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AMC Javelin: o muscle car “esquecido” feito para brigar com o Mustang

Nos anos 60, o segmento dos chamados “pony cars” — muscle cars menores e mais ágeis, em uma definição rápida — era dominado pelas chamadas três grandes de Detroit. A Ford começou tudo em 1964, com o Mustang. Depois vieram a Chevrolet, em 1967, com o Camaro; e a Chrysler, com o Dodge Challenger e o Plymouth Barracuda em 1970. Mas estes são os nomes que todo mundo lembra.

Em 1968, foi lançado aquele que pode ser considerado o “outro” pony car americano. Seu nome era AMC Javelin, e ele foi o carro que colocou sua fabricante, a American Motors, no radar daqueles que procuravam um pony car.

A American Motors Corporation foi formada em 1954, depois da união das gigantes Nash e Hudson, naquela que foi a maior fusão corporativa da história americana na época. Não demorou para que a companhia conseguisse se firmar financeiramente ao continuar vendendo os modelos de maior sucesso da Nash e da Hudson, como o Ambassador e o Hornet, por mais alguns anos.

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Eram carros bonitos, baratos e confiáveis, o que garantiu à AMC uma boa posição no mercado na virada da década de 1960. Além disso, entre os carros compactos, a AMC oferecia os modelos da submarca Rambler — um belo diferencial em relação às concorrentes.

Mas nem toda boa fase dura para sempre.

Em 1964, chega o Mustang. Com ele, toda uma legião de jovens compradores interessados em um esportivo bonito, potente e bom de preço começa a esvaziar os estoques das concessionárias Ford. A AMC tinha concorrentes de peso para carros maiores, como o Ford Torino ou o Dodge Charger, mas era preciso mais do que isto para combater o novo pony car da Ford.

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A “arma” em questão foi se chamava AMC Javelin. Ele foi apresentado em agosto de 1967 e chegou às lojas no mês seguinte — exatamente um ano depois da estreia do Chevrolet Camaro. Projetado por Richard A. Teague (que, mais tarde, ficaria conhecido pela primeira geração do Jeep Cherokee, de 1983), o Javelin tinha um perfil muito atraente, linhas musculosas e uma silhueta que, segundo a AMC, misturava características de hardtopfastback — uma maneira esperta de atrair todo tipo de público, mesmo sem recursos financeiros para oferecer mais de uma versão de carroceria, como fazia o Mustang.

Usando a plataforma do Rambler, a AMC criou o Javelin para ser um pony car moderno, compacto e barato. Os superiores de Teague queriam um carro prático, que tivesse bom espaço no porta-malas e no banco traseiro. Teague, contudo, conseguiu convencê-los a dar mais prioridade às formas do carro, a fim de garantir que mesmo os que não tivessem interesse (ou condições) de comprar um esportivo com motor V8, se interessassem pelo Javelin por seu visual.

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Assim, a versão de entrada usava um seis-em-linha de 3,8 litros e 147 cv com carburador de corpo simples, ou 157 cv com carburador de corpo duplo. Era possível, ainda, optar por um V8 de 4,8 litros com dupla carburação e 225 cv. Contudo, caso você quisesse um motor verdadeiramente potente, era só escolher o chamado “Go Package”.

O V8 343 (5,6 litros) com carburador quádruplo e 284 cv era só o começo: o Go Package também incluía freios a disco, suspensão preparada, diferencial de deslizamento limitado, ponteiras de escape duplas, faixas decorativas nas laterais e rodas Magnum 500 de 14 polegadas. A transmissão podia ser automática de três marchas ou manual de quatro marchas — em ambos os casos, com alavanca no assoalho.

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Era o bastante para que o Javelin fosse capaz de chegar até os 100 km/h em oito segundos, com máxima superior aos 190 km/h. O quarto-de-milha era cumprido em 15,4 segundos.

Em meados de 1968, o Go Package ganhou mais uma opção de motor: um V8 de 390 pol³, capaz de entregar 319 cv e 58,7 mkgf de torque — mais do que suficiente para levá-lo até os 100 km/h na casa dos sete segundos.

O Javelin era maior e mais espaçoso por dentro do que os rivais Mustang e Camaro, e tinha suas formas descritas como “bonitas e empolgantes” pela imprensa especializada. Mas além do visual acertado de todos os ângulos, com uma imponente grade dupla e faróis redondos na dianteira, laterais musculosas e traseira com caimento muito harmônico, o Javelin impressionou por suas soluções técnicas no campo da segurança.

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Elas eram simples, mas muito bem sacadas: as colunas “A” eram revestidas com fibra de vidro do lado de dentro do carro, a fim de torná-las menos perigosas em caso de acidente, e não havia acabamentos cromados no interior a fim de evitar reflexos que ofuscassem o motorista. Havia, também, encostos de cabeça nos bancos e cintos de três pontos — algo que estava longe de ser comum na época. Tudo isto garantiu que, em 1968 e 1969, o Javelin fosse um sucesso de vendas, com mais de 95.000 unidades emplacadas.

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A virada da década marcou a primeira e única reestilização do Javelin, que ficou maior e mais musculoso, seguindo a tendência apresentada pelo próprio Mustang um ano antes. O capô ficava mais longo e a traseira recebeu novas lanternas, mais largas. O resultado era, sem dúvida, um carro mais robusto e imponente, ainda que a maioria dos fãs do Javelin prefira o visual anterior.

Mecanicamente, os motores de seis cilindros em linha permaneciam idênticos. Já os V8 de 4,8 e 5,6 litros deram lugar a dois novos motores: um 304 (cinco litros) com carburador duplo e 228 cv, e um 360 (5,9 litros) de 248 cv com carburador de corpo duplo ou 290 cv com carburador de corpo quádruplo. Quando equipado com motor V8, o Javelin também recebia um capô com scoop funcional para o sistema de admissão de ar frio do tipo ram-air.

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O Go Package também estava de volta e, além do V8 390 de 325 cv e das melhorias disponíveis no modelo anterior, agora contava com sistema de arrefecimento otimizado, barra estabilizadora na dianteira e diferencial com relação final de 3,54:1. Equipado com a transmissão manual de quatro marchas, o Javelin com Go Package era capaz de chegar aos 100 km/h em 6,8 segundos.

Em 1971, foi a vez da segunda geração. Além de ficar sete centímetros mais longo (4,870 mm contra 4.800 mm no modelo anterior) e receber uma nova mudança de estilo, com grade dianteira em peça única e uma traseira mais sisuda, o Javelin ganhou uma aparência ainda mais musculosa — talvez até demais para o gosto do público, mas era esta a tendência do início dos anos 70.

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Enquanto os motores básicos de seis e oito cilindros continuavam essencialmente os mesmos, o V8 do Go Package teve o deslocamento ampliado para 401 pol³ (6,6 litros), enquanto a potência aumentou para 340 cv. Ainda que o 0-100 km/h não tenha se alterado de maneira significativa, o quarto-de-milha agora era cumprido nos 14 segundos baixos.

A partir daí, as atualizações de estilo começaram a ficar mais contidas — em 1972, as lanternas retangulares deram lugar a peças circulares, parecidas com as do Chevrolet Corvette — e os motores começaram a ter a potência reduzida, como efeito da crise do petróleo de 1973.

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O mais prejudicado era o motor de 401 pol³, que passou a entregar 258 cv. Por outro lado, quando saiu de linha em 1974, o Javelin era o único muscle car vendido nos EUA a oferecer uma versão com motor V8 voltada ao desempenho.

Além disso, foi exatamente nesta época que o AMC Javelin conseguiu sucesso em outro departamento: nas pistas. Sob o comando da Penske Racing (que, até 1970, cuidava da equipe da Chevrolet), a AMC levou para casa os títulos de 1971 e 1972 da Trans-Am — sendo que, em 1971, Mark Donohue ainda conquistou o título de pilotos ao volante de um Javelin.

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Nada disso foi suficiente, porém, para que o Javelin firmasse seu nome no imaginário entusiasta da mesma forma que seus contemporâneos. Isto certamente se deve à salada de marcas e nomes que tomou conta da AMC a partir de 1970, quando a companhia assumiu o controle da fabricação e venda dos modelos da Jeep. Foi o primeiro passo para a eventual aquisição da AMC pela Chrysler em 1987 — e, neste meio tempo, houve também uma parceria com a Renault que resultou na venda do Renault 5, como AMC LeCar, entre 1976 e 1983.