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Automobilismo

As provas mais longas da história da F1 | Lendas da Fórmula 1

Em 1997, um jovem talento brasileiro chamado Gustavo Kuerten, chegou pela primeira vez às finais do lendário torneio de Roland Garros, um das quatro disputas do Grand Slam de tênis — ou seja: um dos quatro torneios mais importantes do planeta quando se fala deste outro esporte bretão.

Sua trajetória até aquela final histórica, naquele ensolarado domingo de junho, contudo, foi televisionada pela Rede Manchete, então uma emissora decadente, endividada e prestes a fechar as portas — ela sairia do ar em 17 de maio de 1999. Era um atleta brasileiro de alto nível, alegrando uma manhã de domingo depois de tantos anos. Por que nenhuma outra emissora se importou em transmitir esse momento histórico do esporte mundial?

Porque partidas de tênis não têm hora para acabar. E atrações de TV sem hora para acabar atrapalham o restante da grade, o que traz algumas complicações para o departamento comercial. O mesmo vale para esportes disputados por muito tempo sem intervalos. Quem tem mais de 35 anos lembra das antigas regras do vôlei, em que era preciso recuperar a vantagem para pontuar. Os sets eram intermináveis e o espaço publicitário era limitado para os veículos de comunicação.

Com o basquete era semelhante: dois períodos de 20 minutos significavam 20 minutos sem intervalos comerciais na TV e no rádio — ou 20 minutos sem ganhar dinheiro. Por isso a NBA adota, desde 1946, a divisão em quatro períodos de 12 minutos. A partir de 1994 a FIBA começou a aceitar partidas de 2×20 ou 4×12 e somente em 2000 foi adotada a atual divisão da partida em quatro períodos de 10 minutos, mais viável para os meios de comunicação.

No caso da Fórmula 1, as corridas sempre tiveram hora para terminar, mas elas nunca contavam com o imprevisto. Se a prova fosse paralisada por qualquer razão, o relógio era parado até a relargada. Assim, em caso de bandeiras vermelhas, a duração da prova se tornava imprevisível. A regra mudou em 2012, depois que a Fórmula 1 viu a corrida mais demorada de sua história — demorada, não longa.

Aconteceu em 2011 no Canadá: 4h04min32s. Quatro horas, quatro minutos e 32 segundos de prova, mas não de corrida. Por isso disse que foi a mais demorada, mas não a mais longa — o vencedor correu os 305.270 metros previstos.

Debaixo de uma chuva fortíssima, os 24 carros largaram atrás do safety car e lá ficaram até a quinta volta. Com a pista encharcada, os pilotos começaram a disputa por posições, mas ela só durou três voltas: Hamilton e Button se tocaram e Hamilton foi forçado a abandonar o carro na beira da pista, causando a entrada do safety car pela segunda vez. Mais cinco voltas em fila indiana, atrás do Mercedes prateado.

Na 13ª volta o safety car saiu da pista e os pilotos voltaram a disputar posições e a fazer suas trocas de pneus, mas na 19ª volta uma tempestade trouxe a chuva de volta com força total e o safety car entrou na pista pela terceira vez. Depois de seis voltas enfileirados e sem o menor sinal de trégua da precipitação, a direção de prova suspendeu a corrida. Àquela altura o GP do Canadá já estava com mais de 40 minutos e apenas 25 voltas completadas — quase 1:40 por volta.

A interrupção durou mais de duas horas e a corrida só foi retomada às 15:50, com o safety car liderando o pelotão por mais nove voltas (26 a 34) — a disputa só foi reiniciada a partir da volta 35, quando a chuva parou e a pista começou a secar. Então começaram as trocas de pneus e o caos de posições se instalou. Numa das disputas, Button e Alonso se tocaram, o espanhol rodou e acabou preso na zebra. Sem conseguir tracionar devido à grama molhada, o safety car foi acionado pela quinta vez.

A entrada desta vez foi rápida: a 41ª volta já foi aberta com o safety car fora da pista. Com a pista cada vez mais seca, a corrida finalmente aconteceu pra valer — ao menos até Nick Heidfeld se arrebentar e espalhar pedaços de seu carro por toda a pista na volta 56. No giro seguinte o safety car entrou em cena pela sexta vez enquanto os fiscais limpavam a pista e, três voltas depois, a corrida foi retomada, desta vez até a volta 70, completando os 305 km previstos inicialmente.

Depois desta edição do GP do Canadá, a FIA mudou o regulamento para limitar o tempo das provas considerando o tempo de bandeira vermelha. Até então as corridas tinham que ser terminadas em até 2 horas de pista, independentemente do tempo em que a corrida ficasse interrompida — como foi o caso da prova canadense. A partir de 2012, as corridas precisam ser concluídas em até duas horas de pista ou quatro horas considerando o tempo de suspensão. É por isso que o GP de Singapura de 2017, por exemplo, terminou com 58 voltas em vez das 61 previstas.

 

A corrida mais longa?

Agora… se o GP do Canadá de 2011 foi o mais demorado, mas não o mais longo, qual foi a corrida com a maior distância total da história da Fórmula 1?

Oficialmente foram as 500 Milhas de Indianápolis de 1951 a 1960, porque durante este período a prova americana fazia parte do calendário da F1 por uma questão de tradição, pois ela chegou a compartilhar o regulamento com a F1 por muito tempo e até era incluída no mundial de construtores nos tempos pré-F1. Estas provas tiveram todas 800.600 metros, que é a distância das 200 voltas ao redor do Indianapolis Motor Speedway.

Mas eu e você sabemos que a Indy 500 nunca foi realmente uma prova da Fórmula 1 — ela era apenas parte do calendário, mas poucos atravessavam o Atlântico (em ambos os sentidos) para disputar o resto da temporada.

Portanto, o que nos interessa é saber qual prova de F1 foi a mais longa de todas quando não consideramos a Indy 500. A resposta, neste caso, é o GP da França de 1951, realizada no circuito de Reims-Gueux. Na época, Reims tinha 7.816 metros, uma extensão relativamente comum para a época.

O caso é que, mesmo com o regulamento exigindo um mínimo de 300 km, os organizadores da prova decidiram realizá-la com 77 voltas. Faça as contas: 77 vezes um percurso de 7.816 metros. Estamos falando de 601.832 metros — mais de 600 km de corrida, ou duas corridas em uma só, sem parar.

Um fato curioso é que, na época, as equipes podiam trocar os carros dos pilotos, então depois de ter problemas com seu carro, Juan Manuel Fangio assumiu o volante do Alfa Romeo 159B de Luigi Fagioli, enquanto Alberto Ascari trocou de carro com José Froilán Gonzalez. Nesse caso, Fangio e Fagioli foram declarados vencedores, dividindo a pontuação, enquanto Ascari e Froilán Gonzalez foram declarados os segundos-colocados, também dividindo a pontuação.

Fangio após vencer a prova

Isso só aconteceu outras duas vezes em toda a história da Fórmula 1. No GP da Argentina de 1955, Nino Farina dividiu uma Ferrari com José Froilán Gonzalez e Maurice Trintignant, e depois dirigiu outra Ferrari com Umberto Maglioli, que também foi dividida com Maurice Trintignant. Como resultado, ele ficou em segundo e terceiro lugar ao mesmo tempo, assim como seu colega/rival francês.

Depois, no GP da Grã-Bretanha de 1957, Tony Brooks e Stirling Moss venceram a corrida dividindo um Vanwall — e também os pontos. A ironia é que o segundo colocado, Luigi Musso, por não ter dividido a direção com outro piloto, anotou seis pontos, enquanto Moss e Brooks dividiram entre si os nove pontos da primeira colocação — cinco para Moss e quatro para Brooks. Ficar em segundo valeu a pena…

 

O circuito mais longo da F1

Curiosamente, o circuito de Reims-Gueux jamais foi o mais longo da F1, apesar de ter sediado o GP mais longo da história. O traçado de 1951, sequer era o traçado mais longo de Reims-Gueux, quanto mais da F1.

Em 1957 a Fórmula 1 incluiu em seu calendário a tradicional Coppa Acerbo, realizada no circuito de estrada de Pescara, na Itália. Por ser realizada novamente com carros de Grand Prix, a prova foi rebatizada temporariamente de Grande Prêmio de Pescara, mas o traçado continuou o mesmo.

Começando e terminando em Pescara e ligando duas vilas nos arredores à cidade, o circuito é composto, essencialmente, de duas retas e um trecho sinuoso ligando estas duas retas. Visto de cima, formava um triângulo — um enorme triângulo de 25,579 km de extensão; quase três quilômetros mais longo que Nürburgring Nordschleife.

O traçado de Pescara também pode ser considerado ainda mais perigoso que o Inferno Verde: além de ser realizada em perímetro urbano, a prova era disputada em estradas estreitas e irregulares e a reta principal — a reta dos boxes — tinha nada menos que seis quilômetros de extensão. Sim: a reta dos boxes era maior que quase todos os circuitos da Fórmula 1 atual. Somente Spa-Francorchamps é mais longo que isso, com seus mais de 7.000 metros. O negócio era tão perigoso que Enzo Ferrari proibiu seus pilotos de disputarem a prova.

Como tinha 25 km e a Fórmula 1 corria provas de 500 km ou 3 horas naquela temporada, o GP de Pescara, apesar de disputado no circuito mais longo, também foi a segunda prova completada com menos voltas na história: Stirling Moss precisou de apenas 18 voltas para vencer a corrida — apenas quatro a mais que os GP da Alemanha disputados no Nordschleife.

 


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