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Automobilismo História

Bleu de France: a história da pintura azul dos carros de corrida franceses

Em 1967 quando a Esso anunciou que estava deixando a Fórmula 1 a Comissão Esportiva Internacional da FIA entendeu que precisava mudar a antiquada regra que proibia o uso de cores e nomes de patrocinadores nos carros de corrida, e aprovou a exploração comercial da identidade das equipes. A partir dali, as equipes abandonaram suas cores nacionais e passaram a usar as cores das marcas que bancavam sua operação.

Até então as cores nacionais não eram uma opção, mas uma obrigação imposta pela FIA, baseada em uma tradição que remonta ao início do século passado. Apesar da permissão para mudar as cores, muitas equipes e marcas se mantém fiéis às suas cores tradicionais, caso da Ferrari e da Alpine — que venceu a LMP2 em Le Mans deste ano com o clássico azul em sua carroceria.

Foto: José Mário Dias

Como nós já contamos a origem do vermelho “Rosso Corsa” da Itália, parece uma boa hora para contar a história do clássico azul da França. Ou melhor dizendo, “Bleu de France”.

 

As cores nacionais

A história começou em 1899, quando James Gordon Bennett Jr., proprietário do jornal New York Herald, propôs ao Automobile Club de France a criação de uma corrida internacional de automóveis. Ele havia se mudado para a capital francesa em 1887, e acompanhou de perto o surgimento das primeiras corridas de automóveis do planeta.

Na época as corridas eram realizadas somente por clubes locais e disputadas de uma cidade a outra, mas Bennett achou que as corridas poderiam envolver mais carros de mais países, o que poderia estimular o automobilismo e a interação entre os clubes estrangeiros. Ele então organizou um regulamento básico e apresentou ao Automobile Club de France, oferecendo também o troféu que seria entregue ao vencedor.

De acordo com as regras propostas, o evento seria disputado entre clubes nacionais e não entre pilotos, com limite de três carros/pilotos por país. Ele seria organizado no país vencedor da edição anterior, sempre entre 15 de maio e 15 de agosto, e em percurso de, no mínimo, 550 km e, no máximo, 650 km. Também seria obrigatório que os carros tivessem as cores de seu país de origem.

Os participantes da primeira edição foram a França, a Bélgica, a Alemanha e os EUA. As cores atribuídas a cada um tinham a ver com suas cores nacionais. A França ficou com o azul, a Bélgica com o amarelo, a Alemanha com o branco e o vermelho com os EUA, uma vez que suas outras duas cores já estavam com outros países.

Fernand Charron e seu Panhard azul, o primeiro vencedor da prova

As cores foram retiradas de suas bandeiras nacionais (na época a bandeira da Alemanha era preta, branca e vermelha). Como a bandeira da França é azul, vermelha e branca e o azul já era fortemente associado à França, ela foi a cor escolhida, tornando-se o Bleu de France”.

Eu poderia dar a história por encerrada aqui mesmo, afinal, já expliquei de onde veio a cor (da bandeira) e como ela chegou aos carros. Mas é claro que não vamos parar por aqui, afinal, a resposta gera outra pergunta: se o Bleu de France tem origem na bandeira francesa, de onde vem o azul da bandeira?

 

A origem do azul

A bandeira tricolor foi criada na época da revolução francesa, ainda no século XVIII, usando o branco da realeza, originado na cruz de São Miguel, e o azul e vermelho vindos da bandeira da Vila de Paris. A combinação também tem origem religiosa. Até o século XII os tons azuis não eram usados por serem difíceis de se obter. Quando isso aconteceu, eles ainda eram caros de se produzir, e por isso simbolizavam nobreza — os tons claros nas vestes e os escuros nos quadros e artes.

Foi assim que a cor se tornou frequente nas imagens religiosas cristãs como símbolo da grandeza espiritual dos santos. Acredita-se que, apesar de ser a cor do manto da Virgem Maria, o azul dos franceses tenha sido inspirado pela capa de São Martinho de Tours, principal responsável pela cristianização da Gália, antiga denominação da região ocupada pela França atualmente.

Como as monarquias europeias sempre foram fortemente ligadas ao cristianismo, os reis da dinastia Capetiana passaram a usar na coroação um manto azul inspirado em São Martinho de Tours. Assim, a cor passou a ser associada aos reis franceses, vindo a se tornar a cor da bandeira de Paris, que foi parar no tricolor francês e, no fim das contas, inspirou o azul dos carros de corrida na Copa Gordon Bennett.

A cor se tornou conhecida como Bleu de France, que pode ser traduzido literalmente como “azul da França”, não apenas para os carros, mas em qualquer aplicação. O legítimo Bleu de France tem uma tonalidade específica (HEX #318CE7, CMYK 79, 39, 0, 9 e RGB 49, 140, 231), mas os carros de corrida franceses usam diversos tons de azul. A Bugatti sempre usou um azul sólido, enquanto a Alpine ficou mais conhecida pelo azul metálico e modelos mais recentes como os F1 da Prost e os LMP1 da Peugeot usaram um azul mais escuro.

As únicas exceções entre os franceses são a Renault, que usa uma combinação própria de amarelo, preto e branco, e a Citroën, que oficialmente usa uma combinação de vermelho e branco.