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Avaliações

Aceleramos o Land Rover Discovery Sport: quando menos pode ser mais

Você deve se lembrar do Range Rover Sport V8 que aceleramos em agosto do ano passado: um transatlântico de 4,85 m, 2.310 kg e 510 cv, no qual tudo era extremado. Luxo, conforto, imponência, desempenho, sede por combustível e, claro, preço: mais de meio milhão de reais – uma cobertura penthouse sobre quatro rodas, iate sobre o asfalto, faça a sua metáfora.

O que temos para mostrar na avaliação de hoje é o carro mais importante do line up da marca, a grande porta de entrada que veio com a missão de substituir o Freelander 2 e de ser uma versão mais curta e dinâmica do (futuro) novo Discovery. Um veículo cuja versão topo de linha custa menos da metade do Sport V8, tem meia tonelada a menos na balança, pega mais leve em termos de powertrain e capacidade off-road, mas possui muito de sua imponência e luxo, apresenta um conjunto mais funcional para o uso em base diária e é mais confortável e espaçoso que o Evoque, que custa mais caro. Adoçou o paladar?

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Eis então o Land Rover Discovery Sport, que chega às concessionárias já neste mês, com etiqueta a partir de R$ 179.900 e que vai até os R$ 232 mil da versão HSE Luxury, a que avaliamos. Sua importância explica o fato de ele passar a ser produzido na nova fábrica brasileira de Itatiaia (RJ) a partir de 2016, se tornando o primeiro Land Rover fabricado no País (o antigo Defender era manufaturado por processo CKD). Até lá, seguirá importado da planta de Halewood, Inglaterra, onde era feito o seu antecessor Freelander 2. Como é de praxe, vamos começar apresentando o cardápio.

 

Preços, versões e equipamentos

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O Discovery Sport veio ao Brasil em três versões, todas com o mesmo motor do Evoque, fabricado na planta de Valência da Ford: 2.0 turbo Ecoboost a gasolina, 240 cv a 5.500 rpm, 34,6 mkgf de torque entre 1.750 e 4.000 rpm, casado à transmissão automática ZF 9HP, de nove marchas, e sistema de tração nas quatro rodas regulável Terrain Response. De acordo com a Land Rover, o modelo chega aos 100 km/h em 8,2 s, máxima de 200 km/h. O navegador por GPS é opcional em todas as versões, bem como o pacote com a terceira fileira de bancos (que inclui sistemas de rebatimento, saídas de ar-condicionado e estepe reduzido), que vem de série na Europa.

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Land Rover Discovery Sport SE (R$ 179.900): ar-condicionado dual zone, sete air bags, sistema multimídia com tela touchscreen de 8″, entradas USB, iPod, auxiliar e Bluetooth, sensores de chuva e crepuscular, bancos em couro e tecido, controle de velocidade de cruzeiro, sensor de estacionamento traseiro com câmera de ré, sistema de áudio de 80W com seis alto falantes, assistente de estabilidade de trailer, assistentes para descida de rampas (HDC), controles de tração e de estabilidade, estepe full size.

Land Rover Discovery Sport HSE (R$ 202.900): acrescenta ao conjunto teto solar panorâmico, faróis de xenônio com assinatura em LEDs, rodas de liga leve de 18″, bancos em couro com ajustes elétricos, sensor de estacionamento dianteiro, entrada USB e saída de ar-condicionado para os passageiros de trás, sistema de áudio de 250W com 10 alto falantes mais subwoofer, acabamentos prateados nos para-choques.

Land Rover Discovery Sport HSE Luxury (R$ 232.000): todos os equipamentos acima, mais rodas aro 19″, carpetes premium, bancos em couro premium Windsor com memória nos ajustes (dianteiros com climatização), apoio de cabeça central atrás, iluminação interna personalizável, sistema de áudio Meridian de 825W com 16 alto falantes mais subwoofer, vidros atenuadores de raios solares.

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Para o Discovery Sport, a Land Rover anunciou um plano de cinco anos de revisões básicas pelo preço total de R$ 990. Estas revisões incluem trocas de óleo e filtros (óleo, ar, combustível, cabine), bem como fluido de freio.

 

Pele parecida, outro esqueleto

Olhando a foto abaixo, fica claro que o Discovery Sport flerta com a ideia visual de ser uma versão encurtada do Range Rover Sport (4,59 m contra 4,85 m, entre-eixos de 2,74 m – 21 cm mais curto). Mas sob esta pele similar há um esqueleto bastante diferente – e não estamos falando só da diferença do V8 supercharger para o quatro-em-linha turbinado.

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Se o Range Rover utiliza um sofisticado monobloco todo de alumínio, com chapas rebitadas e coladas em vez de soldadas (processo também empregado no Jaguar F-Type), o Discovery Sport se envereda por solução um pouco mais mundana: monobloco de aço combinado a alguns painéis de carroceria de alumínio (capô, teto e porta-malas), material que também está presente nos braços superiores de suspensão. Exatamente como o Evoque e o Freelander 2, sua plataforma é a LR-MS, uma versão 90% modificada e reforçada da Ford EUCD (“European D-class”), que também estrutura os Volvo XC60, V60 e S60.

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A grade tipo colmeia e a coluna C puxada da carroceria e invertida para a frente permanecem como os legados da família Freelander e Discovery, mas em todo o resto o Sport deixa muito claras as influências recentes que revolucionaram a marca. Lanternas e faróis estreitos, chanfrados e com vários jogos de planos na assinatura de LED e canhão de luz; linha de cintura ascendente e linha de teto descendente; uma certa sensação conceitual (Evoque), mas combinada a janelas grandes e pilares sólidos (Range Rover Sport).

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O resultado é um veículo de proporções respeitáveis, muita sensação de sofisticação, mas mais amigável ao uso na cidade que os irmãos mais velhos da Range Rover. Ao mesmo tempo, ele oferece mais sociabilidade em termos de espaço, iluminação natural e arejamento que o Evoque.

 

O iate de sempre

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A primeira recepção ao puxar a massuda maçaneta do Land Rover é olfativa: o perfume levemente adocicado do couro Windsor, exclusivo da versão HSE Luxury, quase tão bom quanto o couro Oxford dos Range Rover – este é ainda mais liso e macio. A sensação é de entrar em uma loja de sapatos.

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Logo em seguida, você é recebido por um ambiente que inspira sofisticação e robustez, lembrando um pouco o conceito de cabines náuticas – note o painel de faces largas e planas. Ele fica sim abaixo do Evoque (com o qual ele compartilha o cluster de instrumentos) em termos de acabamentos, especialmente na região do console central e da central multimídia – note os botões pequenos e retangulares de plástico preto liso, sem a mesma sofisticação dos irmãos da Range Rover –, mas ainda é um interior de alto nível.

A tela central de 8″ do sistema multimídia touchscreen tem uma interessante tecnologia Dual View, presente em outros veículos da marca. Ele permite que o passageiro da frente assista à televisão ou a um DVD com fone de ouvido (o veículo acompanha três jogos), enquanto o motorista usa o sistema de GPS ou o rádio – não se trata de divisão de tela, mas sim, de um intrincado jogo de refração. Os plásticos claros que revestem os painéis de porta e a face inferior do painel possuem uma belíssima textura de grãos de areia, bastante suave, e refletem a luz de forma muito parecida com o couro que está nos bancos e na face superior do painel.

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A ergonomia de direção é bem típica de um SUV: assoalho alto e quadril elevado, algo entre o Evoque e o Range Rover Sport. É confortável, não incita direção esportiva, mas apresenta boa ergonomia de uso, lembrando um pouco um sedã de luxo. Os pedais mereciam cobertura de alumínio: a borracha exposta tira percepção de valor para quem os notar…

Como era de se esperar, o espaço traseiro é melhor aqui que no Evoque quatro portas. São oito centímetros a mais de entre-eixos (2,74 m contra 2,66 m), uma linha de teto mais afastada e balanço traseiro maior, permitindo que o encosto do banco fique em um ângulo mais relaxado. O veículo permite que quatro adultos de 1,80 m viajem muito bem acomodados – a parte central do banco permite um quinto passageiro, não tão confortável quanto os demais.

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O porta-malas oferece 454 litros de capacidade (o Evoque oferece 420 l), expansível para até 981 litros com os bancos rebatidos.

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Para todo uso

Como todo Land Rover, o Discovery Sport oferece capacidade off-road. O vão-livre do solo é de 21,2 cm (o mesmo do Freelander 2), tem capacidade para atravessar trechos alagados com até 60 cm de altura (10 cm a mais), mas perdeu um pouco em ângulos de ataque e break-over em relação ao antecessor: 25º e 21º respectivamente, redução de 6º e 2º. O ângulo de saída é o mesmo, 31º. Esta urbanização do Land Rover tem muito a ver com o perfil luxury do comprador deste tipo de veículo, que fará sim suas trilhas alternativas e passará por terrenos bastante castigados, mas não chegará ao nível extremo como era o perfil dos antigos Discovery da década de 1980.

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As soluções de transmissão lembram muito as incorporadas pelo Jeep Renegade Trailhawk: sua primeira marcha tem relação curtíssima e faz o papel de reduzida quando solicitado no off-road, em condições normais ele traciona apenas nas rodas dianteiras e um sistema de acoplamento viscoso envia até 50% do torque para as rodas traseiras conforme a ECU detecta escorregamento dos pneus (essa proporção pode variar severamente de acordo com o mapeamento selecionado no painel: areia, neve, lama, asfalto). Há assistente para descida em rampas (muito útil em barro molhado), além de assistente de estabilidade para rebocar trailers e os já esperados ESP e controle de tração.

Já que estamos falando de asfalto, como se comporta o irmão mais novo da família?

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O Discovery Sport, apesar do nome, trabalha com cargas de suspensão mais relaxadas que o Evoque. Isso, somado ao fato de ele ter entre-eixos mais longo e de ser quase dez centímetros mais alto, o deixa bem mais confortável para enfrentar a buraqueira do nosso asfalto – basicamente você não desvia de nada que não sejam crateras. E mesmo elas você pode encarar, deixando claro que sua proposta envolve um uso mais amplo do que o BMW X3 e o Audi Q5, mais orientados ao puro asfalto. Por outro lado, dinamicamente ele tem menos da pegada de um crossover, como o Evoque, e mais da de um SUV de verdade: um pouco mais de rolagem de carroceria, respostas um pouco menos precisas, feedback limitado do sistema de direção em relação ao limite de aderência. Mas ainda assim oferece um bom montante de grip para a sua categoria.

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A questão central, na verdade, é que o veículo sequer se propõe a isso. Com 1.841 kg, seus 240 cv e 34,6 mkgf de torque são suficientes para oferecer bom desempenho, mas não esportivo. O foco é superar ladeiras, andar carregado, realizar ultrapassagens na estrada, frear com muita segurança (os discos possuem 325 mm na frente e 300 mm atrás). No fim das contas, por mais entusiasta que você seja, rapidamente você entende que o barato aqui é usá-lo como um cruiser executivo: um bom ritmo de estrada e de cidade, sem o oceano de fúria e som do irmão mais velho Range Rover Sport.

Como referências de consumo, a 100 km/h constantes obtive média de 12 km/l. Em ritmo de estrada, flutuando entre 120 e 135 km/h com subidas e descidas, o consumo baixou para 10 km/l. Na cidade, com pouco trânsito, 8 km/l. São boas médias se considerarmos o seu porte e massa. Mas, claro: um pouco mais de alumínio nesta carroceria seria muito bem vindo!

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Bottom line

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A nova porta de entrada ao mundo dos Land Rover acertou em cheio a sua proposta e resolveu de vez a carência extremada causada pelo desenho envelhecido do Freelander 2 (que, acredite, ainda está à venda). Seu porte combinado ao design conceitual e interior luxuoso o deixou a meio caminho em percepção de valor em relação ao caríssimo Range Rover Sport – e não foram poucas as pessoas que ficaram surpresas ao descobrir que, na verdade, o Land está aí para brigar com X3 e Q5 e que poderia custar quase um terço do Range. As diferenças acabam ficando longe dos olhos: além do motor brutal V8 de 510 cv e da transmissão sofisticada, o Range Rover Sport tem amortecedores de carga variável, altura ajustável eletronicamente, braços em duplo A na dianteira e monobloco e carroceria toda de alumínio – e, claro, é bem maior e mais luxuoso.

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Isso posto, a grande questão é o tamanho da batata-quente que o Discovery Sport deixou nas mãos do Evoque. Afinal, ambos possuem a mesma base mecânica, mas o Discovery é mais espaçoso atrás, roda mais confortável, tem mais porta-malas e apresenta melhor visibilidade. O Range Rover tem em suas mãos o trunfo do design extremamente arrojado e um melhor acabamento interno, mas será que isso garante que os clientes pagarão entre 20 mil e 50 mil reais a mais? Certamente haverá canibalização, o que não deixa de ser bom para a marca: com o Discovery Sport, na verdade a Land Rover acaba ampliando o spread de compradores em potencial, abraçando os que sentiam que o Evoque quatro portas era apertado ou duro de suspensão. A tendência é que o Evoque, aos poucos, se torne um veículo de perfil mais específico que atualmente.

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[ Fotos: Fabio Aro ]

 

Serviço: test-drive & afins

Land Rover Discovery Sport: Agende o seu test-drive, encontre a concessionária mais próxima, cadastre-se na Land Roverhome do produto.

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Ficha técnica: Land Rover Discovery Sport HSE Luxury

Motor: quatro cilindros em linha, transversal, 1.999 cm³, 16V, cabeçote com duplo comando de válvulas variável (mais levante variável no escape), injeção direta combinada a sistema multiponto, gasolina, turbo

Potência: 240 cv a 5.500 rpm

Torque: 34,6 mkgf a 1.750 rpm

Transmissão: automática de nove marchas, tração nas quatro rodas

Suspensão: dianteira do tipo McPherson e traseira do tipo multibraços

Freios: Discos ventilados na frente e sólidos atrás

Pneus: Continental Cross Contact LX Sport 235/55 R19

Dimensões: 4,59 m de comprimento, 2,06 m de largura, 1,72 m de altura e 2,74 m de entre-eixos

Peso:  1.841 kg

Itens de série: ar-condicionado dual zone, sete air bags, sistema multimídia com tela touchscreen de 8″, entradas USB, iPod, auxiliar e Bluetooth, sensores de chuva e crepuscular, controle de velocidade de cruzeiro, sensores de estacionamento dianteiro e traseiro com câmera de ré, assistente de estabilidade de trailer, assistentes para descida de rampas (HDC), controles de tração e de estabilidade, estepe full size, teto solar panorâmico, faróis de xenônio com assinatura em LEDs, rodas de liga leve de 19″, bancos em couro com ajustes elétricos e memória (dianteiros climatizados), entradas USB e saída de ar-condicionado para os passageiros de trás, acabamentos prateados nos para-choques, sistema de áudio Meridian de 825W com 16 alto falantes mais subwoofer, vidros atenuadores de raios solares.

Preço: R$ 232.000 (abril de 2015)