A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Car Culture

Black Volga: carro diabólico, agentes da KGB ou extraterrestres?

Você conhece a SCP Foundation? Qualquer leitor – no sentido mais amplo da palavra – ligado em ficção científica, histórias de horror e comunidades da Internet provavelmente já ouviu falar na organização “ultra-secreta” que há décadas dedica-se a obter (Secure), conter (Contain) e proteger (Protect) objetos e fenômenos bizarros ou inexplicáveis que assolam nosso mundo.

A SCP Foundation é uma obra de ficção colaborativa que desde 2008 recebe contribuições de autores de todo o planeta e, para quem gosta de um lore profundo, misterioso e livre a interpretações pessoais, pode ser um caminho sem volta.

Ainda não é assinante do FlatOut? Considere fazê-lo: além de nos ajudar a manter o site e o nosso canal funcionando, você terá acesso a uma série de matérias exclusivas para assinantes – como conteúdos técnicoshistórias de carros e pilotosavaliações e muito mais!

 

FLATOUTER

Plano de assinatura com todos os benefícios: acesso livre a todas as edições da revista digital do FlatOut e demais matérias do site, download de materiais exclusivos, participação em sorteios e no grupo secreto no Facebook (fique próximo de nossa equipe!), além de veiculação de até 7 carros no FlatOuters e até 3 anúncios no site GT40, bem como descontos em oficinas e lojas parceiras*!

R$20,00 / mês

*Benefícios sujeitos ao único e exclusivo critério do FlatOut, bem como a eventual disponibilidade do parceiro. Todo e qualquer benefício poderá ser alterado ou extinto, sem que seja necessário qualquer aviso prévio.

CLÁSSICO

Plano de assinatura na medida para quem quer acessar livremente todas as edições da revista digital do FlatOut e demais matérias do site1, além de veiculação de até 3 carros no FlatOuters e um anúncio no site GT402.

De R$14,90

por R$9,90 / mês

1Não há convite para participar do grupo secreto do FlatOut nem há descontos em oficinas ou lojas parceiras.
2A quantidade de carros veiculados poderá ser alterada a qualquer momento pelo FlatOut, ao seu único e exclusivo critério.

Muitas histórias são completamente originais, enquanto outras são inspiradas por eventos do mundo real, contos de terror tradicionais e lendas urbanas.

Ler os artigos da SCP Foundation tem sido um dos meus passatempos favoritos nos últimos dois anos, e eu jamais imaginei que um dia falaria sobre isso no FlatOut – afinal, é uma das poucas coisas não relacionadas a carros por que eu realmente me interesso. Mas não havia como resistir à ideia de mencionar a Fundação quando topei com um artigo sobre o Black Volga. Ou melhor: inspirado nele.

 

Via de regra, todo artigo da SCP Foundation traz duas coisas: uma descrição dos Procedimentos Especiais de Contenção para determinado objeto, e uma descrição do objeto em si. A ideia é dar um ar “oficial” a cada artigo, com linguagem técnica que pode ser difícil, trechos propositalmente censurados e uma quantidade enorme de elementos canônicos. E um desses objetos, denominado SCP-265, é o Black Volga.

A lenda do Black Volga origina-se da União Soviética, em especial Polônia e Rússia. Como toda história de domínio público, é extremamente difícil definir o ponto exato onde a história surgiu, mas acredita-se que tenha sido na década de 1960, quando o GAZ M21 Volga (ou só “GAZ-21” ou “GAZ Volga” era considerado por muita gente o melhor, mais luxuoso e mais bem-equipado automóvel vendido na União Soviética.

Lançado pela Gorkovsky Avtomobilniy Zavod em 1956, o GAZ-21 era um sedã cujo visual tentava emular os carros americanos, porém com uma plataforma mais simples e robusta para suportar as condições precárias das ruas e estradas soviéticas. GAZ-21 era o nome da versão com motor quatro-cilindros de 2,4 litros e 65 cv, mas também havia o GAZ-23, que foi fabricado em quantidade limitada para os oficiais da KGB, e era movido por um V8 de 5,5 litros e 160 cv emprestado do luxuoso GAZ Chaika, a limousine favorita dos membros do governo.

Em primeiro plano o GAZ Chaika; em segundo plano, o ZIL-111

Pode ter sido esta associação com as autoridades soviéticas e suas ações obscuras que deu origem à história do Black Volga. Originalmente o carro é descrito como um GAZ-21, mas outras versões falam em seu sucessor, o GAZ-24.

O Black Volga é sempre um carro preto com rodas brancas que roda à noite sequestrando pessoas, especialmente crianças. Em algumas versões, ele também tem cortinas brancas em todos os vidros, com exceção do para-brisa. Certas versões da lenda dizem que ele anda sozinho, sem ninguém no volante, enquanto outras colocam nele diferentes personagens – padres, freiras, judeus, satanistas, comunistas ou até mesmo o próprio Satanás – para assustar as crianças de forma mais convincente.

O destino das pessoas capturadas também varia, dependendo de quem conta a história. A explicação mais comum: as pessoas levadas pelo Black Volga vão doar (involuntariamente, claro) sangue para curar leucemia em pessoas ricas do ocidente ou da Arábia – o que era claramente uma forma de demonizar estes grupos na visão das crianças. Outros diziam que, na verdade, o Black Volga é usado pela KGB para sequestrar pessoas e roubar seus rins, o que soa como uma resposta à propaganda feita pela própria KGB no jornal Pravda em 1986, dizendo que latino-americanos viajavam à União Soviética para roubar crianças, matá-las e vender seus órgãos no mercado negro.

 

Vocação sinistra

Sozinha, porém, a popularidade do GAZ-21 na União Soviética não seria suficiente para dar origem ao mito do Black Volga. E realmente há um “fundo de verdade” na história – tem a ver com o GAZ-M1, segundo modelo de passeio da GAZ, lançado em 1931 e extremamente popular entre os oficiais da NKVD (futura KGB), serviço secreto da União Soviética, para realizar seus… serviços secretos. Naquela época a repressão por parte da NKVD estava em seu auge. Não era incomum que pessoas consideradas avessas ao governo em exercício sumissem sem deixar rastros – e a imagem dos GAZ-M1, invariavelmente pintados de preto por questões de custo, ficou fortemente associada a desaparecimentos inexplicáveis com suposto envolvimento da NKVD e (a partir de 1954) da KGB.

A maior parte das versões tende a colocar o Black Volga não como algo sobrenatural, mas sim como obra de alguém – seja um serial killer à solta ou agentes do serviço secreto. Algumas dizem que, em vez de perseguir, intimidar ou violentar as vítimas em uma rua escura, o Black Volga simplesmente para ao lado da pessoa, como que se materializado naquele momento, e seu motorista pergunta as horas.

Alguns dizem que, nesse momento, a pessoa é raptada e possivelmente morta. Outros falam que, ao ouvir a resposta, o motorista diz: “você morrerá amanhã, a essa hora” – e a profecia sempre se cumpre. E existem relatos de que, quando o motorista pergunta as horas, deve-se responder “é hora de Deus” para que o Black Volga dê meia-volta e saia em disparada para nunca mais voltar.

 

Influência dos EUA

Na década de 1980 a lenda do Black Volga ressurgiu no imaginário popular do Leste Europeu, com versões “importadas” da história sendo contadas em países a Europa – devidamente ocidentalizadas, com um Mercedes ou BMW no lugar do GAZ Volga e o obrigatório número “666” na placa. E, embora Stephen King nunca tenha mencionado, há certa semelhança entre o Black Volga e “Christine, o Carro Assassino”, filme de 1983 baseado no romance de mesmo nome, lançado no mesmo ano. Não é de surpreender que, nos anos pré-dissolução da União Soviética, houvesse um interesse muito maior da juventude soviética na cultura ocidental – o que pode muito bem ter trazido, indiretamente, o Black Volga de volta às atenções. Da mesma forma que o Chupacabra ou o ET de Varginha no Brasil.

Outros estudiosos do folclore soviético também associam a lenda do Black Volga a uma resposta da União Soviética às populares figuras do “homem de preto”, que nos Estados Unidos são associados há décadas a uma operação sigilosa, governamental ou não, que trabalha para esconder da população a verdade sobre os alienígenas no Planeta Terra

 

A realidade é pior

Por mais que a premissa de um carro misterioso que captura crianças e vende seus órgãos – e que pode até ser conduzido pelo próprio capeta – seja arrepiante, por vezes a realidade pode ser ainda mais perturbadora.

Outra possível explicação para o mito do Black Volga está, de fato, na NKVD. O chefe da organização e Ministro de Assuntos Internos da União Soviética, Lavrentiy Pavlovich Beria, foi investigado em 1953 por uma série de crimes. Crimes governamentais e políticos, como traição, espionagem e “ação contrarrevolucionária”; e crimes sexuais – sequestros, abusos e estupros. Ele foi executado com um tiro na testa.

As circunstâncias do processo, da captura, do julgamento e da execução de Beria são conhecidas de forma superficial, mas os pormenores talvez jamais sejam conhecidos para além das autoridades envolvidas. Mas há relatos de que, em seus crimes sexuais, o oficial perseguia jovens desacompanhadas pelas ruas de Moscou ao volante de uma limousine Packard toda pintada de preto. Troque o Packard por um carro local – o GAZ-21 – e você tem o Black Volga.

 

 

 

Matérias relacionadas

Scania L-Series, o “Jacaré”: a história do primeiro caminhão Scania fabricado no Brasil

Dalmo Hernandes

Audi suspende produção no Brasil, Toyota GR Yaris será vendido na Argentina, o interior do novo Mercedes Classe C e mais

Dalmo Hernandes

A beleza e a música mecânica da Ferrari 512 S: história, vídeos e wallpapers!

Juliano Barata