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Pensatas

Duas utilidades para o SUV moderno. E um amor antigo.


O mundo de hoje é obcecado por respostas definitivas. O preto e o branco dominam toda e qualquer discussão a respeito de tudo, e os tons de cinza só são lembrados em novelas sadomasoquistas light para consumo feminino. O que não ajuda muito.

Mas a verdade é que não existe uma resposta única para a maioria das questões da humanidade. É incrível que as pessoas não aceitem que certas coisas simplesmente não têm respostas, apenas mais perguntas, teorias e modos de se encarar. O povo exige a mítica resposta definitiva para qual seria a forma correta de agir. Todo mundo parece fã de equação matemática simples, com apenas um resultado possível e indiscutível. Elucubrar situações diferentes e resultados alternativos é tabu.

Brinquei um pouco com isso esta semana na matéria sobre os motores seis cilindros do Omega, onde disse que tinha a resposta definitiva sobre qual é o melhor. Claro que isso não existe. O que existem são fatos, e a partir deles, cada um pode decidir o que é melhor para ele. Uma resposta única nunca existirá em qualquer questão deste tipo. Cada pessoa tem um uso e uma história e um gosto particular quando se refere ao automóvel, e tentar achar uma resposta definitiva sobre qual é o melhor é um exercício fútil. Tá, sempre divertidíssimo se encarado com bom humor, mas fútil de qualquer forma.

Existem várias maneiras de se fazer a mesma coisa, várias soluções para um mesmo problema. No boxe por exemplo, por anos o sujeito tinha que ser forte e resistente; aguentar pancada e ter um gancho de esquerda devastador. Aí gente como Muhammad Ali aparece, e leve como uma pena e com reflexos incríveis, dança e se esquiva do oponente, acertando golpes rápidos e dolorosos incessantemente em buracos na guarda, até que pudesse derrubá-lo. Muhammad Ali era um Lotus Seven que facilmente vencia os Lamborghini Diablo do boxe. Até o dia em que um Bugatti Chiron chegue no ringue para ganhar uma rodada para o puro músculo e força bruta. Não, não existe uma resposta definitiva, apenas uma que temporariamente está na frente.

Não podia ser diferente no uso de automóveis no fora de estrada. E aqui não existem apenas a solução bruta e a solução de pés leves como os de Ali. Além de soluções diferentes, existem problemas diferentes. Vários tipos de usos diferentes no fora de estrada, que pedem maneiras diferentes de encará-los.

 

O SUV

O fora de estrada nasce basicamente de atividades profissionais variadas. Soldados, fazendeiros, mineradores, gente que por força de ocupação precisa acessar lugares ermos, e levar equipamentos diversos consigo. Mas logo se torna também uma atividade de lazer: caçadores, pescadores, exploradores e até os esquisitíssimos colecionadores de borboletas e os observadores de pássaros. E todo mundo que precisa ou gosta de ir para o mato, precisa de um carro para isso.

O primeiro SUV, a perua derivada do Jeep militar que conhecemos aqui com o nome de Rural Willys, nasce justamente para isso: com tração nas quatro rodas, vão livre generoso e bons ângulos de ataque e saída, tinha mais capacidade no fora de estrada que a maioria dos carros normais, e teve muito sucesso com isso.  Era um carro ruim nas ruas e no dia a dia, porém: lerdo, beberrão, desconfortável, barulhento, totalmente agricultural em seu comportamento. Mas por muito tempo definiu o veículo de uso misto, que servia para “passeio” e trabalho, para off-road pesado e levar as crianças na escola.

Antes de aparecer o VW, assim eram os dune-buggy

Paralelo a isso, na Califórnia existia outro uso off-road que não exigia 4×4: o de bugues de areia para dunas. Inicialmente chassis de carros normais alterados, para que fossem leves, e motores recuados para trás o máximo possível para mais peso na roda tratora. Depois, aparece o VW já praticamente pronto para isso. Estruturas tubulares ou de fibra de vidro aliviavam o peso e faziam do VW um carro praiano, mais aberto e divertido. Uma febre de bugues de praia se segue, mas seu uso sempre foi limitado a gente diferente, praiana ou simplesmente iconoclasta. O Ariel Nomad é um interessante herdeiro desta vertente, mas um que veio também via o carro esporte leve e espartano da marca, o Atom. Uma interessantíssima mistura genética, e bem mais útil que qualquer coisa imaginada pelo Dr. Moreau.

Hoje, setenta anos depois, praticamente sumiu o compromisso tão evidente entre rua e fora da estrada que aparecia na Rural. Um Range-Rover, por exemplo é mais capaz que uma Rural no fora-de-estrada, mas também faz uma imitação totalmente convincente de um Mercedes-Benz classe S durante a semana. O fato de que hoje poucos usam esta capacidade, a maioria comprando o carro apenas pela imagem, é irrelevante. Ela existe. Exatamente como um McLaren que só é usado para ir até a rua Oscar Freire uma vez por semana para as compras de milady.

Esta popular imagem de veículo off-road acaba por criar um sub-gênero automotivo extremamente popular hoje em dia: o veículo alto, com visual off-road, mas sem tração nas quatro rodas ou grande pretensões fora de estrada. Sim ele mesmo: o SUV crossover.

SUV também é um termo amplo que significa coisas bem diferentes, mas aqui uso o termo com o modificador “crossover”; carros como Honda HR-V e similares: derivados SUV de carros de tração dianteira e uso urbano.

Muita gente acredita que tal coisa é extremamente inútil. Todos conhecemos os argumentos: rodas grandes precisam de suspensão parruda e caixa de roda enorme, que por sua vez aumenta o tamanho e o peso do carro inutilmente. O carro alto e com pneus com perfil alto faz ele menos estável dinamicamente. E mais pesado; o que atrapalha o consumo e o desempenho. Massa não suspensa alta (os pneus grandes) é ruim para o desempenho dinâmico de qualquer veículo. Um lixo completo, principalmente no uso urbano, onde a maioria deles está confinado.

Mas será mesmo?

O sucesso deles nos compele a fazer mais que reclamar. Nos faz querer entender o que acontece, para no mínimo tentar prever como evoluirão. E talvez assim entender para onde vai o automóvel. Quando até Ferrari, Lamborghini e Aston Martin precisam deles para viver, precisamos, no mínimo, prestar atenção.

Uma coisa é certa: “uso off-road” é um termo que é amplo demais, e define um sem-fim de usos completamente diferentes. Vale a pena contar uma historinha pessoal aqui para exemplificar.

 

Vida na fazenda

Há muito tempo atrás, numa galáxia perto de Juiz de Fora/MG, minha família se mudou para uma fazenda de gado leiteiro. Por alguns anos, fomos fazendeiros. Quando isso aconteceu, compramos carros que condiziam com a nova situação, morando como estávamos a 20 km do asfalto mais próximo. Seguindo uma tradição familiar prestes a acabar, compramos Chevrolet: Uma C20 e uma S10 Blazer.

Parecem à primeira vista carros bem acertados para esta nova situação, mas na verdade foram catastroficamente ruins. Nas estradas de terra esburacadas, vibravam furiosamente e desconfortavelmente, sem absorver nada. O chassi e a carroceria pareciam cada um fazer algo diferente a cada momento. O eixo traseiro pulava violentamente. A tração traseira permitia power-drifts na terra, mas eram na verdade carros eminentemente subesterçantes, e andar meio rápido acabava repetidas vezes com a frente enfiada no barranco.

E pior: ambos os carros eram incapazes de descer em alguns lugares da fazenda sem ter que ser rebocados de volta com o velho trator Massey Ferguson. No caso da picape, que existia para buscar coisas nesses lugares, era positivamente irritante. Até grama molhada em descida tornava a C20 imóvel. Comprar algo 4×4 naquela época era sonho apenas: as opções eram poucas e caríssimas.

A parte do uso misto, a de ir à cidade, também era sofrível: a Blazer 2.2 era lerda, e bebia quantidades prodigiosas de combustível. Era dura e desconfortável, mas também não fazia curva. Era um carro enorme, mas pequeno por dentro e apertado para todos os ocupantes. A C20 pelo menos andava um pouquinho melhor, e tinha mais espaço, mas só para três pessoas. Mas é claro que também bebia quantidades prodigiosas de gasolina. Uma lástima.

Desconfio que meu pai perdoaria tudo isso se os carros fossem confiáveis. Mas eram um poço infinito de problemas, o que simplesmente fez acabar com a história de nossa família com os Chevrolet. Paralelamente a isso, meu irmão estava desde 1992 com uma Ford Pampa 1.8 GL, a álcool, vinho metálico, comprada zero km. Em pouco tempo, era o carro mais requisitado, de longe, na fazenda. A C20 foi vendida, um Gol comprado para meu irmão.

A Pampa, depois da C20, era uma revelação. Sua tração dianteira, somada ao entre-eixos longo, pneus radiais Pirelli M+S para uso misto, e a distribuição de peso favorável, era simplesmente impossível de parar no uso da fazenda. Certa vez fomos buscar um porco para a festas de fim de ano, num chiqueiro vizinho no pé de uma ribanceira incrivelmente íngreme, e totalmente enlameada. Achei que nunca sairíamos de lá, mas para minha surpresa, a Pampa, um cachaço enorme de um quarto de tonelada, e mais cinco pessoas na caçamba, subimos sem muito problema além de lama para todo lado. Incrível.

Pampa 4×4: nunca me fez falta.

Por muito tempo depois disso ria em desprezo para carros com tração total. Não me parecia possível alguém precisar mais que uma Pampa. Ou um Fusca, para lembrar de um carro extremamente popular na região, que com pneus apropriados cruzava qualquer obstáculo. De Pampa, ia para todo lugar sem medo. Hoje penso como seria bom um celular com câmera: teria fotos dela em cachoeiras, pastos e ribanceiras inacreditáveis. Eu me achava super-poderoso.

E nas estradas de terra, a velocidades impublicáveis, a suspensão absorvia tranquilamente as imperfeições, e dava estabilidade exemplar ao carro. Na cidade, era um Del Rey com caçamba. Sim, a posição de dirigir é diferente, mas não era desconfortável. E ainda por cima fazia curvas em estradas asfaltadas bem pacas, mais do que tinha direito, o que, em conjunto com o forte 1.8, fazia um carro divertido pacas de andar forte. As lembranças das minhas constantes viagens ao Rio, pelas curvas da BR040, ainda me fazem sorrir. Sim, de Pampa. Como Beto diz, “A mais estranha história que alguém já escreveu”.

O que eu e o Beto queríamos dizer é que, ao contrário do que muitos pensam, o off-road é possível com tração em duas rodas sim. O Gurgel é um bom exemplo: com freio de mão independente para cada roda traseira, um diferencial blocante “de pobre” estranhamente eficiente para tirar o carro de frias, era um jipe bem útil, mais do que se imagina. Como eram os Kubelwagen alemães baseados no VW (com blocante ZF) da segunda guerra: em certas situações, eram melhores que os Jeep 4×4 americanos, e certamente bem mais divertidos de guiar. Nas tropas americanas, quando capturavam um, seu uso era disputado a tapas.

A Blazer foi trocada por um carro aparentemente estranho para o uso: uma das primeiras Renault Scénic que vieram ao Brasil. Um carro que foi para a Blazer o que a Pampa foi para a C20. Prestou mais de cinco anos e 200.000 km de serviços impecáveis para todos nós, vivendo sempre no mato, no meio de terra e lama, mas também viajando em asfalto, muito. O uso foi menos severo que o da Pampa, mas nunca atolou, e era extremamente confortável na estrada de terra e fora dela. E mais econômica, silenciosa, espaçosa e durável. Sim, durável e confiável, muito. Foi a segunda Scénic, não a primeira, que nos fez entender de onde vinha a fama ruim do carro francês nesse campo.

E aqui chegamos onde queria chegar: não é o SUV 4×2 moderno uma Scénic melhorada para este tipo de uso? Olhando desta forma, não parece tão inútil assim. O fato de ser monobloco, e contar com modernas suspensões independentes (ou semi-independente por eixo de torção atrás, como na Scénic), o faz melhor que qualquer SUV com chassi. Melhor que coisas como uma Toyota SW4 com motor flex de quatro-cilindros e 4×2, certamente. Esta, é a herdeira espiritual daquela nossa Blazer: não faz absolutamente nada bem.

Sim, existem usos fora de estrada extremos que exigem mais que apenas um carro leve com motor em cima do eixo motriz. Exigem 4×4, reduzida, bloqueio de diferenciais, rodas enormes. Em alguns casos, eixos tipo portal, para aumentar o vão livre, guinchos elétricos que podem puxar caminhões pendurados em penhascos. Com o tempo, aprendi como é divertido também o off-road pesado, e suas nuances e equipamentos variados, e como é bom ter tração total quando se deseja usar. O mundo do off-road esportivo é sensacional e variado.

Mas nunca me esqueci que, tirando este uso esportivo, de diversão, muita coisa, mas muita coisa mesmo, pode ser enfrentada por uma simples Pampa com pneus adequados.

 

Lombadas

Mas tem outra utilidade muito interessante para o SUV moderno além do uso “fazendeiro”. E isso diz respeito ao dejeto viário estatal popularmente conhecido como “quebra-molas”. De um tempo para cá, brota espontaneamente feito mágica por todo e qualquer canto, uma praga pior que os coelhos na Austrália. E muito mais irritante; não podemos abatê-los a tiros, afinal de contas. Talvez os explodir? É proibido? Que pena.

Enfim, na convivência diária com a praga, como serem humanos pensantes que somos, vamos nos adaptando, aprendendo a conviver com eles. Pessoalmente, a coisa de dois anos descobri, usando um carro alugado (óbvio), que a melhor forma de viver com quebra-molas é simplesmente ignorá-los. E que certos carros são melhores que outros para isso. Um Cobalt por exemplo, é extremamente eficiente para atravessar lombadas sem frear, estranhamente. Minha perua BMW E36 já não era boa para os quebra molas maiores, mas os pequenos eram absorvidos sem problema algum. Mas foi passando uma semana com uma Duster Oroch que vi a luz: suspensões independentes de curso longo, monobloco rígido, e pneus enormes, simplesmente faziam todos os quebra-molas desaparecerem feito mágica. OK, não TODOS, mas voar também é divertido. Às vezes. Outras vezes, dói. Tá, melhor vocês tomarem cuidado com os maiores.

Mas enfim, o fato é que finalmente entendi uma grande utilidade, no uso urbano diário, para esse monte de carro alto com pneu grande. Claro que uns são melhores que outros nisso, mas todos eles se prestam bem a isso. E passar sem frear por quebra-molas é estranhamente libertador. Quase um ato político de rebeldia, que adoro.

Além disso, há a utilidade estendida. Um SUV desse tipo, para um usuário normal, não aparenta hoje em dia ser pior dinamicamente que um sedã baixo, apesar de, tecnicamente, ser. Para esse povo, só há vantagem: um carro mais capaz, por sua altura mais fácil de se entrar, com a versatilidade tampa traseira hatchback. E com incrível capacidade de obliterar obstáculos urbanos.

O engraçado é que picapes modernas como as novas S10 e Ranger, não são nada boas nisso. Claramente chassi separado é algo a se evitar. A Amarok é a melhorzinha aqui em minha experiência, mas mesmo ela não se compara a um bom monobloco com suspensão independente. Forçam a gente a diminuir nas lombadas, as picapes com chassi.

Mas gostaria muito de experimentar uma picape que faz muito sucesso nos EUA, e que imagino ser imune a lombadas, e obstáculos até maiores: a picape Ford Raptor. Este monstro é feito para pular, para andar rápido em deserto, então deve ser bem melhor para engolir quebra-molas. Mais que isso, parece capaz de ignorar qualquer meio fio. Não que isso seja recomendável, a parte do meio fio, mas acho que me entendem. Nada parece ser capaz de parar um Raptor. Uma capacidade deveras desejável.

Fora que tem desempenho de carro esporte (em linha reta, pelo menos), interior luxuoso, com espaço para cinco pessoas, e reputa-se até confortável e silencioso em uso normal. E tem tração integral. Um carro que serve para tudo, quase. OK, não é bom para dar voltas em Interlagos, mas existem outras coisas para isso. Mas eu confesso que tenho uma grande tara por esta picape Ford. Por que não uma Ranger Raptor aqui? O que a Ford tem a perder se tentar?

Seria uma picape Ford muito diferente de minha saudosa Pampa 1.8, com certeza, mas uma que se presta a um uso muito parecido. Apenas, como eu mesmo 20 anos depois, maior, mais gordo, menos ágil, e com mais gente e tralha para carregar. Se o mundo não é tão mais simples e descomplicado como aquele da Pampa, eu também não sou aquele moleque cheio de ideias malucas que nunca dariam certo. Seria legal ter outras coisas modernas e diferentes para substituí-la. Pelo menos, tentar.

Mas ah, a Pampa. O caso mais antigo, o amor mais amigo, que me apareceu. Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter.

Será que o Beto teve Pampa?

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