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Car Culture

Camera cars e a arte de filmar a velocidade

A arte de filmar carros de forma artística é complexa – que o diga a nossa equipe que produz os vídeos para o canal do FlatOut no Youtube. E, por mais que a gente tente fazer algo matador, não chegamos nem perto da dificuldade que deve ser produzir um longa metragem inspirado em automóveis.

A parte boa é que, para filmar carros, é preciso usar… mais carros! Mas de uma forma totalmente diferente do que se costuma fazer. E igualmente fascinante ao que estamos acostumados.

Ao usar um automóvel como instrumento para registrar imagens de outros carros, é preciso ter em mente tudo o que aquele carro oferece normalmente, e mais algumas questões específicas sobre filmagem e pilotagem. Embora seja um assunto altamente específico, que interessa de verdade aos nerds de cinema… bem, estamos falando de carros. E isso nos interessa de verdade.

Para começar, você vai notar que a maioria dos camera cars modernos é preto – preto fosco. Embora eles fiquem totalmente escondidos – um cinegrafista que deixa o equipamento aparecer nas cenas merece ser demitido –, um carro de cor vibrante e clara atrapalharia a captação das imagens, alterando as cores e reflexos, e até mesmo dificultando a vida dos coloristas e editores. Mas, claro, você vai ver que isso não é unanimidade.

A escolha de um bom camera car passa por outros fatores importantes e desejáveis, que variam de acordo com a necessidade. Via de regra, um bom camera car precisa de uma suspensão complacente, que absorva a maior quantidade possível de vibrações – você não quer que o vídeo saia todo tremido, quer? É claro que rigs e gimbals possuem sistemas de estabilização, mas este processo começa na hora de mitigar a trepidação causada pelo piso. É por isso que muitos camera cars são SUVs, que têm suspensão macia por natureza.

Entretanto, dependendo do que você quer captar, um SUV de mamãe não vai ser suficiente – se você estiver fazendo um vídeo com carros rápidos, vai precisar de um camera car que ao menos os acompanhe.

Nesse caso, se você for usar um esportivo como camera car, vai querer um ajuste de suspensão feito sob medida, que utilize amortecedores tão complacentes quanto for possível – se for um carro naturalmente duro, usando amortecedores feitos sob medida, com circuito de alta velocidade para absorver impactos mais contundentes, como sobre a zebra de um circuito ou irregularidades do piso; e um circuito de baixa velocidade para lidar com as transferências de peso em frenagens e curvas. Esta parte é extremamente importante.

É claro que, se o objetivo for fazer um filme sobre automobilismo e houver a necessidade de usar um esportivo ou carro de competição, isso todo acaba indo para o ralo – o importante é ter algo que possa acompanhar o objeto da filmagem. E as possíveis imperfeições causadas pela vibração e pela falta de estabilidade podem até agregar ao material, dependendo do tipo de filme a ser feito.

Agora, há também outra questão: o ronco do motor. Embora muitos filmes utilizem áudio captado em sessões específicas para este fim, há diretores que preferem o áudio genuíno, feito in loco. Nesse caso, pode ser uma boa ideia escolher o camera car mais silencioso possível. Um elétrico, talvez.

Hmm… melhor não

E há, ainda, outro fator – especialmente em tomadas rápidas, em circuitos de corrida, por exemplo: a pilotagem. O piloto de um camera car neste cenário não pode seguir o traçado que um carro de competição normalmente faria. Ele precisa posicionar o carro onde o cinegrafista quer que ele fique, e para isso é preciso ter noção de fotografia e enquadramento.

Levando tudo isso em consideração, separamos neste post alguns dos camera cars mais icônicos e/ou matadores que já vimos.

 

Ford GT40

Um exemplo, talvez o melhor deles, de carro-câmera icônico e matador é o Ford GT40, que foi usado em duas das películas essenciais sobre automobilismo que o ser humano já produziu – “Grand Prix”, de 1966; e “As 24 Horas de Le Mans”, de 1971. Em Grand Prix, de John Frankenheimer, o carro utilizado foi um GT40 1965, o carro de chassi P/1027 – o carro que, com seu V8 small block de quase 500 cv, era capaz de acompanhar monopostos de Fórmula 1. E que estava mais fácil de conseguir para as filmagens.

As seções dianteira e traseira da carroceria foram removidas para acomodar as câmeras. A pintura era amarela mas, naquela época e no contexto todo, não era prioridade trocar a cor da carroceria. E ele fez um trabalho espetacular. Destaque para as filmagens em Monza, onde James Garner acompanhou o GT40 a centímetros de distância em manobras perfeitamente sincronizadas – que ficaram sensacionais na telona.

O carro, que, na época das filmagens pertencia à Metro-Goldwin-Mayer (MGM), foi vendido para o Museu Automobilístico Briggs, na Califórnia, onde permaneceu até o fim da década de 1990. Depois disso, ele foi comprado pelo colecionador Anthony Bamford, que mandou restaurá-lo. De meados dos anos 2000 para cá, o GT40 trocou de mãos mais vezes e participou de diversas corridas históricas.

Já o Ford GT40 de “As 24 Horas de Le Mans” (Le Mans, 1971), produzido e estrelado por Steve McQueen, foi um carro de 1968, adquirido pela Solar Productions, a produtora de McQueen, após o fim oficial do programa do GT40 por parte da Ford. Ele já tinha uma história e tanto em competições, sendo uma espécie de “cobaia” da John Wyer Automotive para experimentações – incluindo um dos primeiros usos da fibra de carbono em um automóvel de competição homologado pela FIA, um segundo lugar em Le Mans (e um recorde de volta) com Jacky Ickx e uma vitória em Monza.

Na época de Grand Prix, a MGM alugava o carro diretamente da Ford, e por isso não podia fazer modificações radicais. McQueen, que era o dono do carro, foi mais agressivo e simplesmente cortou o teto do carro, abrindo espaço para um estabilizador giroscópico no deque traseiro e possibilitando a instalação de uma câmera operada manualmente na lateral do passageiro.

As filmagens de “As 24 Horas de Le Mans” terminaram em 1970 e, depois disso, McQueen vendeu o carro, de chassi P/1074. O comprador mandou recolocar o teto usando painéis genuínos, e o GT40 teve alguns outros donos depois disso. Ele foi leiloado pela última vez em 2012 pela RM Auctions, que se saiu muito bem na venda: depois de estimar algo entre US$ 2,3 e 2,5 milhões, eles o venderam por nada menos que US$ 11 milhões.

 

Lamborghini Huracán

Hoje em dia, décadas depois, existem empresas especializadas em converter carros para uso em filmagens. E a americana Incline Dynamic, em 2018, conseguiu bastante atenção com o “Huracam” – um Lamborghini Huracán que, segundo eles, era o camera car mais rápido do mundo na época. Não é difícil de acreditar – o supercarro de tração integral é movido, como sabemos, por um V10 de 5,2 litros e 610 cv, capaz de levá-lo até os 100 km/h em 2,9 segundos.

O carro passou por algumas modificações importantes, como a redução da altura da suspensão para abaixar o centro de gravidade, compensando pela instalação do enorme gimbal no compartimento dianteiro. De acordo com o fundador da Incline Dynamic, Nathan Garofalos, a premissa era simples: “o que acontece quando você coloca 700 kg de equipamentos em um SUV e tenta filmar os carros mais incríveis do mundo? Você consegue chegar a 100 km/h no máximo, com sorte”.

Ele garante que o Huracán, mesmo com todo o lastro, ainda é capaz de chegar aos 301 km/h – um pouco menos que os quase 330 km/h do carro sem os equipamentos de filmagem, claro. Mas, ainda assim, muito veloz.

 

Ferrari 360

Na mesma vibe do Huracam, há alguns anos uma empresa chamada Filmotechnic USA criou uma Ferrari 360 usada em filmagens. A diferença principal é que, em vez de colocar o braço mecânico do gimbal na dianteira, o equipamento foi instalado na traseira.

A empresa afirma que, com o equipamento correto, a Ferrari 360 Modena é capaz de capturar imagens estáveis a velocidades de até 260 km/h tranquilamente. Fácil de acreditar, considerando que atrás dos bancos está um V8 de 3,6 litros, 400 cv a 8.500 rpm e 38 kgfm de torque a 4.750 rpm – suficientes para chegar aos 295 km/h.

 

A linha da Pursuit Systems

Este se tornou um clássico entre os carros-câmera: o Mercedes-Benz ML63 AMG da Pursuit Systems, que traz toda a indumentária típica dos camera cars, começando pela carroceria em preto fosco.

Embora seja a versão esportiva do ML, com um V8 M156 de 6,2 litros e 510 cv, ele ainda é mais macio e vibra menos que um supercarro, e tem robustez suficiente para carregar equipamentos maiores e mais pesados no teto.

A empresa é uma das mais conhecidas no ramo dos camera cars, e possui uma linha que inclui também o Porsche Cayenne Turbo, com seu V8 de 4,5 litros e 450 cv; ou Turbo S, no qual o mesmo propulsor é calibrado para chegar aos 521 cv…

… e também alguns veículos mais exóticos, como o side-by-side Polaris RZR, criado especialmente para filmagens off-road. Em complacência da suspensão, é difícil batê-lo.

O projeto mais recente da Pursuit Systems é o Ford Edge ST, que segue a mesma receita do ML e do Cayenne – pintura preto fosco, rig para câmera no teto, e interior equipado com sistemas de comunicação e telas para acompanhar tudo em tempo real. É natural que eles tenham escolhido a versão mais potente do Edge, com seu V6 biturbo de 270 cv – afinal, toda a tralha de filmagem adiciona 600 kg aos já parrudos 1.989 kg do crossover esportivo.

 

Ford Mustang GT

O filme “Need for Speed”, de 2014, foi um dos grandes flops cinematográficos dos últimos anos. Apesar de ser uma superprodução de Hollywood estrelada pelo carismático Aaron Paul (Breaking Bad), a história mal amarrada foi considerada uma falha imperdoável. Mas o camera car usado era matador.

O Ford GT preto fosco foi feito para filmar superesportivos e, para isso, recebeu um supercharger Sallen que elevou a potência do motor Coyote 5.0 para 630 cv, além de um diferencial traseiro com autoblocante. Fora isso, foram instalados suportes para câmeras na dianteira e na traseira, bancos do tipo concha no interior, e uma redoma de vidro no lugar da tampa do porta-malas para que o operador da câmera pudesse capturar imagens dos carros que vinham atrás.

 

Ford Focus ST Estate (e Fiesta ST, também!)

Falando em Fords, vamos ao lado mais inusitado da lista. Esta é – ou foi – uma perua Focus ST, equipada com um motor 2.0 turbo 16v de 250 cv. Ela foi convertida pela própria Ford para auxiliar na produção de comerciais e outros vídeos promocionais, e sua adaptação é curiosíssima: a parte posterior da carroceria foi cortada e recebeu um jump seat (um banco voltado para trás) para que o cameramen possa operar o equipamento. Talvez você nunca a tenha visto em ação, mas certamente já deve ter topado com um vídeo produzido com sua ajuda.

Como se não bastasse, a Ford também fez o mesmo com um Ford Fiesta ST de quarta geração. O detalhe mais curioso: como, diferentemente do Focus, o Fiesta Mk4 tinha as lanternas ao lado do vigia traseiro, elas foram mantidas (por questões de legislação) na mesma altura, porém deslocadas para a coluna “B”.

Deve ser interessante trabalhar na execução de veículos especiais para uso da frota interna das fabricantes…

 

Westfield Seven

Um projeto de camera car mais recente é este Westfield Seven – interessante porque, como sabemos, os Seven são bastante leves, com versões que pesam parcos 500 kg. Imaginamos que, com todo o equipamento de filmagem, ele agora pese quase o dobro. De todo modo, estamos falando de um veículo ágil, que muda de direção rápido e pode ser muito veloz.

Um detalhe interessante: ele não é um Caterham, e sim um Westfield. Sua fabricante foi fundada no Reino Unido em 1982 e imediatamente enfrentou problemas com a justiça por “plagiar” o Caterham Seven – este, o sucessor oficial do Lotus Seven desde 1973, quando a Caterham foi fundada e passou a fabricar o Seven usando o projeto original. Um detalhe importante: enquanto os Caterham Seven são feitos de alumínio, o Westfield Seven usava fibra de vidro na construção da carroceria.

O camera car, construído por uma empresa chamada Sixtyseven Pictures e batizado “Super67”, é movido por um quatro-cilindros vindo de uma Honda CBR1000. Com escape Akrapovic e retrabalho de fluxo, ele entrega saudáveis 180 cv – mais que suficientes para ziguezaguear pelo asfalto enquanto captura imagens de outros esportivos em alta velocidade. O motor trouxe consigo o câmbio sequencial de seis marchas da Honda, e a força é levada para as rodas traseiras através de um diferencial Quaife com autoblocante.

 

Bugatti Chiron

Você já se perguntou como se filma um Bugatti Chiron a 400 km/h? Afinal, não há muitos carros no mundo capazes de chegar a essa velocidade. Por isso, a melhor forma de gravar o Chiron a 400 km/h é… usando outro Chiron, claro!

Al Clark, produtor do vídeo que mostrou o recorde do Bugatti Chiron, publicou no YouTube um vídeo  explicando como a tomada da aceleração foi feita. Ele usou uma câmera de drone DJI montada em uma caixa, que por sua vez foi montada na parte de trás do Chiron, com vários pontos de fixação diferentes para estabilidade.

Embora a ideia de usar um Chiron como carro de câmera pareça loucura em um primeiro momento, ela faz muito sentido quando se vende o carro mais rápido do mundo. Algo tipo “não existe nenhum outro carro capaz de acompanhá-lo”.

Ainda no mesmo vídeo, Clark diz que não se deu conta que os gases do escape poderiam invadir o quadro e, por isso, eles tornaram a cena sutilmente embaçada. Lembre-se disso quando filmar um carro a 400 km/h, ok?