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Automobilismo

Entenda a situação do Autódromo Internacional de Curitiba


No ano passado o jornalista Rodrigo Mattar, do site “A Mil Por Hora”, publicou uma matéria prenunciando o fim do Autódromo de Curitiba (AIC), que seria vendido para uma incorporadora imobiliária e transformado em condomínios. Na época os proprietários do AIC desmentiram a notícia, mas com a ressalva de que não descartavam um fechamento futuro, pois uma oferta generosa poderia ser mais vantajosa do que a administração do circuito.

Agora, o jornalista volta a afirmar em seu site que este será o último ano do AIC, e que seu fim deve ser anunciado nos próximos dias. A postagem não traz muitos detalhes, mas pressupõe-se que a tal oferta generosa dos especuladores imobiliários foi feita. Nada confirmado, por enquanto, mas vamos ficar de olho e publicaremos as novidades assim que elas chegarem.

O trecho acima parece atual e, não fossem as referências às apurações de Rodrigo Mattar, poderiam ter sido publicados na última sexta-feira (17). Este trecho, contudo, foi publicado no Zero a 300 de 11 de abril de 2014, há sete anos e cinco meses, mas ajuda a explicar a situação atual do Autódromo Internacional de Curitiba (AIC), que está, novamente prestes a ser fechado — agora definitivamente, ao que tudo indica.

Para entender exatamente a situação do AIC, você precisa saber que ele é um dos autódromos mais antigos do Brasil antigos, construído em uma região outrora isolada, que hoje é ocupada por quase 133.500 pessoas — e que sequer faz parte de Curitiba, apesar do nome.

Na época da construção do circuito, em 1967, Pinhais era um parte de Piraquara, município da região  metropolitana de Curitiba, razoavelmente afastada do centro da capital. Para se ter uma ideia, nos anos 1960 Curitiba tinha pouco mais de 350.000 habitantes em seus quase 500 km², ou 700 hab/km². Hoje Curitiba tem quase 1,9 milhão de habitantes e uma densidade demográfica de 4.320 hab/km². Em 1992, Pinhais cresceu, emancipou-se e hoje tem uma densidade demográfica de quase 2.000 hab/km², além de vários condomínios suburbanos.

Esse crescimento não seria um problema se o autódromo não fosse privado. Por ser privado, isso significa que não há dinheiro público envolvido na manutenção e conservação do autódromo (ao menos em tese). Como todo negócio privado, o objetivo do AIC é o lucro e, embora o autódromo tenha sido lucrativo nos últimos anos, os proprietários do circuito afirmaram em 2015 ao jornal Gazeta do Povo que ainda não haviam recuperado o investimento de R$ 13.000.000 feito em 1995 para modernizar a pista. O valor é equivalente a cerca de R$ 67.000.000 em valores atuais. A informação veio à tona na época em que se especulava sobre a venda do autódromo. Ainda em 2015, os proprietários afirmaram ao mesmo jornal que havia 12 propostas concretas de compra do terreno, e que era apenas uma questão de negociar os termos.

Naquele ano, o AIC chegou a anunciar o fim das atividades de pista e a venda do terreno, algo que, aparentemente não se concretizou e, em 2016 as atividades continuaram. Na ocasião, a justificativa para a continuidade das atividades foi a melhora na economia do país.

A situação do AIC, contudo, continuava instável. Há poucas informações públicas justamente por se tratar de uma propriedade privada, mas especula-se que, além do investimento “perdido”, o AIC também tem dívidas de IPTU com a prefeitura de Pinhais/PR. Além disso, na mesma época dizia-se que o terreno estava penhorado havia 17 anos (desde 1996, portanto) devido a dívidas trabalhistas de uma empresa da qual o proprietário original do AIC, Flávio das Chagas Lima, era sócio.

Em 2018, os portões dos boxes foram removidos e vendidos. Também naquele ano, de acordo com o jornalista local Regi Silva, durante uma etapa do Campeonato Metropolitano de Marcas realizada no AIC,  um oficial de justiça entrou em contato com representantes da Federação Paranaense de Automobilismo para reter o valor do aluguel da pista, que deveria ser depositado em juízo — o que indica dívidas em protesto.

No ano seguinte, 2019, o AIC foi multado em R$ 50.000 pelo Instituto Ambiental do Paraná devido aos níveis de ruído dos carros da Stock Car, o que inviabilizou a realização da etapa daquele ano no AIC. Com a imposição da multa, a etapa foi cancelada e transferida para o Velopark, em Nova Santa Rita/RS. O ruído dos carros é uma reclamação de longa data dos moradores do entorno do autódromo.

Agora, em 2021, a prefeitura de Pinhais/PR realizou uma audiência pública, na qual foi apresentado o projeto de reurbanização da região, o que inclui uma proposta de construção de um parque e moradias no terreno onde hoje está o autódromo. E aqui as coisas ficaram um pouco confusas para quem não está acompanhando o caso do autódromo.

A primeira notícia que recebemos, extra-oficialmente, foi de que a prefeitura de Pinhais iria desapropriar o autódromo. Contudo, esta informação não foi confirmada. O valor venal do imóvel é muito superior ao suposto valor da dívida do AIC com a prefeitura de Pinhais. Ao que tudo indica, os proprietários do circuito, a Inepar, deverão concretizar a venda do terreno para o setor imobiliário.

Algo que não é mencionado na discussão sobre a venda do AIC, é que o grupo Inepar — proprietário do autódromo — passou por um processo de recuperação judicial que se encerrou em 2018, o que pode explicar a presença do oficial de justiça no Metropolitano de Marcas naquele mesmo ano.

A prefeitura, pelo que consta, sempre foi favorável à manutenção do autódromo por questões turísticas, contudo, o projeto prevê que a criação do “Bairro Autódromo” poderá trazer cerca de 8.000 habitantes à região que, segundo o projeto apresentado pelo escritório do arquiteto Jaime Lerner (falecido em maio deste ano), “é um dos maiores vazios urbanos da região de Curitiba”. A região poderia dar lugar a cerca de 2.000 imóveis — e aqui é importante mencionar que nos arredores do autódromo, o valor médio do metro quadrado construído gira em torno dos R$ 3.000, enquanto o metro quadrado dos terrenos custa entre R$ 600 e 900 — estamos falando, portanto, de centenas de milhões de reais pelo terreno, com potencial para, literalmente, bilhões de reais em vendas. Isso, sem mencionar o potencial de arrecadação de IPTU, ICMS e ISS pela prefeitura de Pinhais.

A situação do autódromo é delicada e, ao que parece, os próprios administradores do autódromo já planejavam a venda, considerando a frequência cada vez menor de eventos — notadamente da arrancada, que era tradicionalmente a principal modalidade do circuito e teve, recentemente, um evento cancelado devido a um desentendimento com os proprietários a respeito das áreas reservadas e valores cobrados.

Agora, com a iminente venda do autódromo, a única forma de se manter a atividade esportiva no local seria a compra do circuito por um consórcio de empresas envolvidas com o automobilismo — e isso inclui fabricantes, fornecedores e patrocinadores —, ou algum projeto de uso misto, com centros comerciais, moradias, hotéis e o circuito no meio disso tudo.

Por fim, como o AIC é uma propriedade privada, tudo o que se sabe sobre a situação da empresa proprietária do circuito e sobre as negociações é o que pode ser apurado pela imprensa ou divulgado pela própria empresa.

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