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Car Culture Técnica

Criador do McLaren F1 acha que os hipercarros híbridos estão indo na direção errada

Gordon Murray é um dos integrantes mais ilustres do nosso panteão de heróis (por falar nisso, precisamos de uma série sobre eles). Motivos não faltam: ele foi o responsável pelos grandes carros da Brabham na Fórmula 1, que renderam a Nelson Piquet dois títulos mundiais, participou diretamente dos McLaren MP4/4 e MP4/5, que deram a Ayrton Senna outros dois títulos, e mais tarde deixou a Fórmula 1 para trabalhar naquele que se tornaria o supercarro definitivo: o McLaren F1.

Sendo assim tão ligado à equipe/fabricante de Woking, você deve imaginar que ele tenha gostado do sucessor de sua obra-prima, o McLaren P1 certo? Errado. Na verdade ele sequer considera o P1 um sucessor do F1, e quer provar que a McLaren está errada, assim como todos os fabricantes de hipercarros híbridos.

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Em uma entrevista feita pelos organizadores do festival de Goodwood, Murray foi questionado sobre isso — se o McLaren P1, a La Ferrari e o Porsche 918 representam a evolução natural do McLaren F1. Eis o que o projetista respondeu:

Não acho. Eles foram por uma direção completamente diferente do F1. Vejo esses carros mais como um exercício técnico. Não digo que o P1 não seja um bom carro, mas ele está a 180 graus de distância daquilo que o McLaren F1 foi projetado para ser. O F1 era um carro puro, uma obra de arte mecânica e também um carro que você pode usar todos os dias. Ele acabaria sendo rápido de qualquer jeito, mas nunca foi projetado para chegar a 390 km/h. O mais importante é que você poderia levá-lo à pista e ainda conseguiria usá-lo nas ruas. Poderíamos ter facilmente dado a ele três ou quatro vezes mais downforce, mas qual seria o sentido disso?”

Quando questionado sobre como seria o F1 se ele fosse projetado atualmente, Murray disse que ele seria praticamente o mesmo e alfinetou: um F1 com pneus modernos, controle de tração e largada e trocas de marcha super-rápidas seria tão rápido e veloz quanto a LaFerrari.

Talvez ele tenha razão: o McLaren F1 vai de zero a 100 km/h em 3,5 segundos e tem velocidade máxima limitada por corte de injeção quando o motor chega às 7.400 rpm da sexta (e última)marcha, quando o carro está a 240 milhas por hora (386 km/h). Mais marchas e trocas mais rápidas poderiam reduzir facilmente esse tempo e aumentar significativamente a velocidade máxima. Um pouco de eletrônica para domar a largada e melhorar a tração ajudaria ainda mais (nota mental: fazer um restomod desses daqui a 20 anos).

Para Murray, o grande desafio do futuro é driblar o peso dos carros. Seu McLaren F1 foi feito com 1.138 kg e 636 cv. O McLaren P1 tem 1.490 kg e 903 cv, o Porsche 918 Spyder tem 1.700 kg e 899 cv, e a LaFerrari pesa 1.255 kg (sem fluidos) e tem 963 cv. A potência aumentou, mas o peso subiu igualmente. Murray acha que os motores não irão evoluir para sempre em termos de potência (se você parar para pensar, ele tem razão) e por isso é essencial contornar os desafios do aumento de peso dos esportivos:

Acima de tudo sou um cara que adora dirigir e quero proteger isso. Com carros mais pesados e maiores, isso cairá em esquecimento. A busca por mais e mais potência não poderá continuar para sempre. A grande fronteira é o peso. Sempre me dediquei a isso[…]”

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Atualmente, Murray está trabalhando em minicarros urbanos, como o seu T.25 e o Yamaha Motiv, mas ele conta que os novos hipercarros acabaram o inspirando a fazer algo diferente — em uma fala que soa como “vou mostrar a esses caras como se faz um esportivo do jeito certo”:

Quero muito fazer mais um supercarro, e não faria se esses monstros híbridos de uma tonelada e meia não existissem. Eu teria parado no F1, mas agora há algo a ser provado: que você ainda pode fazer um esportivo excelente com um motor movido à combustão interna e mecanicamente puro.”

E tem mais: ele está preparando um esportivo mais acessível, com a receita certa para contrariar a tendência híbrido-maciça do mercado:

Estou desesperado para produzir meu esportivo acessível. Há um bom nicho de mercado para ele. Como ele seria? Simples, aspirado, leve, tração traseira e bastante rígido e resistente com sua construção de compósitos. Seria o antídoto da LaFerrari ou do P1.”

Parece que seu envolvimento com mini carros moderninhos não afetou nem um pouco seu gosto pela velocidade. E é sempre bom ver um gênio voltando à ativa para “mostrar como é que se faz”. A entrevista completa está disponível no site de Goodwood, em inglês.

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[ via Goodwood Road & Racing ]

 

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