros fabricados pela GAZ até então. Havia, contudo, um bom motivo: além de fazer com que água e neve fossem atirados diretamente contra o para-brisa com muito mais intensidade, prejudicando a visão que o motorista tinha da estrada, os ornamentos causavam mais ferimentos aos pedestres em caso de atropelamento.

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Em 1962 veio uma nova modificação: a terceira fase do GAZ-21 Volga, apelidada Kitovy Us, ou “barbatana de baleia”, por causa da sua grade com 36 aletas verticais cromadas que, de fato, lembrava a barbatana na boca de uma baleia. Esta pode ser considerada uma das mudanças mais marcantes da história da GAZ, pois a grade com 36 aletas tornou-se uma das principais marcas de seus modelos e está presente até hoje.

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Naquele ano também foi apresentada uma versão especial limitada o GAZ-21 Volga, chamada M23. De diferente ele tinha um motor V8 usado em outro modelo especial da GAZ, o Chaika – este, um modelo de luxo de maior porte que lembrava bastante o Ford Fairlane da década de 1950. O M23 era conhecido como “O Duplo” porque tinha o dobro dos cilindros dos Volga comuns. E era um verdadeiro sleeper: apesar do visual igual ao de qualquer outro GAZ-21, ele tinha nada menos que 198 cv em seu motor de 5,5 litros, que exigia diversos reforços estruturais na dianteira e a adoção do câmbio automático do Chaika, visto que o torque do V8 era o triplo do oferecido pelo quatro-cilindros.

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A linha 1962 trouxe as últimas mudanças promovida no GAZ-21 Volga antes da chegada de seu sucessor, o GAZ-24. Este trazia linhas mais retilíneas que davam a impressão de um carro maior, quando na verdade ele perdeu 7,5 cm de comprimento e 12 cm de altura – apenas o entre-eixos era maior, o que garantiu mais espaço interno. Graças a um aumento na taxa de compressão e à adoção de materiais mais resistentes, o motor agora podia rodar com gasolina de maior octanagem (95 RON) e entregava 95 cv.

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O GAZ-24 foi, de longe, a geração mais popular do Volga, convivendo com todas as gerações que vieram depois e passando por diversas modificações estéticas ao longo de 38 anos – ele só deixou de ser fabricado em 2008. Apesar de ser um carro bem mais caro, custando o dobro do GAZ-21, ele conseguiu conquistar frotistas e tornou-se o sonho de consumo de muitas famílias soviéticas. Em 1977 foi lançada uma versão com motor V8 de 4,2 litros e 160 cv, que em 1986 foi substituído por uma versão de 5,5 litros com carburador de corpo quádruplo, ignição eletrônica e 198 cv. Estes carros estavam entre os mais rápidos à venda na Rússia ao público em geral, embora fossem mais comprados pelas forças policiais.

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Com a dissolução da União Soviética em 1991, o GAZ-21 tornou-se um colecionável muito desejado. O GAZ-24, contudo, continuou sendo fabricado ao lado de seu sucessor, o GAZ-31, que foi lançado em 1982 e mantinha as linhas gerais da carroceria, incluindo a silhueta e o contorno das portas, mas adotava faróis quadrados e lanternas horizontais – certamente uma influência do design alemão.

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O GAZ-31 Volga foi atualizado outras duas vezes, em 1997 e em 2004, com reestilizações que buscavam modernizar seu estilo mas, naturalmente acabavam evidenciando cada vez mais a idade avançada do projeto, visto que o contorno e as proporções gerais do carro eram conservadas. No fim de sua carreira, em 2010 o Volga tinha duas gerações convivendo no mercado e ambas podiam ser compradas apenas por frotistas sob encomenda. Por esta razão, ele costuma ser chamado de “o Crown Victoria Russo”.

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Ele acabou sendo o último carro produzido em grande volume pela GAZ. Isto porque em 2000 a companhia foi adquirida pelo grupo industrial Basic Element formado em 1997. Pelo que consta, foi uma “aquisição hostil”, o que significa que a GAZ foi comprada à força, sem o consentimento de seus diretores.

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Talvez eles estivessem tentando evitar o que aconteceu em 2003: a GAZ anunciou que deixaria de investir na fabricação de automóveis de passeio, concentrando-se em veículos de grande porte como caminhões, ônibus e máquinas agrícolas e de construção civil. O que é uma pena, porque isto levou ao cancelamento do sucessor do GAZ-31 Volga.

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Seu nome era Volga Siber, e se você olhar com atenção vai reconhecer seu perfil. Tratava-se de uma versão russa de um carro que chegou ao Brasil nos anos 90: o Chrysler Stratos, vendido nos EUA como Chrysler Sebring/Dodge Stratus. Ele foi produzido entre 2008 e 2010, com apenas 9.000 unidades fabricadas como resultado de um breve acordo entre a GAZ e a gigante de Detroit. De início o carro sequer carregaria o nome Volga, mas esta seria uma decisão equivocada que logo foi revista.

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Os motores eram exatamente os mesmos usados pela Chrysler nos EUA – dois quatro-cilindros de dois e 2,4 litros, com potência de 140 cv e 143 cv, respectivamente. Ele foi o fim da linha para a GAZ enquanto fabricante de automóveis, pois chegou no pior momento possível: a recessão global que culminou em 2009 e acabou com a demanda pelo Siber, que foi o último dos GAZ-Volga.