FlatOut!
Image default
História Motos

A história de Joey Dunlop, o maior vencedor de todos os tempos no TT de Isle of Man


Para os fãs de carros, é possível que o sobrenome Dunlop seja mais fortemente associado à Dunlop Tyres, fabricante de pneus fundada pelo escocês John Boyd Dunlop. Se você toca algum instrumento, talvez lembre imediatamente das palhetas e pedais de efeito fabricados por outra empresa, a americana Jim Dunlop Manufacturing.

Agora, se você é fã de motocicletas e motociclismo, o sobrenome Dunlop só pode significar uma coisa: Joey Dunlop, saudado por muitos como o maior piloto de motos que já pisou neste planeta, com uma coleção de feitos na mais desafiadora prova do motociclismo: o Tourist Trophy de Isle of Man, onde Dunlop é considerado um herói.

Mais precisamente, Joey Dunlop é constantemente descrito como um “herói da classe trabalhadora”. A expressão é comumente usada no inglês (working class hero) para referir-se a uma pessoa de origem humilde que conquistou sucesso e reconhecimento com esforço e talento – e que, mais importante, nunca deixou suas raízes de lado.

E isto realmente se aplica a Dunlop. Nascido em 25 de fevereiro de 1952 na vila de Armoy, no norte da Irlanda do Norte, filho de Willie e May Dunlop, Joey vivia em uma casa sem água encanada. Seu pai era mecânico e, sempre que podia, Joey o ajudava na oficina – até começar a trabalhar em uma plantação de batatas.

Foi juntando os trocados da colheita que Joey comprou sua primeira moto. Ele logo se juntou a dois amigos, Mervyn Robinson e Frank Kennedy, e os quatro formaram a Armoy Armada, uma pequena equipe para disputar corridas locais. Eles raramente podiam competir ao mesmo tempo, pois não tinham praticamente nenhum dinheiro e sempre precisavam dividir peças das motos – que eles consertavam sozinhos.

Logo de cara Joey Dunlop demonstrou um imenso talento na condução. Ele ficou conhecido por sua velocidade, claro, mas sua principal qualidade era a absoluta precisão com a qual pilotava, de forma suave, sem riscos desnecessários ou exibicionismo, e inacreditavelmente rápido. Espia só:

Apesar disso, sua carreira demorou a decolar. Foi só na segunda metade dos anos 70, quando Joey já estava na casa dos vinte-e-tantos anos, que ele conseguiu um contrato de patrocínio com a empresa de transportes Rea Haulage, de Belfast, a capital da Irlanda do Norte. John Rea, fundador da companhia, era amigo da família, e seus dois filhos também viriam a se tornar pilotos. Ele viu potencial em Joey e garantiu que ele conseguisse se inscrever com uma Yamaha TZ 750 no Tourist Trophy de 1977.

A geografia favoreceu Joey Dunlop neste aspecto – não tivesse ele nascido onde nasceu, talvez jamais tivesse a oportunidade de correr na pequena ilha entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. Isle of Man tem um dos circuitos mais perigosos do planeta: Snaefell Mountain Course, um trajeto com mais de 60 km e 219 curvas que compreende diversas estradas da ilha. Há muita variação de relevo, áreas onde as áreas de escape são os muros e portões das casas, e trechos onde as motos maiores e mais potentes passam dos 330 km/h.

Joey Dunlop já havia participado do Tourist Trophy no ano anterior, em quatro categorias diferentes, mas sua melhor colocação havia sido um 16º lugar na classe Junior TT. Em 1977, porém, ele conseguiu a vitória com sua Yamaha 750.

Após a conquista, Joey Dunlop foi procurado pela Honda para integrar sua equipe de fábrica e de lá não saiu. Foi com as motos da Honda que ele construiu sua carreira e sua reputação.

No Tourist Trophy, Joey Dunlop conseguiu notoriedade por seus três hat-tricks (vitórias em três categorias diferentes na mesma competição) em 1985, 1988 e 2000. No total, ele venceu 26 corridas em Isle of Man, feito jamais igualado por nenhum outro piloto. O mais próximo disto é o britânico John McGuinness, que venceu 23 corridas. No Grande Prêmio de Ulster, Joey Dunlop conquistou 24 vitórias entre 1979 e 1999.

A especialidade de Joey Dunlop eram as corridas em circuitos de rua. Além do Tourist Trophy, ele também venceu 24 vezes o Grande Prêmio de Ulster, prova realizada em estradas fechadas nos arredores de Belfast, entre 1979 e 1999; e conquistou 13 vitórias na North West 200, outra prova disputada em vias públicas no norte da Irlanda do Norte, em um circuito de 14 km conhecido como “O Triângulo”.

Na década de 1980, quando já era reconhecido como um astro do motociclismo, Joey Dunlop sofreu seu primeiro acidente grave — que, ironicamente, não foi de moto, mas de navio. Ele e outros 13 pilotos (além de suas motos) atravessavam o mar em direção a Isle of Man quando a embarcação atingiu uma fenda de corais e afundou. Todos os pilotos e a tripulação foram salvos pela equipe de resgate da cidade de Portaferry, as motos foram recuperadas e a competição aconteceu normalmente.

O longo de sua carreira, mesmo com a fama e o prestígio cada vez maiores, Joey Dunlop fazia questão de seguir sua vida normal na Irlanda do Norte. Durante os eventos ele geralmente deixava de lado as reservas em hotéis caros que a Honda lhe concedia para ficar acampado na área dedicada aos mecânicos e outros membros da equipe, fazendo ajustes nas motos por conta própria e misturando-se ao público, tirando fotos e distribuindo autógrafos.

Quando as câmeras eram da TV, porém, Dunlop mostrava-se visivelmente desconfortável e tímido, praticamente alheio à legião de fãs que acompanhava seu trabalho.

E, como qualquer ser humano, ele também era bastante supersticioso – sempre usava uma camiseta vermelha sob o macacão, sempre calçava as luvas na mesma ordem e sempre usava um capacete amarelo.

Joey Dunlop não fazia questão de alardear suas ações de caridade, mas em 1996 ele foi condecorado com Ordem do Império Britânico (Order of the British Empire, ou simplesmente OBE) por seus serviços humanitários no Leste Europeu. Por muitos anos, o próprio Dunlop levou pessoalmente comida e suprimentos a orfanatos na Romênia, na Albânia e na Bósnia.

Sua morte, quatro anos depois, aos 48 anos de idade, foi uma terrível surpresa. O motociclismo é um esporte perigoso, obviamente, mas até o momento o ano de Dunlop havia sido excelente. Em maio ele havia vencido o TT de Isle of Man em três categorias diferentes (seu terceiro hat-trick), e naturalmente estava bem animado.

Era o dia 2 de julho. Dunlop estava participando de um evento em Tallinn, na Estônia, disputado nas estradas entre as cidades de Prita, Kose e Kloostrimetsa. Ele já havia vencido corridas nas categorias de 600 e 700 cm³, e naquele dia estava correndo na 125 cm³.

Foi sua última corrida. Ao passar sobre uma poça de água na pista molhada, Dunlop desequilibrou-se e bateu contra algumas árvores na beira da pista. Ele morreu na hora.

A tragédia serviu para ilustrar a importância de Joey Dunlop para a comunidade do motociclismo – mais de 50.000 pessoas foram acompanhar seu funeral, que foi transmitido ao vivo pela TV irlandesa. Em sua homenagem, o troféu para o piloto melhor sucedido no Tourist Trophy foi batizado “Joey Dunlop Cup”.

O mais triste, porém, é que a morte de Joey Dunlop foi apenas a primeira a abater-se sobre a família de motociclistas. Em 2008, seu irmão mais novo, Robert Dunlop, morreu em um acidente durante os treinos para a Nort West 200. Dez anos depois, em 2018, seu sobrinho William Dunlop, filho de Robert, morreu nos treinos da Skerries 100, prova disputada na Irlanda do Norte.

Por outro lado, o irmão de William, Michael Dunlop, atualmente é o terceiro no ranking de vitórias em Isle of Man – foram 18 de 2007 para cá. Faltam apenas oito para ele alcançar o tio Joey.

ESTE Gol GTS 1.8
PODE SER SEU!

Clique aqui e veja como