FlatOut!
Image default
Carros Antigos

Alfa Romeo GTV, o meu amor adolescente não-realizado

Quando o assunto é Alfa Romeo, há uma espécie de charme outsider, uma paixão underground, um amor para iniciados. Como jazz e drinques amargos, são coisas que você passa a apreciar em algum momento da vida – e antes disso, simplesmente não atrai no seu íntimo, embora você sempre possa dizer que respeita ou admira por uma questão de aceitação social.

O mala do seu vizinho ou aquele pseudoentusiasta chutador de pneus vão fazer questão de falar que são automóveis frágeis, de manutenção difícil, ruins de vender, e o seu o critério de tesão automotivo usa mesmo essas balizas, meu caro, compre um Corolla e mergulhe fundo, se entorpeça nesse estranho conceito de felicidade sobre quatro rodas depender de critérios racionais e previsíveis. Não acho que posso te chamar de entusiasta, mas você é uma peça importante para o mercado de automóveis cor de prata de tração dianteira.

Captura de Tela 2014-04-25 às 20.14.00

Minha paixão pela Alfa Romeo começou pra valer quando eu tinha uns dezesseis anos. Já contaminado pelo vírus da ferrugem, gostava de visitar uma pequena loja de carros antigos que ficava na zona sul de São Paulo. Acho que o nome era Gold Car, ou Golden Car. Golden Retriever. Golden… something. Lembro-me de um Mustang hardtop 1967 vermelho que ficava por lá, juntando poeira. Foi o meu sonho de consumo por longos seis meses. O preço de R$15.000 era absurdo, comparado aos outros carros da loja. Hoje, um carro destes é vendido por quase cem mil reais.

Mas enfim. Eis que um belo dia, surgiram duas novas jóias por ali. Nunca tinha os visto na vida, e meu coração generoso bateu forte por ambos. Um Mercury Cougar XR7 1970 branco e uma Alfa Romeo GTV 1974 vermelha, com interior caramelo. O gigante e a pequena donzela. Eu estava completamente dividido. Se o Cougar inspirava sensação de maldade e grandeza, uma versão mafiosa de um Mustang (e isso ele de fato era, pois compartilha a mesma plataforma), a Alfa me fazia sentir particularmente bem só de entrar no carro, e ver todos aqueles instrumentos bem dispostos em um cluster tão charmoso, o pequeno volante de madeira e a alavanca de câmbio quase colada à direção. E todo aquele perfume de curvim e couro envelhecido, curtido na combustão de mais de três décadas. Uma conexão difícil de racionalizar.

24099879-770-0@2X

A GTV é um carro pequenino. Ao vivo é menor que nas fotos. Baixinho e charmoso – fosse uma mulher, seria a Audrey Hepburn. Entre-eixos menor que o de um Chevette. Qualquer um fica cabeçudo dentro dela e os ombros ficam muito próximos aos do passageiro. Um automóvel com um tremendo de um motor bialbero (duplo comando), todo de alumínio, cabeçote com câmaras hemisféricas, válvulas de escape arrefecidas com sódio e duplo comando. Tração traseira, como todo esportivo deve ser. E o charme das linhas de Bertone, com uma história de muito sucesso nas pistas de corrida, subidas de montanha e ralis, em suas variações GTA, GTAm, etc. Incrível se considerarmos como a Itália era pobre no pós-guerra.

Captura de Tela 2014-04-25 às 20.34.46

O incrível é que eu não sabia nada disso, bulhufas. Mas estava hipnotizado, senti que estava dentro de algo extraordinário sem saber. Foi amor à primeira vista, fisgado no olhar e consolidá-lo ao vesti-la. Sem explicações, razões técnicas, sem nada senão a mais pura sintonia entre homem e máquina. Eu estava ali dentro e tudo o que eu queria era dirigi-la, pilotá-la. Possuí-la. Empatia, cumplicidade, um monte de sentimentos que humanizaram o charmoso carrinho. Tudo o que eu sabia é que eu queria aquele carro, mais do que tudo.

Por R$ 6.000.

Seis mil reais.

Queima meu estômago só de lembrar a merreca que se pedia por um carro com a pintura ainda original (apenas desgastada), com interior impecavelmente original e motor roncando direitinho. Mas eu, estudante, sem carta de motorista, sem emprego, apenas podia sonhar. E continuei sonhando.

Alfa GTAm do grego Rokkos Anavasi. Um míssil.

Bem. Passados poucos anos, eu já tinha formado na minha cabeça que queria uma Alfa GTV. E por um acaso, meu pai conheceu alguém ligado à produção de um pocket book  que tínhamos aqui em casa chamado “Alfa Romeo – Toda a História”, que, confesso, até hoje não sei se era apenas uma tradução ou se era realmente um trabalho autoral daqui. De qualquer forma, liguei para ele. Para a minha profunda dor e tristeza, o maledetto transformou a ligação em uma genuína sessão de linchamento automotivo! Ah, a lata apodrecia fácil, bah, o motor era uma porcaria, argh, a elétrica é um lixo imprevisível, cada frase que ele pronunciava me cortava até os ossos e rasgava em mais um pedaço o meu sonho alfista. Claro, ele estava tentando ajudar. E claro, sabemos que Alfa Romeo é mesmo para iniciados. Mas confesso entre vocês aqui: refletindo hoje, eu acho que ele não conhecia o carro de que ele estava falando. Foi uma conversa esquisita, sem o nível de detalhamento que naturalmente surge quando se conversa com alguém com experiência em algum carro.

Mas enfim, eu, sendo um bundão frouxo como todo adolescente, recuei. E guardei estes sentimentos pela Alfa Romeo GTV dentro do sótão da minha alma.

Com o passar dos anos, quando já tinha o meu igualmente amado Charger R/T (que veio antes do Dart), fui conhecendo donos de Alfas GTV. Pilotos, colecionadores, entusiastas, donos de todo tipo, com apenas uma coisa em comum: todos extremamente felizes com os seus pequeninos italianos. Claro, problemas sempre acontecem – é assim com todo carro antigo. Mas um carro antigo bem cuidado entrega felicidade e pode ter certeza de vez em quando apronta as suas. Essa é a máxima que vale. Quer previsibilidade e dormir de meias, volte ao segundo parágrafo deste texto e fique por lá.

P1010001

Toda vez que vejo uma passando na rua, sinto aquela doce pontada no coração. O amor adolescente não realizado. Platonismo. Saudades.

É, meus amigos. Por trás daquele projeto brutamontes V8 de 450 cv, pneus semi-slick, gaiola e fibra de vidro por todos os lados que é o meu Dodge Dart; reside um coração alfista. E digo-lhes uma coisa: hei de possuir uma em minha garagem antes de partir.

Você tem alguma paixão automotiva adolescente não-realizada? Puxe uma cadeira, sirva-se com uma dose de vinho e me conte!