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Car Culture História

Audi Sport Quattro RS 002: o protótipo secreto para uma categoria de rali secreta que nunca aconteceu

No início da década de 1980, a Audi revolucionou o WRC, o campeonato mundial de rali, ao apresentar-se com o Audi Quattro que, com turbos e tração integral, estabeleceu um novo padrão de desempenho à competição e forçou todo mundo a se mexer. E eles se mexeram: já em 1984, as outras equipes tinham desenvolvido protótipos de motor central-traseiro extremamente rápidos.

Era o auge do Grupo B, introduzido pela FIA em 1982 e certamente o mais popular entre os fãs de rali até hoje — até mesmo os que nem haviam nascido. Carros como o Ford RS200 eram criados pensando nos estágios de rali, e só ganhavam versões de rua para fins de homologação. A tração integral, que havia garantido ao Audi Sport Quattro a dominância até 1982, já não era mais exclusividade — e agora o motor dianteiro representava uma desvantagem em dinâmica.

No fim de 1985 a Audi tentou contornar estes problemas com a versão E2 do Sport Quattro. Com motor de cinco cilindros em linha, 2,1 litros e 507 cv com a ajuda de um turbocompressor (cerca de 50 cv a mais do que a versão anterior) e aerodinâmica melhorada, o Sport Quattro E2, com Walter Röhrl e Hannu Mikkola ao volante, conseguiu algumas vitórias na temporada de 1986. Contudo, o projeto que já tinha seis anos de idade pedia há tempos por uma reformulação completa.

Ela viria — ou quase — na forma do Audi Sport Quattro RS002. “Quase” porque só foi feito um protótipo para testes, e ele jamais chegou a ser testado — não com estas curvas.

Os engenheiros da Audi sabiam que a solução óbvia para a desvantagem em que se encontravam era adotar o layout de motor central. Contudo, Ferdinand Piëch — que era o presidente da Audi na época — não concordava: o motor dianteiro deixava o carro de rali mais próximo de todos os outros que a Audi colocava nas ruas. Era bom para o marketing.

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“Mas seria melhor se o carro ganhasse o campeonato”, devem ter pensado os engenheiros. E, na surdina, começaram a desenvolver exatamente um protótipo de motor central-traseiro.

Para um projeto desenvolvido em segredo, nada mais apropriado do que uma categoria “secreta”: o Grupo S foi planejado para ser inaugurado sobre as ruínas do Grupo B, que foi cancelado em 1986 por ser perigoso demais. Poucas pessoas dentro das fabricantes sabiam da então futura categoria — só o necessário para que novos bólidos fossem desenvolvidos.

A Ford já tinha o RS200 do ano anterior. Lancia, Toyota e até mesmo a Lada já tinham desenvolvido protótipos — e a Audi decidiu que também era sua hora de fazer alguma coisa.

O regulamento do Grupo S limitava a potência dos motores a 300 cv e, por isto, não havia razão para não reaproveitar o motor do Audi Quattro, que era comprovadamente capaz de render muito mais. Na verdade, o que impressionava no RS 002 era seu visual aerodinâmico de forma inédita para os ralis naquela época — ele tinha curvas de esporte protótipo, mas proporções de carro de rali.

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Acontece que pouco ou nada que se sabe sobre este carro havia vindo à tona antes de maio de 2005 — quando um artigo escrito por  John McIlroy foi publicado na edição de maio de 2005 da revista Motorsport. Nele, o autor revela a origem do RS002, que atualmente está exposto no museu da Audi.

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O projeto foi conduzido longe dos olhos dos executivos mais altos, em um local que até hoje não se conhece. A carroceria aerodinâmica é feita de fibra de vidro e fibra de carbono sobre uma estrutura tubular. Esta, por sua vez, envolve o motor de cinco cilindros turbinado, cuja potência era estimada em 1.000 cv, e o sistema de tração integral quattro, maior trunfo da Audi nos ralis.

Tanta potência, porém, era um exagero: o regulamento do Grupo S não limitaria, apenas, a potência dos carros a 300 cv: os motores também teriam que ter até 1.200 cm³ de deslocamento — downsizing, nos anos 80?

De qualquer forma, talvez por isso o Audi Sport Quattro RS 002 jamais tenha sido testado em pista — seu hodômetro marca apenas 12 km. Walter Röhrl jamais deve ter sentado ao volante deste carro — e o Grupo S foi cancelado antes mesmo de sua primeira temporada.

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Por outro lado, os trabalhos secretos da Audi para criar um carro de rali com motor central-traseiro renderam outros dois protótipos. O primeiro deles, feito sob a coordenação de Roland Gumpert — engenheiro que, anos mais tarde, criaria o Gumpert Apollo —, era essencialmente um Sport Quattro S1 com o motor em outro lugar. Este, sim, foi testado por Röhrl — bem longe de Ingolstadt: na Tchecoslováquia. E o lendário piloto elogiou muito o carro — ele disse que era, simplesmente, melhor do que qualquer outro Audi de rali que ele já havia pilotado.

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Acontece que, durante uma sessão de testes, o carro foi fotografado e teve fotos publicadas em uma revista automotiva austríaca. Piëch ficou furioso com a existência de um projeto secreto de algo que não tinha seu consentimento — e assim o projeto foi cancelado imediatamente.

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Além deste, existe ainda outro protótipo — sobre o qual não se sabe absolutamente nada além do fato de ter sido construído na fábrica da Audi em Neckarsulm, na Alemanha — não há imagens, informações e nem mesmo se sabe seu nome.

[ Fotos: IEDEI, Direita3 ]