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Car Culture

Afinal, quais são os carros mais velozes do planeta atualmente?

O tópico “carro mais rápido do mundo” é controverso há muito tempo. É fácil saber qual deles é o mais rápido do planeta atualmente – o Bugatti Chiron Super Sport 300+, que beliscou os 500 km/h mais recentemente. No entanto, seus antecessores frequentemente são objeto de debate, pois há certa inconsistência quanto à validade de determinados recordes, e também quanto aos critérios utilizados para tornar um veículo elegível (ou não) para ser um recordista de velocidade.

Tomemos como exemplo o próprio Chiron. A tentativa de recorde foi feita com uma unidade modificada pela Bugatti com ainda mais potência no motor W16 quadriturbo – 1.600 cv contra 1.500 cv da versão comum – e uma carroceria modificada, mais longa, a fim de reduzir o arrasto aerodinâmico e, consequentemente, obter maior velocidade final. Dito e feito: no circuito de Ehra-Lessien, na Alemanha, o Chiron chegou aos 490,484 km/h (ou 304,773 mph) em 2 de agosto de 2019.

Depois de anunciar que esta será sua última tentativa de quebrar recordes, a Bugatti anunciou o Chiron Super Sport 300+, edição especial limitada a 30 unidades, que começarão a ser entregues a partir de 2021 – o que, tecnicamente, tornará o recordista de velocidade um carro produzido em série de forma retroativa. O Chiron Super Sport 300+ terá o mesmo motor de 1.600 cv, a carroceria mais longa e o mesmo esquema de pintura, com fibra de carbono exposta e detalhes em laranja. Contudo, seu limitador de velocidade só permitirá atingir os 483 km/h em uma pista como Ehra-Lessien.

A velocidade foi certificada pela Associação de Inspeções Técnicas da Alemanha (TÜV), mas não foi considerado um recorde pela Guinness World Records, pois foi aferido apenas em uma direção. A Bugatti disse que uma segunda aferição, no sentido contrário, não seria possível pois com tantos restes realizados em Ehra-Lessien em sentido horário, a granulação do asfalto aponta para aquela direção – e, com isto, uma volta no sentido anti-horário representaria risco à segurança do piloto.

Contudo, além do recorde absoluto de velocidade, existem outras modalidades – com outros recordistas, claro. É sobre isto que viemos falar neste post: os outros recordes de velocidade para carros que estão em vigor atualmente, não apenas em velocidade absuluta, mas também em diferentes condições, e aferidos de diferentes formas.

É impossível não começar falando da Koenigsegg. Se a Bugatti é uma empresa do Grupo VW e possui todo um respaldo de uma das maiores gigantes da indústria, o sueco Christian von Koenigsegg faz tudo por conta própria – com a ajuda de uma bela rede de contatos, claro. Uma das mais expressivas fabricantes independentes de supercarros, a Koenigsegg está na vanguarda em muitas tecnologias. São deles, por exemplo, os projetos do motor sem comando de válvulas, que usa atuadores eletro-hidráulicos controlados pela ECU em vez da árvore de cames; ou o revolucionário câmbio de nove marchas com múltiplas embreagens do Koenigsegg Jesko.

De acordo com a Koenigsegg, o Jesko é capaz de chegar aos 482 km/h – não supera o Chiron Super Sport, mas ainda é absurdamente rápido (e, coincidentemente, também tem 1.600 cv em seu motor biturbo de cinco litros, quando abastecido com etanol E85). Entretanto, o recordista de velocidade oficial da Koenisegg é outro: o Regera.

Recentemente, em 23 de setembro de 2019, o Koenigsegg Regera tornou-se o carro mais rápido do mundo no 0-400-0 km/h – ou seja, partindo da imobilidade, chegando até os 400 km/h, e depois freando até o zero novamente.

O teste foi feito em uma pista de pouso nos arredores de Lidköping, na Suécia, onde o Koenigsegg Regera cumpriu sua tarefa em 31,49 segundos. Segundo Christian von Koenigsegg, o carro não passou por nenhuma modificação de desempenho. Ele era exatamente igual a qualquer outro Regera, com um motor V8 biturbo de cinco litros e três motores elétricos para entregar, de acordo com a fabricante, “mais de 1.500 cv” e “mais de 203 kgfm de torque”. Com tanque cheio e todos os fluidos, o Regera pesa 1.590 kg. As únicas modificações realizadas foram a instalação de uma gaiola de proteção integral e um cinto de segurança de quatro pontos, apenas para a segurança do motorista.

Os números ficam ainda mais impressionantes quando os quebramos. A Koenigsegg diz que o Regera foi de zero a 400 km/h em 22,87 segundos, percorrendo uma distância de 1.613,2 metros. Em seguida, foram precisos mais 8,62 segundos ao longo de 435,26 metros para desacelerar totalmente e parar. No total, o Regera percorreu 2.048,46 metros nos 31,49 segundos.

Christian von Koenigsegg observou no comunicado à imprensa que as condições da pista não eram ideais: o asfalto velho era irregular, o que impossibilitou a condução do carro em uma linha reta, e também não proporcionava a maior aderência possível. Assim, caso encontre um cenário mais adequado, o Regera deve cumprir os 0-400-0 km/h em menos de 2.000 metros, e ainda mais rápido.

Mas sabem qual é a parte mais intrigante desta história toda? É que, não intencionalmente, este post é quase todo sobre a Koenigsegg. Isto porque a empresa sueca também é detentora de outros recordes de velocidade além do 0-400-0 km/h desde 2017.

Para começar, o Agera RS é atualmente o carro mais rápido do mundo, de acordo com a Guinness. Para quem não lembra, ele é movido por um V8 biturbo de cinco litros com 1.160 cv a 7.800 rpm e 102 kgfm de torque entre 2.700 e 6.170 rpm, acoplado a uma transmissão de dupla embragem e sete marchas, que leva a força apenas para as rodas traseiras. Em novembro de 2017, foram realizadas duas aferições em uma rodovia em Nevada, nos EUA. Na primeira, o Agera RS chegou aos 457,94 km/h. Na segunda, foram 436,44 km/h. A média entre as duas aferições foi de 447,19 km/h, e este recorde ainda não foi superado usando critérios válidos.

Importante observar que, caso a Bugatti resolvesse tentar mais uma vez, provavelmente o Chiron Super Sport 300+ quebraria este recorde sem dificuldade. Se ele repetir o mesmo desempenho na primeira aferição, só precisaria passar dos 402 km/h no sentido contrário. Mas a fabricante já disse que isto não vai acontecer – e, mesmo que mudem de ideia, a cúpula de executivos da Volkswagen, a dona da Bugatti, dificilmente vai autorizar um novo teste por questões de segurança.

Em outubro de 2017, o Agera RS fez o 0-400-0 km/h em 36,44 segundos. Um mês depois, em novembro, o mesmo carro baixou ainda mais este tempo – apenas 33,29 segundos. O primeiro teste foi feito em uma rodovia na Dinamarca, e o segundo, nos EUA.

Este recorde, aliás, foi tomado do Chiron com louvor: em 2017, o Bugatti fez o mesmo em 41,96 segundos, percorrendo mais de 3.200 metros.

Depois desta, Christian von Koenigsegg nem precisa se incomodar em quebrar o recorde de velocidade absoluta. Ele já provou que é possível chegar ao nível de desempenho do Chiron sem apelar para quatro turbos e 16 cilindros em um carro de quase duas toneladas. E, sendo dono de sua própria empresa, Christian von Koenigsegg pode fazer o que quiser.

E não é só isto: o Agera RS quebrou outros três recordes naquele ano, e todos permanecem em pé.

Os testes foram feitos na Alemanha, em um trecho da Autobahn que liga as cidades de Frankfurt e Dormstadt. No quilômetro lançado em via pública, o Agera RS marcou 437,17 km/h de velocidade média na primeira medição; e 456,09 km/h na segunda medição, feita no sentido contrário. A média das duas aferições foi de 445,63 km/h.

O recorde anterior durou quase 80 anos, tendo sido conquistado pelo Mercedes-Benz W125, carro de competição movido por um oito-em-linha supercharged de 650 cv. Em janeiro de 1938, ele atingiu a velocidade média de 432,7 km/h no quilômetro lançado.

Utilizando o mesmo método, o Agera RS também quebrou o recorde de velocidade na milha lançada (1,62 km): duas aferições em direções opostas foram realizadas, sendo que na primeira o hipercarro marcou 454,72 km/h e, na segunda, 434,8 km/h. A média, portanto, foi de 444,7 km/h.

Da mesma forma, este recorde pertencia ao Mercedes W125, que no mesmo dia de janeiro de 1938 marcou 432,4 km/h na milha lançada.

Por fim, o recorde absoluto de velocidade em uma via pública também pertence ao Agera RS, que chegou aos 457,94 km/h em uma aferição sem limite de distância.

Há outro aspecto notável nisto tudo: o carro usado pela Koenigsegg em todos estes testes não foi um protótipo da fábrica preparado especialmente para quebrar recordes. Foi o carro de um cliente, e totalmente stock. A Koenigsegg observou que o exemplar foi equipado com uma gaiola de proteção removível e com um motor mais potente, chamado 1MW, com 1.360 cv – 200 cv a mais que o motor de série. E a fabricante fez questão de frisar que ambos os itens estavam disponíveis como opcionais na época, e não eram modificações específicas para os recordes.

Isto posto, Christian von Koenigsegg não é a única estrela deste post. Em uma largada parada, o recordista de velocidade em uma milha é um velho conhecido do público: o Ford GT da preparadora texana M2K Motorsports, que já há alguns anos é habitué da Texas Mile – um dos principais eventos de velocidade do planeta.

O carro decorado com as clássicas cores da Gulf Oil é equipado com o mesmo motor V8 de 5,4 litros com o qual saiu da fábrica m 2006. No entanto, o supercharger original deu lugar a dois turbocompressores Precision 8685, e o motor também recebeu cabeçotes retrabalhados, virabrequim reforçado, pistões JE feitos sob medida e bielas forjadas. Controlado por uma ECU Motec e abastecido com etanol E85, o V8 entrega cerca de 2.500 cv no virabrequim – ou por volta de 2.000 cv nas rodas. Estas são estimativas da M2K Motorsports, e a preparadora diz que ainda não encontrou um dinamômetro capaz de aferir estes números com segurança.

Mas vamos ao que interessa: em março de 2019, o Ford GT da M2K Motorsports atingiu os 483,4 km/h. E ele quebrou seu próprio recorde – na edição de 2017 da Texas Mile, o mesmo carro chegou aos 472,5 km/h.

A surpresa fica por conta do recordista do quilômetro lançado – um dado bem mais difícil de encontrar, aliás. Pelo que dizem alguns fóruns e sites na internet, este recorde pertence a um Porsche 911 modificado por uma preparadora alemã chamada 9FF.

Batizado 9FF GTronic 1200, o carro é um Porsche 911 Turbo da geração 997 que passou por um overhaul muito abrangente. O boxer teve o deslocamento ampliado de 3,6 para 3,9 litros, recebeu reforços no bloco, e foi melhorado com pistões forjados, bielas de titânio, virabrequim de 82,4 mm, válvulas maiores, comando variável modificado, novos coletores de admissão e escape, e um regulador de pressão ligado à ECU, que modifica a pressão dos turbos de acordo com a velocidade do motor e do carro. Tudo foi feio in house pela própria 9FF.

O motor é acoplado à uma transmissão Tiptronic reforçada e reprogramada, com refrigeração adicional e diferencial de deslizamento limitado com distribuição de torque fixa – 40% para as rodas da frente e 60% para as rodas de trás.

Segundo a 9FF, o GTronic tem “mais de 1.200 cv” a 7.200 rpm e 117,2 kgfm de torque a 4.200 rpm. O bastante para chegar aos 316,8 km/h em 1.000 metros.