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Car Culture

Como o fundador da Lotus “morreu” e veio se esconder no Brasil?

Em 1991 Josef Pwag tinha menos de 10 anos quando foi conhecer a Walt Disney World  com um acompanhante chamado Ijong Tchoi, na época com pouco mais de 50 anos. Apesar dos nomes claramente exóticos, a dupla era tão brasileira quanto eu e você. Ao menos era o que diziam os passaportes de capa verde com as armas da república brasileira em dourado na capa.

Cinco anos mais tarde, novamente com seus passaportes brasileiros, Pwag e Tchoi viajaram pela Europa, mas, ao voltar para casa, eles não vieram para o Brasil. Em vez disso eles rumaram para o Leste, em direção à Ásia. Porque Josef Pwag e Ijong Tchoi não eram brasileiros, mas norte-coreanos. Nem seus nomes eram verdadeiros: Josef Pwag era Kim Jong-Il e Ijong Tchoi era Kim Jong-Un, respectivamente o atual ditador da Coreia do Norte, e seu pai e antecessor no controle do país.

A descoberta de que a dupla viajou incógnita com passaportes brasileiros foi um escândalo, não somente por causa da identidade falsa assumida por eles, mas também por que os passaportes eram legítimos, impressos pela Casa da Moeda do Brasil — o que, evidentemente, causou uma crise institucional no Ministério das Relações Exteriores.

Não é para menos: se há um lugar em que uma identidade pode ser falsificada facilmente é o Brasil. Siga as redes sociais das Polícias Rodoviárias Federais e você verá, ao menos uma vez por semana, um condutor flagrado com documentos falsos. Ou tente tirar uma segunda via do seu RG em um estado diferente daquele em que você o emitiu originalmente: você ganhará um RG novinho, com um novo número, prontinho para ser usado para a maldade.

Ainda hoje, em 2021, com certificações digitais e tudo mais, você pode emitir 27 RG diferentes legalmente, porque, diferentemente do que a sigla tenta significar, o registro não é geral. Com RG diferentes você pode fazer diferentes cadastros de Pessoa Física (CPF), se sua mãe tiver mudado de nome ou emitido um segundo RG como você, a fraude fica ainda mais difícil de se identificar.

Outro bom (ou seria mau?) exemplo é o do austríaco Wolfgang Gerhardt, que chegou ao Brasil em 26 de abril de 1949, e aqui viveu até 7 de fevereiro de 1979, quando morreu afogado na praia de Bertioga, em São Paulo. Morto, teve sua verdadeira identidade revelada: Josef Mengele, “o anjo da morte” dos nazistas.

Além disso, o Brasil durante muito tempo tinha poucos pactos de extradição — até mesmo com nações amigas, como o Reino Unido. Foi por isso que Ronald Biggs, depois de participar do lendário “Assalto ao Trem Pagador”, em 1963, e fugir da cadeia dois anos depois, veio correndo para o Brasil, onde viveu livremente — e até emplacou uma carreira de sucesso para seu filho Mike no “Balão Mágico”. Ele só se entregou às autoridades britânicas em 2005, depois do acordo de extradição que o governo brasileiro formalizou com o governo britânico.

O Brasil, portanto, era o país certo para quem quisesse se esconder e viver incógnito (ou nem tanto, certo, sr. Biggs?) por qualquer razão. Desde a participação ativa na tentativa de extermínio de uma etnia, até fraudes fiscais contra o governo britânico, certo Mr. Chapman?

 

Intriga internacional

Em outubro 1978 Colin Chapman recebeu uma ligação de John DeLorean. O americano queria contratar a Lotus para desenvolver o chassi e a suspensão de seu futuro carro, o DMC 12. A Lotus, já na época, prestava consultoria e desenvolvia serviços de engenharia para as fabricantes que precisassem de know-how ou simplesmente quisessem terceirizar o trabalho.

A intenção de John DeLorean, contudo, ia além da consultoria para seu carro. Pouco antes da conversa, em junho daquele ano, DeLorean procurou o governo trabalhista britânico em busca de incentivos para produzir o carro de seus sonhos. Ele apresentou o projeto e convenceu o pessoal do Labour Party de que seria capaz de construir uma fábrica, projetar e construir um carro e empregar duas mil pessoas em apenas 18 meses. Ele só precisava de US$ 100.000.000, um valor razoavelmente baixo perto do potencial de retorno em impostos e empregos. A oferta foi aceita e o governo tirou a cifra milionária dos cofres públicos com a condição de que o carro fosse produzido na zona leste de Belfast, a capital da Irlanda do Norte.

Antes de ligar para Colin Chapman, DeLorean percebeu que poderia usufruir de parte do dinheiro britânico de um jeito diferente, não necessariamente aplicando-o na construção da fábrica ou no desenvolvimento de um carro. Para isso, contudo, ele precisaria da ajuda de uma empresa britânica. Uma empresa como a Lotus.

Em 1978 a situação da Lotus era desesperadora. Não nas pistas, pois a equipe havia acabado de conquistar o mundial de construtores e de pilotos. A divisão de carros de rua estava mal das rodas e as dívidas se acumulavam no departamento financeiro em Hethel. A ligação de John DeLorean foi uma luz no fim do túnel.

A proposta era a seguinte: DeLorean contrataria a Lotus para prestar serviços de desenvolvimento do seu futuro carro a um custo de US$ 17.500.000. O pagamento seria feito em uma off-shore de Chapman no Panamá. Era a General Product Development Services, ou GPDS, uma empresa que Chapman usava para driblar a severa política fiscal do Reino Unido desde os anos 1960. O negócio era realmente pesado, e inspirou até mesmo o beatle George Harrison a compor a música “Taxman”, em 1966. Chapman até costumava pagar seus pilotos através desta off-shore.

O dinheiro entraria na off-shore, e, de lá, sairia dividido em duas metades iguais para DeLorean e Chapman. O diretor financeiro da Lotus, Fred Bushell, ficaria com uma pequena comissão cobrada sobre a movimentação.

A operação era claramente ilegal, afinal, o dinheiro foi concedido a John DeLorean para construir uma fábrica e produzir carros em 18 meses. No fim das contas, a fábrica custou US$ 160.000.000 e levou 26 meses até a montagem do primeiro carro. Até aí tudo estava bem e o negócio de DeLorean e Chapman passaria despercebido se não fossem alguns problemas que começaram a aparecer a partir de janeiro de 1981, quando o primeiro carro finalmente ficou pronto.

As modificações que tiveram que ser feitas no carro o deixaram 230 kg mais pesado que o previsto originalmente. Além disso, o motor V6 PRV teve sua potência reduzida para se adequar às leis de emissões da Califórnia. Por último, a Chevrolet baixou o preço do Corvette de forma que o DMC 12 acabou ficando US$ 8.000 mais caro que o cupê de plástico da GM. Como comparação, os carros mais baratos dos EUA, na época, custavam, em média, US$ 5.500, caso do Chevette 1982.

O resultado foi um desempenho pífio de vendas e uma produção maior que a demanda. A fábrica tinha capacidade para produzir 12.000 carros por ano — e fez isso em 1981 —, mas somente 3.000 foram para a garagem de alguém. Os outros 9.000 ficaram praticamente encalhados, vendidos em um ritmo muito menor que a produção.

A fábrica logo se tornou um ralo de dinheiro e, em fevereiro de 1982, já estava sob o comando de um administrador público do governo britânico. John DeLorean precisava, vejam só, de US$ 17.000.000 para quitar as dívidas e impedir a liquidação da fábrica. Novamente, DeLorean foi ao governo britânico e encontrou o administrador público da DeLorean e com o Secretário de Estado da Irlanda do Norte, juntos, eles elaboraram um plano de consórcio que concederia a John DeLorean mais £ 80.000.000, e salvaria a fábrica, os 1.500 empregos gerados por ela e parte do investimento inicial de US$ 160.000.000.

Àquela altura, contudo, a chefe do governo britânico era Margareth Thatcher, a “Dama de Ferro”, uma conservadora-liberal que iniciou o processo de desestatização do Reino Unido. Thatcher, quando soube da pré-aprovação pelo Secretário da Irlanda do Norte, acabou vetando os planos do consórcio, fechando a torneira de dinheiro que banhava DeLorean.

Onde encontrar tão rapidamente tanto dinheiro? Somente com um milagre.

 

O milagre por telefone

Em 29 de junho de 1982 John recebeu uma ligação de seu antigo vizinho James T. Hoffman, dizendo que gostaria de apresentá-lo a alguns investidores, o que pareceu muito conveniente naquele momento em que ele precisava desesperadamente de dinheiro para salvar a DeLorean.

John e Hoffman haviam se falado pela primeira vez na páscoa de 1980. Seus filhos se conheciam da vizinhança, e DeLorean sabia que Hoffman era piloto de avião por ter ouvido dele “uma história sobre recuperar um avião em alguma república das Bananas enquanto fugia de uma rajada de tiros”.

O que John não sabia, é que Hoffman era um informante do FBI que trabalhava em operações de emboscada para capturar traficantes de drogas, e que sua ligação fazia parte de um plano para capturá-lo. Por quê? Bem… é aqui que nasce a teoria conspiratória.

No final de 1981, pouco antes da concordata da DeLorean Motor Company, Hoffman foi ao tribunal testemunhar em um dos casos em que estava trabalhando junto de um outro agente da divisão de entorpecentes (DEA) chamado Gerald Scotti. Durante o trajeto, eles começaram a conversar e Hoffman disse a Scotti que poderia oferecer um “figurão” à DEA: seu antigo vizinho John DeLorean, que, segundo Hoffman, estava “encrencado com sua fabricante”. Como ele sabia da situação da DMC?

Isso nunca foi esclarecido. O que se sabe é que nesta mesma época, a secretária particular de John DeLorean na DMC, Marian Gibson, começou a guardar uma série de documentos financeiros da empresa porque suspeitava que o negócio principal da fabricante não eram os carros, mas alguma outra atividade que ela desconhecia — possivelmente os pagamentos feitos à GPDS de Colin Chapman.

Ela conhecia os hábitos de compra de John, assinava cheques, enviava pagamentos e sabia que havia muito dinheiro saindo do caixa da empresa. Quando suspeitou de que poderia haver algo errado, começou a montar seu dossiê.

Não havia nada muito comprometedor, mas as duplicatas, notas e comprovantes poderiam provar, por exemplo, que DeLorean estava esbanjando o dinheiro recebido como incentivo do governo britânico. Além disso, John tinha um plano para a oferta pública inicial (IPO) da DeLorean na bolsa de valores, o que poderia render até US$ 120 milhões para ele e ainda tiraria o governo britânico da jogada.

Marian levou os documentos a um deputado britânico, que prometeu tomar providências junto à Scotland Yard. Ela aguardou uma semana, mas, sem ver nenhuma ação, decidiu vender a história a um jornalista chamado John Lisners, que a repassou ao tablóide sensacionalista News Of The World. O jornal entrou em contato com DeLorean não para pegar sua versão dos fatos, mas para avisá-lo que ele havia sido traído por um funcionário.

A matéria acabou derrubada a pedido de um amigo de John, mas Lisners a vendeu ao Daily Mirror e ela acabou publicada em outubro de 1981. A Scotland Yard iniciou uma investigação e não encontrou nenhuma irregularidade, mas a polêmica derrubou os planos de abertura de capital da DMC. Lá se foram seus US$ 120.000.000.

John lidou com Marian, Lisners e o deputado de forma sutil: usou sua imagem para descreditá-los junto à imprensa. Em uma entrevista à BBC, na qual sua esposa derramava lágrimas ao seu lado, John DeLorean disse que Marian era problemática e instável, que Lisners era um “escritor desempregado servido a uma ideologia política” e que o deputado nunca foi intelectualmente brilhante. Além de tudo, anunciou que iria processar Lisners e o Daily Mirror. Qual a intenção de Marian? John DeLorean perguntou e nunca ouviu uma resposta.

Em fevereiro de 1982, ainda sem conseguir o dinheiro para honrar as dívidas, a DeLorean entrou em processo de concordata, passando a ser administrada por um administrador público.

 

A conspiração

Com contadores do governo britânico devassando as contas da DeLorean, não demorou para que eles percebessem o buraco nas contas e encontrassem a fraude. E aqui voltamos ao veto de Margareth Thatcher e à ligação que DeLorean recebeu em junho de 1982.

Hoffman finalmente conseguiu o que havia prometido a seu colega Gerald Scotti. Ele estava investigando um piloto de aviões chamado William Morgan Hetrick, que acumulou um patrimônio vistoso e estava fazendo viagens frequentes à Colômbia. Hetrick também era proprietário de uma empresa de táxi aéreo para a qual Hoffman trabalhara no passado.

Foi quando Hoffman ligou para DeLorean falando dos investidores.

Naquele mesmo mês a revista Car and Driver publicou uma matéria sobre as dificuldades financeiras da DeLorean Motor Company. Os dois se encontraram pessoalmente pela primeira vez em um bar na Califórnia, onde Hoffman deu detalhes do investimento.

O encontro no bar e a ligação para DeLorean não foram gravados por Hoffman, mas logo após o encontro DeLorean entrou na mira do FBI. A investigação se tornou algo maior: a Operação Full Circle, que visava pegar o piloto e John Zachary DeLorean.

O que Hoffman e DeLorean conversaram por telefone e, depois, naquele bar? Cada um tem sua versão.

DeLorean diz que Hoffman jamais falou em drogas, mas em investimentos legais. Hoffman reportou aos superiores que DeLorean o procurou e perguntou se ele não poderia ajudá-lo a transformar US$ 2.000.000 em US$ 40.000.000 usando “suas conexões no Oriente”.

A versão de Hoffman foi a base para o início da operação. O plano era o seguinte:

“Como John DeLorean quer participar de uma transação de narcóticos, segundo o Informante (Hoffman), para realizar os lucros e financiar sua empresa com US$ 2.000.000, e Hetrick irá oferecer cocaína, deixe que DeLorean compre de Hetrick enquanto tenta trazer o dinheiro offshore para os EUA como um investimento/empréstimo temporário, até que os narcóticos sejam levados pelo Informante. Isso permitirá a apreensão de rendimentos ilegais e narcóticos, se tudo estiver coordenado.”

Enquanto isso, no Reino Unido, o governo britânico deu um prazo final a John DeLorean: dia 19 de outubro. Se até lá John DeLorean não conseguisse o dinheiro, DMC em Belfast fecharia as portas para sempre.

Em 19 de outubro de 1982, John DeLorean desembarcou no Aeroporto Internacional de Los Angeles vindo de Nova York e, imediatamente, se dirigiu a um hotel próximo ao terminal, onde encontraria Hoffman e Hetrick — além de 27 kg de cocaína distribuídos em valises e câmeras escondidas gravando a ação.

Quando Hoffman abre uma das valises e mostra a cocaína aos sócios, DeLorean diz que o narcótico é “melhor que ouro”. Segundos depois um agente do FBI entra no quarto, anuncia a detenção de John DeLorean por porte de cocaína e suspeita de tráfico de drogas.

Naquele mesmo mês, sem dinheiro para honrar suas dívidas e compromissos, a DeLorean foi fechada pelo governo britânico.

Mais tarde, durante o julgamento de DeLorean, Gerald Scotti, ex-agente da Força Administrativa de Narcóticos (DEA), envolvido na prisão de DeLorean, disse que “sabia que o governo americano faria de tudo para perseguir o Sr. DeLorean”. Ele também disse ter ouvido uma discussão acalorada, na noite anterior à prisão de DeLorean, entre os dois agentes do FBI que se encontraram com o empresário. Ele disse que o nome do “Sr. Meese” foi mencionado. Edwin Meese era conselheiro do presidente Ronald Reagan.

Sabe, Maggie… estou preocupado com Johny D.

Será que Margaret Thatcher sabia a respeito do esquema de apreensão de drogas que estava sendo armado pelos EUA quando rejeitou o plano do consórcio, de forma que DeLorean pudesse ser atraído pela armadilha do FBI? Pegar DeLorean envolvido com drogas seria um belo bônus para Reagan, que estava prestes a lançar a campanha “Guerra Contra as Drogas”. O anúncio do programa foi feito em seu horário semanal no rádio no dia 2 de outubro de 1982. A prisão de DeLorean iria para os jornais semanas depois, promovendo um pontapé inicial para a iniciativa de Ronald Reagan.

 

Ok, e Colin Chapman, onde fica?

Com a descoberta do rombo nos cofres da DeLorean, administrador público da fabricante interrogou Colin Chapman a respeito deste intermediário que fez a transação entre a DeLorean e a Lotus. Chapman, claro, negou qualquer envolvimento e, ao sair da entrevista, voou para Paris. Ele iria encontrar Jerry Juhan, o mediador do contrato com o intermediário que lavou o dinheiro na off-shore.

Naquela noite, 15 de dezembro de 1982, Colin Chapman voltou à Hethel e, horas depois, caiu morto nos braços de sua esposa Hazel, vitimado por um ataque cardíaco, aos 54 anos.

 

Colin, o Brasileiro

Emerson, what is “Matow Growssow?”

Em  fevereiro de 1997, o jornalista brasileiro Paulo Francis, sofreu um infarto fatal em seu apartamento em Nova York. Ele vinha pressionado por um processo movido pelo presidente da Petrobras, Joel Rennó, que lhe exigia uma indenização de US$ 160.000.000 por danos morais, depois de dizer que os diretores da estatal tinham contas na Suíça. O estresse contínuo de quase três meses foi demais para seu coração.

Colin Chapman pode ter sofrido o mesmo. O risco iminente de falência de sua empresa e a probabilidade de acabar preso por fraude podem ter sido demais para seu velho coração.

Contudo, diferentemente do caso de Paulo Francis, que já tinha um problema de saúde anterior e teve dores alarmantes ao longo de todo o final de semana que antecedeu sua morte, Colin Chapman havia acabado de passar por um check-up médico para renovar seu seguro de vida e sua carteira de piloto. Ele foi aprovado nos dois exames e estava saudável.

Ao saber da morte de Colin Chapman, Mario Andretti e Emerson Fittipaldi, que estavam nos EUA, ligaram para a família do ex-chefe para saber detalhes sobre o velório, mas ouviram que Chapman já havia sido enterrado. Foi um processo rápido demais para não levantar suspeitas. Especialmente por que o aeroporto de Norwich não tinha registros da chegada de seu avião particular na noite de 15 de dezembro.

No cemitério de East Carleton, onde ele foi enterrado, praticamente ao lado da propriedade da família Chapman, a esposa do zelador disse que a data da morte de Colin Chapman havia sido alterada nos registros da paróquia e que Hazel, a esposa de Chapman, havia contado a ela que o médico que assinou o atestado de óbito de Colin, desapareceu logo após o enterro, e que havia boatos de que os dois sumiram pra dividir o dinheiro.

Seu diretor financeiro, Fred Bushell, acabou assumindo a culpa sobre o desvio do dinheiro e ficou preso por quatro anos. Durante o julgamento, os juízes em Belfast disseram que, caso estivesse vivo, Chapman seria condenado a, no mínimo, 10 anos de prisão. Segundo as testemunhas do processo, Bushell sabia exatamente onde o dinheiro tinha ido parar, mas se recusou a contar.

Enquanto isso, o FBI continuou sua investigação, o que incluiu uma atividade no Brasil. E aqui começa a lenda (ou não), de que Colin Chapman forjou sua própria morte. Não apenas o FBI, mas também a BBC investigou o caso. O motivo? Hazel Chapman detestava viajar de avião. Ela até parou de acompanhar o marido nos Grand Prix mais distantes em 1973 por esta razão, mas no início de 1983 ela veio ao GP do Brasil, no Rio de Janeiro, e passou o mês de março inteiro por estas bandas. Se ela veio representar Colin, por que ela não foi aos EUA no fim do mês, durante o GP do Oeste dos EUA?

A investigação e a pressa para o enterro levaram os tablóides a concluir que Colin estava curtindo o calor tropical com dinheiro do governo, usando um nome falso e até mesmo com uma plástica e alteração das digitais. Segundo o boato, Colin Chapman vivia em uma fazenda no Pantanal mato-grossense. No fim das contas, o FBI jamais iniciou uma perseguição formal a Chapman porque eles acreditam que ele realmente morreu naquela noite de 16 de dezembro de 1982.

Dá pra tomar sol assim em Cuiabá?

As circunstâncias contudo, levantam suspeitas: somente a esposa e o médico que atestou o óbito viram o corpo. O velório foi rápido e somente com os parentes mais próximos. Ele morreu durante um julgamento que poderia trancafiá-lo por ao menos dez anos. Sua mulher no Brasil depois de uma década sem viajar e, ainda há um boato de que Emerson Fittipaldi encontrou Hazel no aeroporto de São Paulo em 1985 — quando o GP do Brasil era disputado no Rio de Janeiro — e, estranhando a presença da sra. Chapman, perguntou o que ela fazia no Brasil para ouvir que ela estava “passeando”. Estranho, não?

Colin Chapman e um anônimo que encontrei no ônibus em São Paulo, a caminho do Salão do Automóvel de 2016. Chapman… Salão do Automóvel…

Nascido em 1928, Chapman teria (ou tem?) hoje 93 anos — idade que torna plausível a hipótese de ele ainda estar vivo. Hazel completou 94 anos há seis dias. Seria esta a conspiração perfeita ou apenas um mito criativo? Quem sabe a verdadeira identidade de um velhinho mato-grossense não aparece nos próximos anos.