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História Zero a 300

A história do 924, o primeiro Porsche com motor dianteiro – e arrefecido a água

Porsche é sinônimo de motor boxer na traseira, e ponto final – é esta a visão dos puristas. E é compreensível: foi com o 356, lá no fim da década de 1940, que a Porsche começou a fabricar carros de rua; e o 911, lançado em 1963, tornou-se um dos carros esportivos mais cultuados de todos os tempos. Ambos tinham motor boxer na traseira, e a Porsche sabe que jamais vai poder mudar esta tradição sem comprar uma bela briga com milhares (milhões?) de fãs e proprietários.

Acontece que uma fabricante não pode viver de um nicho – não uma fabricante do tamanho da Porsche, que gasta muito com infraestrutura, rede de concessionárias, seu programa de clássicos e, claro, o desenvolvimento dos carros. Assim, hoje pode-se comprar dois SUVs (Cayenne e Macan) e um sedã fastback (Panamera) com motor na frente, e todos eles rendem mais lucro à Porsche que o nine-eleven. Os mais radicais torcem o nariz, mas a real é que esta é mais uma questão de “aceita que dói menos”.

Mas quando foi que o primeiro Porsche com o motor na dianteira ganhou as ruas?

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O primeiro protótipo do 924, de 1972

Bem, foi em novembro de 1975, quando o Porsche 924 fez sua primeira aparição pública. O carro começou a ser desenvolvido logo no início dos anos 1970, e sua missão era difícil: criar um sucessor para o Porsche 914, modelo criado em parceria com a Volkswagen e lançado em 1969. Com carroceria quadrada e um motor flat-4 de quatro cilindros de origem VW, ele não foi exatamente um sucesso em seus primeiros anos e fez com que a Porsche se apressasse em surgir com algo melhor.

Era uma situação delicada, e a Porsche achou que a melhor saída seria uma revolução. O novo Porsche abandonaria não apenas o motor traseiro, mas também a configuração boxer (que já era considerada ultrapassada na época) e o arrefecimento a ar. A Volkswagen, com o K70 e depois com o Passat, seguiu pelo mesmo caminho.

A colaboração de 1969 com o 914 pode não ter sido exatamente um sucesso do ponto de vista mercadológico, mas para os departamentos de engenharia das duas empresas, foi uma beleza. A troca de recursos técnicos entre VW e Porsche ainda poderia ser explorada de uma maneira mais eficiente, e foi pensando nisto que as duas companhias firmaram um acordo: o novo Porsche usaria os motores de quatro cilindros em linha e arrefecimento líquido da Volks, que dependendo de como as coisas fossem se desenrolando, poderia até vender o carro em sua rede de concessionárias. No fim das contas, esta parte do plano foi cancelada e a Volks começou a desenvolver o Scirocco, com base no Golf, para a posição de esportivo da linha. Ele foi lançado em 1974 e foi um sucesso.

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Este Opel Manta é, na verdade, um Porsche 924 disfarçado, em testes na neve

A Porsche seguiu sozinha e, quando o 914 saiu de linha, em 1976, ainda faltavam alguns meses para que o 924 começasse a ser fabricado. Neste meio tempo, a Porsche colocou um quatro-cilindros no 911 e trouxe de volta o 912, que havia sido descontinuado em 1969. Sim, esta parte da história é meio bagunçada.

No fim das contas, quando o Porsche 924 começou a ser produzido, em meados de 1976, quem cuidava da produção eram funcionários da Volkswagen, que cedeu uma de suas plantas à Porsche para a fabricação do esportivo. Em termos de componentes, os únicos de origem VW eram o câmbio, emprestado do Audi 100; e o bloco do motor, que vinha do quatro-cilindros EA831 – que pode ser encarado como o antecessor do motor EA827, conhecido por aqui como Volkswagen AP. Embora tivesse um projeto distinto, o EA831 tinha diversas semelhanças com o motor AP, como o comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada, a instalação longitudinal e o radiador do lado esquerdo, mas era mais pesado e menos eficiente.

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De qualquer forma, o motor recebeu um novo cabeçote, projetado pela própria Porsche, que em vez de um carburador Weber usava um sistema de injeção Bosch K-Jetronic. Não era um motor exatamente potente: em sua versão americana, o 2.0 entregava parcos 95 cv – os EUA pós-crise do petróleo de 1973 exigiam motores mais comedidos em nome da economia de combustível e da redução na emissão de poluentes. Era o bastante para que o Porsche 924 americano chegasse até os 100 km/h em 12,6 segundos.

Lento e com motor na frente, o 924 deu dor de barriga nos puristas, mas tinha um trunfo: era um carro barato de fabricar e comprar, ao menos para um Porsche. Com isto, a fabricante conseguiu um desempenho mais do que satisfatório nas vendas em seus primeiros anos: se, em 1976, foram fabricados pouco mais de 5.000 exemplares, este número passou a mais de 25.000 no ano seguinte, sendo 7.500 destes dedicados ao mercado americano. Os carros vendidos nos Estados Unidos tinham os obrigatórios para-choques de impacto e refletores circulares nos para-lamas, mas até que não eram tão feios.

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Dito isto, o visual do 924 europeu era mais limpo e agradável. Além disso, sem qualquer tipo de equipamento para regular emissões, o motor quatro-cilindros entregava bem mais saudáveis 125 cv. O ano de 1977 também trouxe um câmbio automático de três marchas para o mercado americano, e as vendas seguiam consistentes no mundo todo.

Tal sucesso levou a Porsche a criar coragem e lançar, em 1978, o Porsche 928, o esportivo com motor V8 na dianteira que foi criado para… substituir de vez o 911. Foi uma ideia ruim, mas o carro até que fez sucesso como grand tourer, e só deixou o mercado em 1995, mas esta é uma história que só vamos contar outro dia.

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Enquanto isto, o 924 recebia algo mais que bem vindo: indução forçada. Lançado em 1978, 0 Porsche 924 Turbo respirava com a ajuda de uma turbina KKK operando a 0,7 bar para entregar saudáveis 170 cv. Disto isto, o sistema ainda era rudimentar: o turbocompressor só era resfriado pelo fluido de arrefecimento do motor, o que levava a baixa durabilidade e quebras constantes. Em 1979, o 924 Turbo Series 2 trouxe um turbo menor, operando com mais pressão e melhorias no sistema de injeção para entregar 177 cv. Nos EUA, por conta dos equipamentos de segurança, o carro era mais pesado e tinha menos potência: só 143 cv.

De qualquer forma, o 924 Turbo também fez sucesso: entre 1979 e 1983, vendeu mais de 11.000 unidades. Vale lembrar que, apesar de ser um Porsche “de entrada”, o 924 ainda era um Porsche, e não era um carro barato.

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A boa recepção ao Porsche 924 Turbo Foi o primeiro passo para transformar o 924 em um carro de corrida, ainda em em 1980.

Seu nome era Porsche 924 Carrera GT e ele tinha um bom conjunto de modificações para merecê-lo: além de para-lamas alargados na dianteira e na traseira, spliter frontal de poliuretano e uma asa traseira bem grande feita de borracha, o 924 Carrera GT tinha um intercooler maior (com um novo scoop no capô para alimentá-lo), taxa de compressão elevada e mais pressão no turbo. Com isto, a potência do motor 2.0 turbo chegava a 280 cv na versão de pista. O modelo de rua, para homologação, tinha 210 cv.

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Foram feitos, ao todo, 406 exemplares do 924 CGT, que serviu de inspiração para o visual do Porsche 944, lançado em 1982. Além disso, a Porsche apresentou duas outras versões ainda mais apimentadas em 1981: o Carrera GTS, que tinha 245 cv e faróis fixos, cobertos por uma lente de acrílico em vez de escamoteáveis e teve 59 unidades fabricadas; e o Carrera GTR – o mais adical e mais raro de todos.

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Graças a diversas modificações, como um intercooler maior, mais pressão no turbo e cárter seco, o motor de dois litros chegava a impressionantes 380 cv. Era mesmo um carro de corrida para as ruas, com interior aliviado e suspensão de pista. E isto lhe deu bastante exclusividade: só 17 exemplares foram fabricados em 1981, e cada um deles custava, na época, US$ 75 mil. Hoje em dia, isto dá uns US$ 200 mil.

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O Porsche 924 continuou sendo fabricado até 1988 sem grandes alterações visuais, porém a partir de 1984 ganhou um novo motor, desenvolvido totalmente in house, com motor de 2,5 litros e 160 cv. Agora chamado 924S, ele tinha desempenho semelhante ao do 924 Turbo, porém era um carro mais confiável e custava menos. O motor era emprestado do 944, seu sucessor, que já estava em produção desde 1982.

O 924 acabou sendo só o primeiro da linhagem, que continuou com o 944 de 1982 a 1991 e depois, com o 968 entre 1992 e 1995. Estes Porsche com motor dianteiro estão todos em evidência hoje em dia, com um revival forte dos anos 80 e 90 na cultura popular e, consequentemente, na cultura automotiva.