FlatOut!
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Automobilismo História Zero a 300

Como o capacete fechado começou a ser usado pelos pilotos de carros


Há uma coisa em que todos nós da equipe do FlatOut concordamos: Dan Gurney é não apenas um dos maiores pilotos de todos os tempos, como também é um dos nomes mais importantes do automobilismo. Isto porque, se formos falar apenas de sua pilotagem, deixaremos de fora boa parte de suas contribuições à arte de pilotar automóveis.

Por isso também achamos que ele não tem o merecido reconhecimento do público — o que soa como uma pequena injustiça. Assim, já está mais que na hora de fazermos alguma coisa. Por isto, hoje vamos dar início a mais uma série no FlatOut e falar um pouco sobre Dan Gurney e sua carreira. E há muita coisa para falar, afinal, Gurney é um dos três pilotos no mundo a vencer corridas na Fórmula 1, na Fórmula Indy, nas corridas de protótipos da FIA e na Nascar (os outros dois são Mario Andretti e Juan Pablo Montoya). Ele ainda ajudou no desenvolvimento do Ford GT40, venceu as 24 Horas de Le Mans com ele em 1967 e, desenvolveu uma série de equipamentos, acessórios e técnicas empregadas até hoje no automobilismo e até em outras áreas de engenharia.

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Dan Gurney ao volante do Ford GT40 em Le Mans, 1967

Mas hoje vamos começar com sua contribuição mais desconhecida: a introdução dos capacetes fechados no automobilismo.

Você certamente já viu os pilotos dos anos 1950 usando capacetes que deixavam o rosto todo exposto, com óculos para proteger os olhos – ou até mesmo simples gorros de couro. Era uma maneira rudimentar de garantir um mínimo de proteção para a cabeça.

Os capacetes abertos foram a norma no automobilismo até o início da década de 1960, e herdaram seu visual dos capacetes de aviação – da mesma forma que, em geral, os automóveis da primeira metade do século XX, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, aproveitaram muitas tecnologias aeronáuticas. Por esta razão eles tinham a área do rosto aberta: os pilotos de aviões usavam máscaras de oxigênio.

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Muito bem ilustrado pela capa de “Never Say Die!”, de 1978, último álbum do Black Sabbath com Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward – a formação original

A fabricante de capacetes Bell foi uma das primeiras a ser adotadas em massa pelos pilotos, com o modelo 500 TX, de 1954. No ano seguinte, o piloto Cal Niday foi o primeiro a utilizar um capacete Bell 500 TX nas 500 Milhas de Indianápolis, e também o primeiro a colocar o equipamento à prova: ele bateu em um muro na volta 170, e atribuiu sua sobrevivência ao capacete da Bell.

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O Bell 500 TX era de fibra de vidro laminada com revestimento de tecido e espuma, e oferecia proteção lateral. A maioria dos outros capacetes da época só protegiam o topo da cabeça

A partir daí, progressivamente outros pilotos começaram a usar os capacetes abertos da Bell e de outras fabricantes que ofereciam modelos semelhantes.

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Na terra, motociclistas e pilotos de automóveis não precisavam usar máscaras de oxigênio e, por esta razão, não havia motivo prático para que não se adotasse um design que protegesse também o rosto – tão perturbadora quanto a ideia de uma lesão cerebral fatal, ou até mais, era a possibilidade de ficar permanentemente desfigurado por conta de um acidente.

Assim, em 1963, a Bell lançou seu primeiro capacete fechado, o Bell Star. O modelo oferecia proteção para o queixo e, para proteger os olhos, havia uma viseira de plástico.

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Pilotos de motocicletas adotaram a novidade de pronto – era praticamente impossível, por exemplo, pilotar uma moto em uma competição de off-road sem proteção para a face, pois um jato de poeira e pedregulhos era atirado contra os pilotos pelos pneus das outras motos.

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Dan Gurney, que pilotava carros de corrida profissionalmente desde 1959, sempre se incomodara com a falta de proteção para o rosto nos carros de corrida. Foi em 1967 que ele viu, pela primeira vez, um capacete fechado ser usado em um carro de corrida: o piloto Swede Savage, ex-motociclista que foi convidado pela Ford a pedido de Gurney para participar da Nascar, usou um Bell Star durante as provas.

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Savage com seu Bell Star, já nos anos 1970

Savage era um novato na época e, talvez por isto, ninguém prestou muita atenção. Gurney, porém, ficou com aquilo na cabeça (desculpem o trocadilho, mas foi irresistível) e, depois de testar um protetor facial feito de couro (aquela máscara doidona mais acima), decidiu adotar o mesmo modelo de capacete fechado no ano seguinte. E ele tinha um bom motivo: no fim dos anos 1950, quando era piloto de testes do italiano Frank Aciero, Gurney quase se machucou devido a uma pedra.

Eu estava na Ferrari de 4,9 litros de Frank Aciero e tentava ultrapassar um carro à minha frente quando o mesmo lançou uma pedra com o pneu traseiro. Ela atravessou direto o para-brisa, parecia mais um projétil do que um pedregulho. Eu pensei “isso podia ter feito um belo estrago!”

De acordo com a própria Bell, que forneceu o equipamento a Dan Gurney, o piloto estreou o capacete fechado nas 500 Milhas de Indianápolis em 30 de maio de 1968 – daqui a cinco dias, o fato completará 49 anos. Gurney, na época, era piloto da Eagle (que usava motores Ford) e chegou em segundo lugar depois de largar em décimo, atrás apenas de Bobby Unser.

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Dan Gurney na Indy 500 em maio de 1968

Aliás, Savage, que foi convidado por Gurney a pilotar em corridas de protótipos CanAm, também usou um. O próprio Dan Gurney, porém, afirma que usou um capacete fechado pela primeira vez no dia 4 de agosto de 1968, no Grande Prêmio da Alemanha de Fórmula 1, em Nürburgring.

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Talvez a memória do ex-piloto, hoje com 86 anos, o esteja traindo pois, depois de usar o capacete fechado da Bell na Indy 500 de maio de 68, Gurney o utilizou no Grande Prêmio da Holanda, realizado no autódromo de Zandvoort em 23 de junho do mesmo ano.

Qualquer que tenha sido a data exata, o fato é que Gurney jamais voltou a usar capacetes abertos, embora no início tenha sido motivo de chacota por parte dos outros pilotos. De acordo com uma edição de 2001 da revista Motorsport Magazine, Gurney fez o seguinte comentário a respeito da época:

Eu não era um piloto dos mais baixos, então eu já estava acostumado a ter coisas me acertando no rosto. O capacete fechado era muito melhor – era como se você estivesse dirigindo um cupê em vez de um carro aberto. Eu não sabia se daria certo na chuva mas, com o tratamento anti-embaçamento na viseira, vi que também foi melhor. Era uma evolução enorme, era sensacional.

Então dane-se o bullying: o negócio era mesmo usar capacetes fechados. E, dois ou três anos depois, praticamente todos os pilotos de monopostos, GTs e protótipos adotaram o casco fechado para nunca mais largá-los. Hoje, eles são obrigatórios pela FIA e outras entidades reguladoras em praticamente todas as categorias de turismo, monopostos e protótipos.

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