FlatOut!
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Car Culture Zero a 300

Enriqueça seu domingo com estas aulas de pilotagem vintage – estrelando Rob Slotemaker e Sir Jackie Stewart

Há algo fascinante na forma como, se houver tempo e comprometimento, qualquer assunto, ação, prática ou interesse pode ser profundamente analisado, nos mínimos detalhes. Saboreado em todas as suas facetas. E isto, obviamente, vale para os carros e tudo o que os envolve. Não apenas os carros em si, mas também sua operação – seja em vias públicas ou em um circuito de corridas. Existem inúmeros elementos a se considerar no ato de conduzir um automóvel, diversas formas de explorar o universo da direção. E, se há algo que une (ou deveria unir) todos os entusiastas no planeta, é justamente a importância que damos ao modo como dirigimos.

E é por isto que muitos entusiastas concordam que a formação de condutores que temos no Brasil é deficiente. Experiência é importante, claro – é irreal exigir que um motorista recém-formado tenha o mesmo nível que um veterano de mais de duas décadas, por exemplo. Mas devemos admitir que as pessoas poderiam sair da auto-escola com melhor conhecimento das características dinâmicas de um automóvel, de seu funcionamento e, mais importante, das atitudes a serem tomadas caso ocorra algum incidente. Tais lições acabam relegadas ao aos cursos adicionais de direção defensiva – algo que poderia, sim, ser tratado com mais ênfase na hora de ensinar alguém a dirigir.

Esta pequena reflexão me ocorreu quando vi um pequeno vídeo de dois minutos publicado pela British Pathé, produtora de cinejornais do Reino Unido que disponibilizou boa parte de seu acervo em seu canal do Youtube. Cinejornais (newsreels em inglês) eram curtas-metragens exibidos antes dos filmes nos cinemas, bastante populares entre as décadas de 1910 e 1960. Cobrindo assuntos de interesse geral, como notícias, lançamentos de produtos, documentários e cultura geral, os cinejornais eram uma das principais formas que as pessoas tinham de se manter entretidas, informadas e com os assuntos em dia para rodas de conversa.

Um destes cinejornais falava a respeito de uma recém inaugurada escola de pilotagem no Reino Unido, a Anti-Skid School – “Escola de Antiderrapagem”, em uma tradução literal. Era exatamente o que o nome dizia: uma escola de pilotagem que focava suas lições na forma de lidar com o carro e manter o controle em situações de baixa aderência. O cinejornal foi exibido nos cinemas britânicos em 1960, e aposto que os fãs de carros que estavam no cinema para assistir “Um Gosto de Mel” (A Taste of Honey) ou “Vida de Solteiro” (The Entertainer) saíram de lá inspirados a aprender mais sobre condução segura – até porque é possível dar um pequeno espetáculo com a mera demonstração das técnicas ensinadas pela Anti-Skid School.

Na época, não existiam assistências eletrônicas, freios ABS e nem pneus radiais de qualidade a um preço acessível. A tração nas quatro rodas ainda estava engatinhando rumo aos carros de passeio. Os carros eram menos potentes e bem mais lentos, mas eram muito mais rudimentares, orgânicos e perigosos – cintos de segurança ainda eram opcionais na maioria deles, estruturas com zonas de deformação programada ainda não eram realidade, bem como airbags e outros equipamentos de segurança ativa e passiva. Todos estes avanços, que ganharam espaço nos últimos anos, são essenciais e, literalmente, uma mão na roda de quem está dirigindo um carro na rua ou na estrada. Um bom sistema eletrônico de controle de tração e estabilidade pode fazer a diferença entre um susto e uma tragédia. Quando eles não existiam, era tudo no braço.

As aulas eram ministradas pelo piloto Rob Slotemaker, nascido em Jacarta, na Indonésia, porém naturalizado holandês. Slotemaker foi um dos pilotos da Porsche na Fórmula 1 em 1962 – com uma versão monoposto do Porshce 718, que tinha um flat-four arrefeido a ar na traseira –, mas sua carreira em outras categorias foi mais relevante: ele pilotou protótipos e carros de turismo em provas como a Targa Florio e os 1.000 Km de Nürburgring. Jaguar C-Type, Alfa Romeo T33, Mini Cooper e Porsche 904 foram alguns deles.

1969 Le Mans 24 hours.

No vídeo, Slotemaker ensina algumas técnicas simples, porém úteis, como aplicar frenagens curtas quando o carro perde aderência em piso molhado em vez de pisar de uma vez no pedal do meio – algo que invariavelmente faria as rodas travarem e tornaria praticamente impossível recuperar o controle sobre a situação (novamente, estamos falando de um vídeo feito mais de uma década antes da introdução dos sistemas anti-travamento). A certa altura, ele utiliza miniaturas em escala bem interessantes, com mecanismo de esterçamento, para demostrar exatamente como é preciso agir em diferentes cenários.

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A grande premissa da Anti-Skid School era a de que é possível ter total controle sobre o comportamento de qualquer automóvel em qualquer situação. O curso começava com carros da década de 1930 e 1940, pois eles eram mais lentos e dóceis na condução. À medida que os alunos iam avançando, passavam a conduzir carros mais velozes.

Além de dar aulas no Reino Unido, Slotemaker tinha sua própria escola de direção defensiva e pilotagem na Holanda, em Zandvoort – que funciona até hoje, diga-se. E foi justamente no circuito de Zandvoort que ele morreu, em 16 de setembro 1979, aos 49 anos de idade. Slotemaker pilotava seu Chevrolet Camaro em uma corrida de turismo amistosa quando o carro passou por uma poça de óleo, rodou e bateu em outro automóvel, que estava estacionado na lateral da pista. Embora tenha sido uma colisão relativamente leve, o piloto fraturou o pescoço com o impacto e morreu no local. Uma ironia triste, devemos dizer.

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Agora, se você está com tempo e ficou inspirado a aprender um pouco sobre direção neste fim de tarde de domingo, eis outro vídeo educativo sobre pilotagem: Behind the Wheel with Sir Jackie Stewart, de 1987. Trata-se de um material um pouco mais moderno e ainda mais interessante. No vídeo, que tem cerca de uma hora de duração, o já veterano Jackie Stewart – então com 48 anos de idade e uma carreira impecável, incluindo três títulos mundiais de Fórmula 1, em 1969, 1971 e 1973.

Sir Jackie Stewart é conhecido por sua pilotagem limpa e precisa, com suavidade e finesse. Ele deixa isto bem claro no vídeo feito em parceria com a Ford – marca para a qual foi uma espécie de garoto-propaganda e embaixador na época. A trilha sonora composta totalmente por autêntico synthwave só contribui para a atmosfera oitentista, reforçada pelos carros utilizados, como o Merkur XR4i, o Lincoln Town Car ou o Ford Mustang “Fox-body”.

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Com seu famoso cabaçete branco com tartan, o piloto escocês explora diversos aspectos da pilotagem em modelos de rua e de corrida da Ford, começando pela posição ao volante (algo que também já fizemos no FlatOut Driving Academy, aliás, porém de forma mais específica para a pilotagem em pista), seguindo por noções básicas de condução esportiva, até chegar às técnicas avançadas, dando uma boa base para quem pretende competir de forma amadora ou profissional. Ele também deixa claro que seus toquem podem ser úteis também para quem quer apenas dirigir de forma mais correta e segura.

Stewart, aliás, é um dos grandes ativistas da segurança no automobilismo – uma cruzada que começou após um acidente em Spa no ano de 1966, quando seu BRM saiu da pista e acertou um poste telefônico. Após ficar preso por 25 minutos em seu carro todo destruído, pois não havia equipe de salvamento; passar horas deitado em uma maca no chão, rodeado por sujeira e bitucas de cigarro; e ser levado ao hospital por um motorista de ambulância que não sabia onde ficava o hospital, Stewart passou a lutar por melhoria na infraestrutura dos autódromos e pela capacitação dos profissionais. Após vencer seus três títulos ele conseguiu fazer sua voz ser ouvida quando dizia que “para terminar uma corrida em primeiro, primeiro você tem que terminar”.

Por mais que hoje em dia tenhamos carros muito mais seguros, cheios de truques tecnológicos que nos ajudam a conduzir da melhor forma possível, não há assistência de fábrica que evite problemas quando um motorista ou aspirante a piloto não sabe o que tem em mãos. Estes vídeos antigos obviamente não vão ensinar tudo o que é preciso aprender, mas ao menos conseguem nos entreter com conteúdo de primeira – afinal, quem aqui não gosta de ver um carro sendo bem tocado por quem entende do riscado.