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Bernardo e seu Fusca 1965 com teto solar original | FlatOut Classics



O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.

Confira o perfil deste carro em nossa rede social FlatOuters.

 

O Fusca que sobreviveu duas vezes

Na Curitiba de 1991, Udo Heller era um comerciante de automóveis que já estava envolvido com o antigomobilismo desde os anos 1960 com uma missão encomendada por um amigo do Veteran Car Club do Paraná: comprar o bendito Fusca.

Na verdade eu estaria sendo impreciso dizendo apenas que ele era “envolvido com o antigomobilismo”. O sr. Heller foi um dos pioneiros do antigomobilismo brasileiro. Amigo de Og Pozzoli e Roberto Lee, foi nos fundos de sua loja que nasceu o Clube de Automóveis e Antiguidades Mecânicas do Paraná em 1968. Seu envolvimento com os automóveis, contudo, começou muito antes. Nascido em 1933, desde a adolescência ele dirigia o Studebaker de seu avô pelas ruas curitibanas e pegou gosto pelos automóveis. Ganhar a vida com eles foi uma decisão natural.

O gosto pelos carros — e o interesse em salvar qualquer modelo mais velhinho do esquecimento — fizeram de sua loja um ponto de encontro dos entusiastas da cidade e o transformaram em uma espécie de enciclopédia viva do automóvel. Quem precisava de um carro chamava o sr. Heller para resolver.

Foi assim que a missão de comprar o Fusca caiu em suas mãos. Seu amigo encontrou o carro e o chamou para acompanhar a negociação, mas acabou precisando viajar e encarregou Udo de bater o martelo, dando início à relação da família Heller com o Fusca.

O tal carro era um modelo 1965 completamente original, com apenas 75.000 km rodados. Naqueles tempos em que o antigomobilismo ainda não era popularizado no Brasil e as referências históricas eram conhecidas por uns poucos entusiastas, esse tipo de carro era considerado ideal para restauração, visto que estava íntegro e conservava todos os seus componentes originais.

Acontece que aquele não era qualquer Fusca 1965 e tanto o sr. Heller quanto o amigo sabiam disso. O Fusca em questão era um dos poucos modelos com o teto solar opcional vendidos no Brasil e que sobreviveram à campanha de difamação deste acessório. Sim: aquele era um rejeitado “Cornowagen”.

 

O Fusca que sofreu bullying

Em 1965 a Volkswagen trouxe uma série de novidades para seu modelo sedã: o carro ganhou novos piscas e lanternas maiores, chave de ignição na coluna de direção com trava para o volante, banco traseiro com encosto rebatível e bancos dianteiros com encosto mais fino para ampliar o espaço para os ocupantes do banco de trás.

 

O revestimento interno ganhou uma nova forração mais clara, conhecida como “pijaminha” e o suporte da iluminação da placa ficou mais largo. Além disso, ele se tornou o primeiro carro nacional equipado com teto solar, um opcional fornecido pela Webasto e instalado pela Karmann-Ghia.

O carro havia sido apresentado em novembro do ano anterior, durante a quarta edição do Salão do Automóvel, e teve boa aceitação do público, entusiasmado com as novidades e com a possibilidade de ter um carro acessível com teto solar. Em uma época na qual o Fusca ainda não tinha ventilação forçada, o teto solar de chapa de aço tinha tudo para fazer sucesso no Brasil.

Mas não fez.

Não se sabe exatamente como, mas logo após seu lançamento nasceu o infame apelido que o acompanha até hoje. A ideia por trás da piada é que o teto solar acomodava ou resfriava “os chifres do proprietário”.

À medida em que o apelido se popularizou, a rejeição pelo carro cresceu e seu preço diminuiu. Mesmo custando pouco mais que a versão básica, o modelo com teto solar teve baixa demanda e as unidades já fabricadas chegaram a ser ofertadas com descontos de até 20%.

Essa desvalorização levou muitos proprietários e revendedores a fecharem o teto com um serviço de funilaria, uma vez que o modelo fechado era mais valorizado. E foi assim que, no início de 1966, depois de pouco mais de um ano de produção, a Volkswagen deixou de oferecer o teto solar para o Fusca.

 

A história piora porque a Volkswagen não identificava o modelo com teto solar com nenhuma sequência na plaqueta do chassi. A única maneira de descobrir se um Fusca destes anos (1964 a 1966) teve teto solar original de fábrica é retirando a forração do teto para procurar o reparo. A restauração é custosa e requer adaptação dos modelos Golde oferecidos nos EUA e na Europa.

Acredita-se que atualmente tenham restado entre 15 e 20 unidades originais. E aquele Fusca comprado pelo sr. Heller em 1991 é um deles.

 

Vidas paralelas

Na mesma época da compra do Fusca, a família de Udo Heller ganhou mais um membro: seu neto Bernardo, que atualmente divide o Fusca com seu pai. Nascido em outubro de 1991, ele conhece o Fusca desde criança mas nunca imaginou que ele um dia seria seu.

Os caminhos se cruzaram há apenas quatro anos, em 2015. Na época o amigo do sr. Udo já estava com a saúde debilitada e sofria do Mal de Alzheimer em um estágio avançado. Seus carros já não lhe serviam mais e seus filhos — também colecionadores — começaram a remanejar a coleção e o Fusca foi posto à venda.

Certo dia, o sr. Udo, reunido com o filho e o neto Bernardo em um almoço do Veteran Car Club do Paraná — que ajudou a fundar em 1977 — sugeriu que fizessem uma proposta pelo Fusca assim que chegassem ao clube. As negociações começaram ali mesmo, durante o almoço, mas o sr. Udo Heller não teve tempo para arrematar o carro pois foi levado por um câncer pouco depois da oferta inicial.

A negociação foi concluída pelo pai de Bernardo e o Fusca negociado duas vezes pelo sr. Udo agora era da família.

 

Testemunho de época

Apesar de conhecer o carro desde 1991 tanto a família Heller quanto o amigo que vendeu o carro não têm informações precisas da história do carro entre 1965 e 1990. O que existem são chaveiros e adesivos antigos, que indicam a origem do carro em Ponta Grossa, a 100 km de Curitiba. Considerando a quilometragem do carro, é provável que ele tenha passado seus primeiros 24 anos na cidade paranaense.

Atualmente o carro tem pouco mais de 78.000 km, mas o que impressiona é o altíssimo nível de originalidade deste sobrevivente. Um duplo sobrevivente, aliás.

A experiência do proprietário anterior com carros antigos o levou à sábia decisão de nunca restaurar o carro, apesar de o tecido “pijaminha” estar puído em alguns pontos e da pintura original ter recebido uma camada em algum momento dos anos 1980. Trata-se portanto do que os colecionadores costumam chamar de “testemunho de época” no Brasil ou “survivor” nos EUA.

O motor 1200 nunca foi aberto e o teto solar jamais foi desmontado. Bernardo contou que chegou a abrir a forração para limpar e lubrificar, mas percebeu que poderia danificar o mecanismo devido à complexidade. Desistiu e o conservou como estava, tendo feito apenas a substituição da alavanca original — que se soltou devido ao ressecamento e agora fica guardada no carro — por uma alavanca Golde do modelo alemão.

Os únicos planos da família Heller para este sobrevivente são usá-lo e mantê-lo rodando como ele merece depois de ter sido salvo pelo tempo e pelos dois homens que o encontraram há quase 30 anos. Depois de escapar da mutilação nos anos 1960 e das restaurações pouco criteriosas dos anos 1990, a existência deste Fusca com teto solar original, no estado em que se encontra, é a essência do antigomobilismo e a materialização da paixão pelos automóveis.

 

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