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Este Batmóvel de 1966 é praticamente original – e agora pode ser seu por R$ 1,6 milhão

A história do Batmóvel original de 1966 é bem conhecida, mas é bacana: em 1955, a Ford criou o conceito Lincoln Futura, a fim de demonstrar como seriam as tendências de design para seus futuros modelos. O carro fez bastante sucesso nos eventos em que apareceu mas, assim que deixou de ser útil, foi simplesmente abandonado. Até que, em 1965, o customizador George Barris comprou o conceito pela quantia simbólica de US$ 1 (cerca de US$ 7,50, ou R$ 25, em 2016) e o transformou no Batmóvel usado no seriado do Batman dos anos 1960. O resto é uma história que contamos aqui.

George Barris morreu no dia 6 de novembro de 2015, mas seu legado continua vivo. Tanto que o Batmóvel original criado por ele foi vendido no ano passado em um leilão da Barrett Jackson, arrecadando nada menos que US$ 4,62 milhões, ou por volta de R$ 15 milhões em conversão direta. Então qual é a deste outro Batmóvel à venda?

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Primeiro: sim, trata-se de uma réplica. Mas não é uma réplica qualquer: ela foi feita em 1966 com base em um Ford Thunderbird, e ficou tão boa que o próprio George Barris decidiu comprá-la. É o mais perto que se pode chegar de um Batmóvel original — e por uma fração do preço.

Aconteceu em 1966. Um cara chamado Jim Sermersheim foi quem construiu o Batmóvel. Ele era joalheiro mas, nas horas vagas, modificava carros. E usando apenas fotos de revistas e imagens da TV como referência, ele criou uma réplica perfeita do Batmóvel usando um Ford Thunderbird 1958 — que, não por acaso, foi um dos carros que tiveram seu design influenciado pelo Lincoln Futura. Saca só:

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Demorou nove meses para que o carro, que usava um motor V8 289 (4,7 litros), fosse completamente transformado em um Batmóvel. Apesar das proporções um pouco diferentes, pois o Thunderbird era menor que o Lincoln Futura, a reprodução ficou surpreendentemente fiel e bem acabada — se você não for um fã ardoroso da série clássica do Batman, é provável que a réplica se passe por um original. Todos os detalhes do original estão lá: a turbina no escapamento, as enormes barbatanas, os faróis e lanternas ocultos por grades e todos os gadgets (devidamente etiquetados) usados pela Dupla Dinâmica. E tudo funciona. Fica até difícil acreditar que este trabalho todo levou apenas nove meses.

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O caso é que Jim Sermersheim queria usar o carro como atração em feiras livres, que eram muito comuns na época, e não cobraria nada. Em sua estreia, Jim soltava foguetes da traseira do carro a cada meia hora para chamar a atenção dos presentes na feira. Deu certo. O Batmóvel fez sucesso e, a partir dali, foi levado para outros eventos na região.

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Não demorou muito para que aquela réplica chamasse a atenção de gente importante. Em um evento realizado em Toledo, Ohio, alguns representantes de uma editora chamada National Comics tirou fotos da réplica. Para quem não sabe, a National Comics passaria a se chamar DC Comics em 1977 — e (isto todo mundo sabe), foi a DC Comics quem criou o Homem-Morcego. As coisas começaram a se conectar, não é?

Um mês depois do evento, Sermersheim recebeu uma carta de George Barris — na verdade, uma intimação, pois o criador do Batmóvel original não estava nada feliz em saber que alguém estava ficando famoso com uma réplica não autorizada. No entanto, a carta oferecia também uma solução alternativa para o problema: se Barris conseguisse comprar o carro, tudo ficaria bem e ele esqueceria o assunto.

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Sermersheim, no entanto, não estava a fim de abrir mão de seu Batmóvel. Barris, em vez de insistir, fez outra proposta: ele tornaria Sermersheim seu “representante oficial”. Na prática, o carro viajaria pelos EUA para promover o seriado, e tudo o que que ele ganhasse com o Batmóvel seria repartido entre Sermersheim, George Barris e a National Comics.

Trato feito. A National Comics até construiu um trailer especial para transportar o Batmóvel, que tinha paredes escamoteáveis e escadas para que as pessoas se aproximassem, e o carro viajou pelos Estados Unidos por dois anos. Então, em 1968, o seriado foi cancelado e ninguém mais se importava com o Batmóvel. Sermersheim, então, decidiu finalmente vender ao carro — e, segundo ele, quem comprou foi a National Comics, e não George Barris. O criador do Batmóvel original costumava dizer que, na verdade, ele mandou confiscar o carro de Sermersheim mas, segundo o próprio, isto não é verdade. Mas, de fato, aquela foi a última vez que ele viu sua réplica.

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Como o carro foi, então, parar nas mãos de George Barris?

O caso é que Barris já havia construído quatro exemplares do Batmóvel (o original, de metal, e mais três de fibra de vidro) para serem usados nas filmagens e, segundo consta, precisava de mais um. No entanto, como não tinha tempo para construir outro carro, acabou comprando a réplica. Por isso, o carro é conhecido oficialmente como o Batmóvel nº 5.

Alguns anos depois, o carro foi vendido a um cara chamado Bob Butts por US$ 25 mil. Butts, por sua vez, gastou centenas de horas e cerca de US$ 50 mil para restaurar o Batmóvel, antes de vendê-lo em 1989 para a esposa de um homem chamado Scott Chinery, que deu o carro de presente ao marido em seu aniversário. O homem morreu mas, até pouco tempo atrás, ainda pertencia à Sra. Chinery, que o utilizava em eventos de caridade na região de Nova Jersey.

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Agora, o carro está nas mãos da LBI Limited, uma concessionária de luxo em Filadélfia, na Pensilvânia. O valor pedido é de US$ 500 mil, ou cerca de R$ 1,6 milhão — como dissemos, uma fração do preço do Batmóvel original. E, se formos pensar bem, com uma história tão interessante quanto a dele.

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