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Alexandre Garcia, o Ogro do Cerrado – Parte 2 | Flatout Entrevista

Olhando novamente a entrevista da semana passada com o AG, percebemos que muita coisa ficou de fora: dos caminhões aos Fiat, não cobrimos todo o leque de coisas que o nosso amigo verde e horroroso fez ou anda fazendo em seu covil no cerrado brasileiro. Resolvemos voltar a conversar com ele. Desta vez, conversamos baseados nos carros e com isso, é claro, um monte de história legal apareceu.

De desembarques na Normandia na segunda Guerra até um par de Fiat feitos especialmente para jornalistas em Betim, nada escapa da mente inteligente, e das mãos ágeis do Alexandre Garcia. Divirtam-se:

 

MAO: AG, conta para a gente a história dos seus caminhões. Como e por que você se meteu com isso?

Alexandre Garcia: Caminhão é um treco engraçado. Aqui no Brasil não, mas nos EUA se vê muita gente envolvida com caminhão. Aqui o pessoal não acordou para isso ainda. Existem vários caminhões que são interessantes, mas que para trabalhar é ruim, e por isso são muito baratos. Por exemplo, um C60 com um motor Chevrolet Brasil: é uma coisa maneira. Você pode não querer ele para trabalhar, para puxar carga. Mas se você tem um Opala bravo, ou uma caravana de arrancada, sei lá, algo assim. Não seria legal carregar ele num caminhão assim? Um C60 a gasolina pô. E hoje tá fácil, barato, ninguém mais quer isso. É escória! (Risos)

Mesmo os diesel; como são motores diesel antigos, alguns até com injeção indireta ainda, ninguém mais quer para trabalhar. Aí você começa a ver que a máquina pode ter uma vida nova. De lixo, passa a ser algo útil de novo. E ao contrário do automóvel, trocar motor por qualquer coisa que você queira é bem mais fácil, do ponto de vista legal.

E é barato, cara. Os caminhões meus aqui foram coisas assim… irrelevantes em grana. Principalmente comparando com coisas como Dart e picape D100. Os dois caminhões meus eu comprei a diesel inclusive.

Você está com dois caminhões então? Dodge 950 e 700?

Isso. O D700 é um guincho de arraste, 1971. O D950 é um cavalo mecânico. Mas são caminhões completamente diferentes, apesar do mesmo motor. Ambos vieram para mim com motor MWM 226 seis. Diesel sem turbo, injeção direta, com 130cv. Mas o cavalo tem freio a ar, e direção hidráulica, então é ótimo de guiar, parece uma caminhonete. Lerdo, claro, mas… Já o guincho é com direção mecânica e aquele freio misto, vácuo e óleo. Bem menos amigável vamos dizer assim… (risos)

Mas eram tão bons ou tão ruins quanto qualquer um da época deles. É uma experiência diferente, eu curto isso. O D700 estou trocando com um amigo num D60 com motor Detroit Diesel. Estou montando um V8 a gasolina no D700, e aí faço a troca.

É um V8 318 mesmo, correto?

Isso, um 318 original, porque inclusive um dos problemas nesse tipo de coisa é giro. O motor não pode girar a 5000, 6000rpm, porquê a embreagem explode, não foi feita para isso.

Então vamos trocar as chaves. Peguei o D60 Detroit. E na verdade, já tenho outro D60 que comprei em pedaços, para usar as peças, ficou de reserva…(risos) as peças desse carro ainda são ridiculamente baratas, e ainda existem.

Esse Detroit série 53, que é o pequeno, de alta velocidade, é um motor relativamente fácil de trabalhar com ele, ainda que seja bem pesado. O 71 é mais interessante, mas você sofre com a relação, entende… Ainda preciso descobrir como alongar esta transmissão.

 

Lembro que você sempre dizia que o Detroit era o único Diesel que você curtia. A exceção à regra sensacional que você inventou: “Alcool para se embebedar, Diesel para lavar peça, Gasolina para o carro andar.” (risos) O compressor dessa série 71, diesel e dois tempos, é de onde saíram os blower para V8, correto?

Sim. Esses motores, como não comprimem a mistura no cárter como os dois tempos mais comuns, precisam de um compressor. Uma bomba Rootes que comprime ar para a admissão. O escape é por válvulas no cabeçote, e admissão é por abertura na camisa. Tem um monte de coisa interessante este motor, como por exemplo: o pino do pistão é vedado. Tem selo mecânico. Não há consumo de óleo na mistura, a parte abaixo do pistão é vedada como num motor a gasolina normal, quatro tempos, e tem bronzinas, bomba de óleo, normal. Muito interessante.

Olha, se nos EUA, onde tudo está disponível e fácil, um motor desses prosperou por tanto tempo, não deve ser pouca coisa. Este motor começou na segunda guerra. As barcaças de desembarque na Normandia eram movidas por motores 6-71.

Não sabia disso! Historicamente importante ainda por cima!

Sim, 6-71. Existiu também uma versão para tanques, onde iam dois 6-71 acoplados. E tem a história dos blowers deles nos V8 também. Até hoje no aftermarket existem motores com medidas de Detroit, apesar de serem mais desenvolvidos: os 4-71 vão bem em V8 de bloco pequeno, os 6-71 nos bloco-pequeno com maior deslocamento ou preparação, ou em big-block mais caretas. Daí em diante, precisa de um 8-71.

O que não se explica bem é que o blower do Detroit tem muita folga nos lóbulos. Colocar um blower desse de ferro velho em um V8 é ruim, porque esquenta muito. É uma máquina ruim termicamente. Precisa de réguas de Teflon na ponta dos lóbulos, para melhorar a vedação.

 

Entendi. Acredito que antigamente alguém começou a usar de ferro-velho, mas depois evoluiu. Hoje a medida pode ser do Detroit, mas os compressores são diferentes, fabricados agora e novos. Cópias melhoradas.

Sim, e hoje tem gente que já até abandonou o padrão Detroit de tamanho. A B&M notadamente tem compressores projetados para V8 com tamanhos deles, diferentes. E fornecem kits prontos, só instalar. Blower de ferro velho é coisa do passado. Essa época já foi, faz tempo! Coisa de setenta anos atrás... inclusive os primeiros eram tocados por corrente de moto, já pensou? Um perigo danado, se arrebenta.

Aquela coisa do Mad Max de liga-desliga é lenda, pô, não existe. Blower é um treco legal, mas complicado. Os Top-Fuel americanos, antes de usarem compressores tipo parafuso, quando era Rootes ainda, precisavam de 500 cv só para tocar o compressor!

Mas voltando ao caminhão, eu penso que tem campo para fazer coisas bem legais. O Tyrone Malone, nos EUA, eu vi exibições dele, com um Peterbuilt com motor 12-71 turbo, o negócio era sério de verdade, não é só para mostrar não. O caminhão é uma opção legal também.

 

E os Chevette? Fale um pouco deles.

Pois é cara, Chevette é algo que me remete ao JLV. Eu fiz Chepala lá nos anos 1980. O primeiro foi em 1987. Eu nem conhecia o JLV e a Motor 3, conheci por isso. Meu pai estava internado no hospital, e o enfermeiro veio conversar comigo sobre isso, acabou pedindo para eu fazer um para ele. Fiz na verdade mais de um para ele.

Aí tem o motor quatro-cilindros de Opala. Tinha um monte de idéias já sobre isso. Eu sabia que se eu juntasse o vira do 153 num bloco do 151 eu teria um 164. Mas não tinha pistão para isso. O jeito de fazer era usar a biela do 151, pegava o pistão mais baixo que você conseguisse achar e cortava um pedaço de 2,7 mm em cima. Uma coisa que não é bom fazer, mas era o jeito. O ideal era achar um pistão de Chevy 383 small-block, mas até hoje não é fácil de achar, imagina naquela época.

Muito tempo depois acabei mexendo em Chevette de novo por uma brincadeira entre amigos. Eu tinha um V6 de Blazer sobrando, que foi uma raspa e resto de um Camaro 1969 que eu ajudei alguém a montar os acessórios. Compramos o V6 com ar, direção, tudo, e usamos os acessórios no Camaro. Aí sobrou um V6.

Alguém me falou: vamos colocar o V6 num Lada? Falei que sim, ia ser o romance do Ogro do Cerrado com a cadela russa (risos). Só que acabou não rolando. Aí alguém quis fazer com Chevette. Fui ver se dava certo, tirei o motor do Chevette, coloquei o V6 e serviu certinho, uma beleza.

Aí começam as maldades. Você sabe, a gente pega a capa seca do câmbio do Opala cinco marchas e bota no Chevette, faço um volante menor para o V6, ou trago um de fora, embreagem de Opala, e deu. O cárter dá um pouco de trabalho, mas dá para fazer. Um V8 Chevrolet de bloco pequeno pesa o mesmo que um 4100, e o V6 derivado desse V8 pesa pouca coisa a mais que o 151. Que sabemos pesar só 30 kg a mais que o motor de Chevette. Então, não muda muito o carro. Se você fizer direito, acaba com um carro que pesa coisa de 70-60 kg a mais na roda dianteira. Só. Fica bem legal.

E se você tiver jogo de cintura, dá para fazer esse V6 ficar carburado, e montar distribuidor. Coletor de alumínio, coletor de escape tubular mais leve, volante mais leve, ainda dá para melhorar isso. No final, esse Chevette acabou ficando para mim. Tenho até hoje. Chama “Semente estragada”.

Aí, como minha filha adora o carro, e acabou caindo outro Chevette aqui no colo, vou fazer esse para ela. Vai ser um Chepala, mas com motor 2,7 litros, pistão de 383, cheio de equipamento vintage, um comando Iskenderian 525B, cabeçote trabalhado com válvula de V8, coletor Envemo para dois Solex 40…

Eu fiz um Chevette 350 V8 para um cliente também. Chevette é, como você mesmo fala, o nosso Ford 1932. Vale tudo ali. Menos colocar seis-cilindros de Opala!

Aí é pedofilia! (risos) Como dizia o Mahar! (risos)

O Mahar era uma figura né? Pô ele era muito engraçado. Me divertia muito com ele.

Demais! Ele era demais! AG, fale um pouco de suas picapes, por favor.

Caminhonete é um treco legal também, eu sempre curti. Eu penso o seguinte, quem gosta de carro, acaba precisando de uma picape. Tudo bem, picape com chassi é meio caminhão, não é perfeita, ok. Mas é super útil, eu não sobrevivo sem picape. Eu tenho a D100, que foi um carro que usei no trabalho por anos, até eu pegar a Ram.

A D100 era sua caminhonete de uso?

Sim, comprei em 1991 bem derrubada e reformei durante um ano. Aí usei ela de 1993 até 2001, quando comprei a Ram. Dali em diante ela aposentou. Não trabalhou mais. Tem um 318 com quadrijet.

A sua Ram é V10?

Sim, V10, 488, 8 litros. Tem apenas 300 cv, só. E apenas 57 kgfm de torque. Quase nada. Inclusive o D950 tem uma enorme inveja do torque dela… (risos)

Esse motor é derivado do V8 LA (o Chrysler small-block V8)?

É derivado do LA, que virou Magnum com comando roller e sem eixo dos balancins, com pedestal. Mas pelo fato do V10 ser odd-fire, porque o V é a 90°, ele não tem distribuidor, é com bobinas individuais. Cinco bobinas duplas na verdade. A bomba de óleo, que no V8 é acionada pelo distribuidor, aqui é um georotor na ponta do virabrequim. É um motor bem interessante.

Foi uma ousadia grande porque, quando mataram o Big-Block em 1978, ficaram sem motor grande. A GM tinha o Silverado 454, e a Ford o 460. A Chrysler ficou com o Cummings 5.9 diesel só, mas sem motor a gasolina grande. Aí fizeram o V6 com dois cilindros a menos. Veio a ideia de adicionar dois e fazer o V10 para picape. Depois o Viper apareceu com o V10, que acabou virando de alumínio, e com comando mais bravo, nele.

Como é usar esse carro no dia-a-dia? Dá muita manutenção? Peças?

Comprei o carro em 2001, e até ali o carro tinha sido muito negligenciado; quase nenhuma manutenção. Tinha 54 mil milhas, próximo dos 100 mil km. O que fiz até hoje: Bomba de gasolina, meia dúzia de correia de acessórios. Pastilha de freio gastava bastante, mas aí arrumei umas pastilhas cerametálicas nos EUA, e acabou o problema. Velas algumas vezes, rolamento de roda… pouca coisa, nada anormal. Está com 200 mil km, viajei muito com ela.

A RAM e a Grand Cherokee na Ogrolândia

É como a Gran Cherokee também, não dá problema não. Essa comprei de um amigo comum, você sabe, verde, com o V8 5,2 litros. Comprei em 2008, comigo a 12 anos. Eu queria uma 5.9, mas como essa apareceu, peguei.

AG, outro carro que não falamos foi do Charger preto. Fala um pouco dele, por favor.

Esse Charger preto é o seguinte: Eu tinha o Dart, estava na faculdade, garoto. Tirei férias, trabalhei nas férias feito louco e recebi um dinheiro. Com esse dinheiro comprei um Charger. Era preto também, mas era um carro muito ruim, tinha sido batido forte de frente. Aí apareceu esse que ainda está comigo: 1975, originalmente amarelo Mondego. Pintei ele de preto e tirei o teto de vinil. Ficou todo preto, e sem teto de vinil, algo que não existe de fábrica: todos os Charger tinham vinil. Não gostava de vinil, na época. O pessoal fica louco hoje com isso, mas é o que é. Ele era meu carro de corrida, de arrancada, no RJ. Ele e o Dart amarelo 4 portas.

Movimentos migratórios de Ogros são complicados.

Fiquei com esses três carros, o Dart verde com 360, o Charger preto com um 318 bravo, comando enorme, girador, e o 4 portas amarelo 383. Eram quase carros de corrida mesmo, mas eu usava na rua, ia trabalhar e tal. Depois quando vim para Brasília, passei a usar menos, a tolerância para carro bravo aqui não é das maiores.

Foi aí que você alugou uma cegonha para trazer os carros para Brasília?

Isso, vieram em duas cegonhas! Na vinda o caminhão quebrou, e eu tive que consertar o caminhão na estrada! (risos) Essas coisas só acontecem comigo! (risos) Foi uma aventura, nem te conto. Fui chegar as 23h em Brasília. Uma barulheira descarregando esses Dodge barulhento, uma baixaria danada. (risos)

Outros carros que não falamos no outro dia: Tempra e Brava.

O Tempra é um duas portas, cinza, Turbo, original de fábrica. Fiz uma reforma completa nele, motor, câmbio, pintura. Não é modificado, só reformado, falta alguns detalhes para acabar só. Já o Brava é o seguinte: Depois do Bravo, que falamos daquela vez, o meu amigo Gustavo, comprou o Brava do Feldman. É um dos três carros que a Fiat fez com motor 2.4 de Marea. Um deles morreu na fábrica, um foi para o Nasser e outro para o Feldman. O do Feldman agora está comigo.

Isso para mim é que nem Hemi cuda 1971, Camaro Yenko. Pô fizeram só três carros meu! Mais raro impossível! Pegaram três carros HGT da linha, e trocaram os motores. Fizeram na oficina de protótipo. Roda de Marea turbo, caixa de 2.0, curta, motor 2.4. Couro dentro. Freios maiores, de Marea 2.4. É muito legal.

Eu o reformei também, estava bem judiado quando chegou aqui. Mas para mim, tem um significado enorme. História, lenda. Não pode ser desprezado. A fábrica fez, meu.

A coleção está bem completa né? Bravo, Brava e Marea.

É, na verdade, aconteceu o seguinte: Bravo e Brava HGT. Aí tem um Marea 2.4 dos velhos, pré-facelift, que é raro. Aí tem o 2.4 da Joana, o meu primeiro. Aí tenho um Turbo do antigo, e um Turbo dos novos. E uma Weekend vermelha, que era a figurinha que faltava no álbum. Ah, e tem um turbo que está desmontado também.

AG, pelamordedeus, separa esses carros. Eles tão se reproduzindo aí meu! (risos)

Deixar luz da garagem acesa! Além disso tem um Sedicevalvole (Fiat Tipo) que veio num rolo aí, e um Fiat Cupê. Verde, bem bonito. Falta arrumar um Uno Turbo agora.

E os carros americanos?

Tem um Camaro 1968 totalmente original, sobrevivente, com um V8 small-block 400 bem fortinho no lugar dos seis em linha 250 original. Tem o Chevelle Malibu 1967, que nasceu também seis mas está com um 454 forjado, forte, com coletor dual plane lindo da GM. Vai virar drag-car. E também os Plymouth, a Valiant e a Belvedere. E aquele Cobra réplica que você conhece , que veio com um Donovan de alumínio Big-Block, com blower, injeção mecânica, caixa Richmond de cinco marchas para 1200cv, etc.

OK, obrigado AG. A conversa foi ótima como sempre. Mais alguma coisa que queira deixar como mensagem para o pessoal?

O pessoal me associa muito ao carro antigo, V8, aquela coisa toda. Mas na verdade, o carro antigo, por mais que você goste dele, você tem que estar ciente das limitações que ele tem. Normalmente não é mais uma coisa que dê para brincar sem se preocupar com o resultado: peças mais raras e caras, e tal. E tem a questão financeira, está ficando um negócio caro. Mais caro de comprar, manter, fazer. Mas por outro lado existem uma infinidade de carros legais aí disponíveis, e baratos. Veja por exemplo o Renault 19 16S: um treco legal pacas, e vale absolutamente nada! É tão irrelevante financeiramente que as pessoas nem anunciam mais! E tem mais coisa por aí. Carros Ford como Focus e Mondeo, meu, ninguém liga. Lembra do seu Nissan Maxima?

Sim, um carro inacreditável pelo preço que paguei, R$ 8.000. Manual, com um V6 esquizofrênico: achava que era italiano nascido em Maranello, apesar dos olhinhos puxados.

A diversidade do Ogro

Pois é! As pessoas parecem que não enxergam isso. Que existe diversão limpa, boa, barata, segura, e que você não precisa vender um rim para conseguir. Tá ao alcance da mão. O entusiasmo não dá para fazer caber numa só marca. Nem só num tipo de carro. Abram a mente, e abram os olhos, para outras coisas. Qualquer coisa que te chame a atenção, é um mundo de aprendizado e diversão esperando para ser explorado. Não tenha medo, e meta as caras. Agarre a vida sem medo!