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História Zero a 300

Como um médico britânico ajudou a inventar o capacete de corrida

Se você quer correr de carro em um circuito de verdade, é preciso usar os equipamentos de segurança necessários. Além de bancos do tipo concha, cintos de competição e gaiola, é preciso usar macacão, luvas, sapatilhas, balaclava e capacete. No mínimo.

Dos equipamentos que o piloto usa no corpo, o capacete sem dúvida é que mais chama a atenção. Na Fórmula 1, por exemplo, o piloto precisa usar no macacão as cores de sua equipe, mas as cores do capacete são livres. Muitos pilotos acabam tendo sua imagem irremediavelmente ligada às cores de seu elmo. Ayrton Senna é o primeiro exemplo que vem à cabeça, naturalmente, mas existem outros – o capacete preto de James Hunt, o branco com tartan escocês de Jackie Stewart, a bola de tênis de Nelson Piquet.

DB-s00AWsAELTUaJarama, Spain. 2nd May 1976. James Hunt (McLaren M23-Ford), 1st position, portrait. World Copyright: LAT Photographic. Ref: 76 ESP 20.80b3c5b50ef9b31b930cadd540d90bb3--nelson-piquet-racing-f Stewart_1973_Brazil

Agora, a principal função do capacete é mesmo proteger o crânio, o rosto e os miolos do piloto em caso de acidente. E não precisa nem mesmo ser uma colisão com outro monoposto – uma peça da suspensão do carro da frente atingiu o capacete de Felipe Massa, que sofreu traumatismo craniano mesmo com o capacete.

E houve um tempo em que não se usava capacete – da mesma forma como não havia cintos de segurança, gaiolas, zonas de deformação programada, macacões ou sapatilhas.

Mas quando se começou a usar o capacete no automobilismo? E como foi?

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Um capacete de couro do Antigo Império Romano

A própria palavra elmo, sinônimo de capacete (helmet em inglês), dá a pista do óbvio: capacetes existiram muito antes da invenção do automóvel e do automobilismo. Guerreiros da Antiguidade, da Idade Média, da Idade Moderna e dos dias atuais usaram e usam capacetes – que antes eram chamados de elmos.

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Quando os primeiros pilotos foram correr de carro (mais ou menos 3 minutos depois da invenção do automóvel, segundo as pesquisas do nosso supercomputador), eles simplesmente não usavam capacetes. Certamente eles sabiam que, caso suas carruagens sem cavalos se acidentassem, eles iriam se machucar exatamente como em uma carruagem com cavalos. E, bem, em algumas carruagens com cavalos usava-se capacete – as bigas romanas, por exemplo.

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Nas primeiras prova rápidas com carros, que não eram corridas, e sim testes para medir sua velocidade máxima, os pilotos muitas vezes eram os próprios construtores das máquinas, e na grande maioria das vezes subiam no automóvel usando a roupa do corpo – casacos, chapéus, quepes, bonés ou boinas. Isto quando usavam.

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Austin 7 Sparrow no circuito de Donington Park, no Reino Unido em 1933: sem capacete a adrenalina era maior. E o risco de lesões cerebrais, também

Como muitas invenções antigas, não há o registro exato sobre quem foi o primeiro a usar uma proteção melhor que um boné, um chapéu-coco ou os próprios cabelos na hora de correr de carro. Mas não é difícil encontrar registros em preto-e-branco de corridas na virada dos séculos 19 para 20, com caras usando “gorros” de couro com proteção nas orelhas e óculos.

Armaduras de couro há eram usadas desde a Antiguidade, o que também incluía a fabricação artesanal de capacetes de pele de animal endurecida. Eram armaduras baratas e não muito eficientes e, no fim das contas, os capacetes de couro acabaram indo parar nas cabeças dos primeiros pilotos de avião, incluindo os que combateram na Primeira Guerra Mundial, que aconteceu de 1914 a 1918.

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Mike Gladych, piloto polonês que serviu à Força Aérea Britânca durante a Primeira Guerra Mundial: eles usavam capacetes que mais pareciam gorros de couro, por vezes forrados com lã, protegendo do frio e de eventuais choques com elementos errantes

Era questão de tempo até que alguns pilotos de velocidade começassem a usar capacetes parecidos com os de aviação, o que dificulta encontrar uma resposta exata.

No entanto, é possível apontar uma figura responsável pela iniciativa de adotar alguma proteção para a cabeça dos pilotos em terra. Foi exatamente em 1914, no circuito britânico de Brooklands – que teve a honra de ser o primeiro circuito de corridas dedicado na história da humanidade.

Brooklands era um oval de concreto cujo traçado era feito sob medida para altas velocidades, com curvas bastante inclinadas. Era utilizado para eventos de carro e também com motocicletas. O médico do circuito, o Dr. Eric Gardner, atendia um paciente vítima de traumatismo craniano, em média, a cada duas semanas. Segundo a edição de junho de 1922 da revista The Motor Cycle Magazine, uma das primeiras publicações da história dedicada às motos, Gardner foi quem pensou na possibilidade de tornar obrigatório para pilotos de moto um capacete de couro – mas não algo parecido com uma touca, e sim com uma couraça feita para ser encaixada na cabeça.

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Então, Gardner foi até a cidade de Bethnal Green, próxima ao circuito de Brooklands, e encomendou a um homem identificado como Sr. Moss o tal equipamento, feito de camurça e goma-laca. Porém, ao apresentar o capacete para a Auto-Cycle Union (o órgão responsável pelas normas de segurança para carros e motos na época), Gardner enfrentou certa resistência. No fim, contudo, ele explicou os benefícios e convenceu a organização a tornar o capacete obrigatório para a edição daquele ano do Tourist Trophy em Isle of Man. Como já comentamos aqui antes, o circuito de Snaeffel Mountain, onde acontece o TT, é um dos mais velozes e perigosos do planeta.

Gardner partiu para Isle of Man com 94 capacetes na bagagem e o distribuiu para os pilotos. Alguns não gostaram da ideia, dizendo que o equipamento atrapalhava a visibilidade, esquentava demais e que era desnecessário. Acontece que, durante a corrida, um dos pilotos atingiu um portão de cabeça e foi salvo pelo capacete.

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Mais tarde, pouco tempo depois, o médico residente de Isle of Man escreveu uma carta a Gardner. Nela, ele dizia que normalmente atendia vários casos de concussão após cada edição do Tourist Trophy, mas que em 1914 não houve nenhum.

Concussão é uma lesão cerebral que acontece após uma pancada violenta na cabeça, sem deixar marcas externas. Normalmente, após a perda de consciência, a vítima de concussão sofre náuseas, tonturas, perda de memória temporária e confusão mental. Uma concussão mais séria pode levar a danos neurológicos irreversíveis.

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A partir daí, iniciou-se uma leve “pressão” para que os capacetes fossem adotados como equipamento obrigatório para motociclistas. Leve porque foi um processo longo: foi preciso que, em 1935, o explorador britânico Thomas Edward Lawrence, morresse em um acidente de moto para que alguma providência fosse tomada.

T.E. Lawrence, também conhecido como Lawrence da Arábia, foi um dos grandes personagens da Primeira Guerra Mundial. Entre 1911 e 1914 ele fez uma expedição ao Oriente Médio e, quando o conflito começou, alistou-se no Exército e aproveitou sua posição privilegiada no território inimigo para dar informações valiosas aos ingleses.

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Ou seja: ele era um homem muito famoso. Então, andando de moto em uma rua próxima a sua casa no sul da Inglaterra, ele teve de desviar de dois garotos em suas bicicletas. Com a manobra, ele se desequilibrou e foi atirado para a frente, sofrendo um trauma craniano severo na queda. Lawrence da Arábia entrou em coma e morreu seis dias depois, em uma cama de hospital, aos 46 anos de idade.

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Lawrence da Arábia em sua Brough Superior

O neurocirurgião australiano Hugh Cairns foi um dos médicos que cuidaram de Lawrence da Arábia, e deu início um longo trabalho de pesquisa sobre lesões cerebrais depois do ocorrido. Ele chegou à conclusão de que muitos mensageiros que trabalharam de moto durante a Primeira Guerra Mudial poderiam ter suas vidas salvas pelo capacete.

O passo seguinte foi estimular o uso do capacete entre os motociclistas – primeiro, os que trabalhavam na polícia e no exército. Depois, entre a população.

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Os capacetes demoraram um pouco mais para se popularizar entre os pilotos de automóveis. Até os anos 50 ainda era comum ver capacetes de couro e óculos sendo usados por pilotos em corridas profissionais. Os capacetes de fibra de vidro com revestimento de tecido e espuma surgiram nos anos 50, e uma das primeiras marcas a se destacar neste segmento foi a Bell – que, em 1963, lançou o primeiro capacete fechado, desenvolvido com a ajuda de Dan Gurney.

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