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Car Culture História

A verdade sobre o Supra de 300 km/h de Smokey Nagata e sua prisão nos anos 90

Sabe aquela sensação de que a década de 1990 foi um período “sem filtros” na sociedade como um todo? Foi uma época estranha, na qual programas de TV tinham crianças e modelos seminuas dividindo o palco, e desenhos animados e quadrinhos infantis eram regados a violência e bullying pesado.

E foi também quando uma revista sobre carros modificados levou um Toyota Supra com motor V12 de 900 cv para a Inglaterra a fim de cravar um recorde de velocidade em vias públicas, filmando tudo – incluindo o momento no qual o piloto, preparador e dono do carro, Kazuhiko “Smokey” Nagata, foi parado pela polícia e levado à cadeia mais próxima.

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Dizem que, após o ocorrido, Smokey Nagata foi enviado de volta para o Japão e banido de visitar o Reino Unido por 11 anos. Mas será que foi isto mesmo que aconteceu? Quanto há de verdade nesta história, e quanto é exagero?

No ano passado, Nagata deu uma entrevista à revista japonesa Option Tokyo para, finalmente, colocar os pingos nos is. E, de fato, a história real é um pouco diferente do que se conta por aí – mas igualmente impressionante.

O caso é que Smokey Nagata foi, de fato, convidado por uma publicação para visitar o Reino Unido. A revista se chamava Max Power, era britânica, e o convite não envolvia um recorde de velocidade em vias públicas, mas sim uma participação em um evento automobilístico. Em janeiro de 1998, esta revista visitou o Tokyo Auto Salon e, depois de dar uma conferida no estande da Top Secret – a preparadora que Smokey Nagata fundou depois de deixar o Mid Night Club, gangue de pilotos de rua mais notória do Japão – decidiu que queria um de seus carros na Inglaterra.

O carro em questão seria um Nissan Skyline GT-R R33 dourado, com quase 1.000 cv e velocidade máxima de 315 km/h, aferida nas ruas de Tóquio (confira o vídeo acima e veja com seus próprios olhos). Porém, o carro já estava com a agenda cheia para a semana do evento, por conta do início da temporada de provas de arrancada no Japão. A Max Power teve de “se contentar” com o Supra de Smokey Nagata – um carro preparado especificamente para duelos de zero a 300 km/h e, de forma totalmente herege, equipado com um RB26DETT biturbo no lugar do 2JZ.

Havia outro Supra com motor V12 1GZ, o mesmo do Toyota Century, mas não foi com este carro que Smokey Nagata viajou ao Reino Unido. No vídeo abaixo, aos 2:55, é possível ver o capô aberto e o RB26 alojado no cofre. Smokey diz que a potência ficava na casa dos 750 cv, e não 900 cv como se costuma dizer – o que, na verdade, torna o feito ainda mais impressionante. E destrói um dos mitos sobre a fatídica viagem de Smokey Nagata à terra da rainha.

Segundo mito: dizem que Smokey Nagata foi convidado pela Max Power para ir à Inglaterra especificamente para chegar aos 300 km/h na rodovia A1, que liga Londres, a capital inglesa, a Edimburgo, a capital da Escócia. Não é verdade. O que a revista queria era que o Supra fosse um dos cinco carros de preparadores convidados para o evento – que, segundo Smokey Nagata, estava mais para um Salão do Automóvel normal do que para um encontro de tuners como era o Tokyo Auto Salon.

E era proposital: a Max Power queria mesmo chamar a atenção. “O carro foi um sucesso no evento britânico. O Supra dourado com certeza causou bastante impacto entre os vários carros modificados por franceses e italianos”, disse Smokey Nagata à Option Tokyo.

A exibição do Supra no evento aconteceu no dia 3 de novembro. No dia 4, Smokey faria algumas gravações com o Supra em movimento e daria uma entrevista – e tudo seria gravado em vídeo.

Acontece que, já naquela época, Nagata costumava ignorar algumas leis de trânsito – ele já havia testado seus carros nas vias públicas do Japão inúmeras vezes, mas nunca havia sido pego em flagrante. Depois de algumas horas de gravação, foi ele quem decidiu aproveitar a madrugada dar umas esticadas na A1, em um trecho mais afastado ao norte de Londres. “Além de ter pouco trânsito, a rodovia tinha quatro faixas, e eu poderia pilotar com mais liberdade.”

A equipe de filmagem da Max Power, aproveitando a oportunidade, decidiu acompanhá-lo e registrar tudo. Smokey Nagata ficou testando o carro por cerca de duas horas antes de se dar por satisfeito. Ele estava reduzindo o ritmo e se preparando para retornar ao hotel quando a polícia apareceu, ligando as sirenes e perseguindo o Supra em alta velocidade. Embora pudesse simplesmente pisar fundo e sumir dali, Smokey achou mais prudente parar no acostamento e esperar as autoridades.

O momento exato da abordagem policial foi filmado, mas as fitas foram confiscadas pelas autoridades – todo o material, incluindo as entrevistas e outros momentos da viagem. Elas só foram liberadas depois que tudo foi esclarecido. É por isso que hoje temos acesso ao documentário na íntegra, e podemos assistir ao exato momento da abordagem.

Na entrevista à Option Tokyo, Nagata falou sobre as emoções que viveu durante seu breve período como um criminoso internacional.

“Ah, merda! Eu lembro que naquele momento pensei em tudo o que se possa imaginar. Sinceramente, achei que nossa empresa acabava ali. Naquela época as leis de trânsito na Inglaterra puniam severamente infrações de velocidade. Era como cometer suicídio nos trilhos aqui no Japão”, diz Nagata.

Três carros de polícia cercaram o Supra e dois policiais interrogaram Smokey. Exatamente na marca dos quatro minutos eles começam a fazer perguntas. “Onde está a fita? Você acha que isso aqui é um playground?” Smokey está audivelmente confuso, dizendo que não entende inglês.

“Eles me falaram várias coisas, e depois eu entendi que provavelmente se tratava dos meus direitos e do que eu deveria fazer depois da apreensão. E de repente eu perdi o chão. Uma policial sentou no banco do carona e eu fui seguindo eles até a delegacia.”

Smokey conta que a cela era de concreto, sem aquecimento, com cerca de 4×2 metros. Havia uma janelinha, uma cama sem colchão e um vaso sanitário.

“Fiquei lá a noite toda, e não consegui dormir. A temperatura era de mais ou menos 1°C, e eu não parava de pensar no pior cenário possível para meu futuro naquela cela fria. ‘Quantos anos vou ter que ficar aqui? A minha empresa vai falir? Será que as pessoas vêm me visitar do Japão? Ah, duvido muito! Depois que eu for solto e voltar para casa, aposto que a placa da Top Secret na oficina vai ter sido trocada por outra coisa!’ Era nessas coisas que eu pensava.”

O que Smokey não imaginava era que o efeito de tudo aquilo seria justamente o oposto.

No dia seguinte, às 9h da manhã, aconteceu um interrogatório de verdade, com um tradutor para Smokey. Ele se safou dizendo que tudo aquilo era um hobby – ele viajava pelo mundo com seu carro, acelerando até o limite só para se divertir. “Os policiais estavam definitivamente preocupados com as câmeras”, diz o lendário preparador. Eu insisti que era um hobby, dizendo ‘sabe, eu só estava acelerando, como eu ia saber? Fotógrafos!’ Aparentemente os policiais estavam atrás da Max Power. Cara, é a mesma coisa em qualquer país. Eles sempre querem derrubar a comunidade do tuning.”

O julgamento aconteceu na mesma tarde, em 5 de novembro de 1998. Nagata acredita que eles aceleraram o processo pelo fato de ele ser estrangeiro – para livrar-se dele de uma vez. E a sentença foi bem menos pior do que ele imaginava: uma multa de £ 154 (por volta de £ 270 em 2020) e a suspensão de sua carteira de habilitação internacional por 28 dias.

Smokey até conseguiu ir dirigindo com o Supra de volta para o hotel – onde desmaiou na cama.

No dia seguinte, enquanto se preparava para ir embora, ele recebeu uma ligação de um dos editores da Max Power. Foi então que Smokey soube que o caso havia repercutido de forma gigantesca da noite para o dia – havia uma multidão esperando por ele no lobby do hotel, incluindo equipes de TV que queriam uma exclusiva. Ele teve de fugir pelos fundos para conseguir chegar ao aeroporto a tempo de voltar para casa.

Alguns meses depois, Nagata conversou novamente com a Max Power. E ficou sabendo que, graças a todo o caso, ele acabou se tornando uma espécie de herói entre os entusiastas britânicos – e pediam que ele voltasse o quanto antes. E uma repercussão parecida aconteceu no Japão.

“Fiquei chocado”, diz Nagata. “Depois do incidente, conseguimos mais clientes internacionais. Muitos estrangeiros pediam meu autógrafo. Mas eu não me senti à vontade para retornar à Inglaterra por um bom tempo. Não conseguia esquecer o pesadelo que vivi naquela cena. Já se passaram vários anos agora mas, de longe, aquilo tudo foi uma das piores experiências que já passei.”

E foi por isso que o preparador manteve-se longe da Inglaterra por 11 anos, retornando apenas em 2009. Ele não foi banido – depois de pagar a multa, estava limpo. Só não queria voltar para lá.

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