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Este cara rodou 1.160.000 km com seu Porsche 911 Turbo comprado zero-quilômetro em 1976

Se você fosse comprar um carro para ter a vida inteira e rodar com ele até, literalmente, não poder mais, qual seria? Talvez o canadense Bill MacEachern, de 80 anos de idade, ainda não soubesse disto em maio de 1976 mas, em seu caso, foi o Porsche 911 Turbo 930 que ele havia acabado retirar na concessionária. Hoje, o carro marca cerca de 725.000 milhas, ou mais de 1.150.000 km no odômetro. E o número continua subindo.

Quando Bill encomendou seu 911 Turbo no fim de 1975, aos trinta-e-poucos anos de idade, o dono da concessionária em Concord, Ontario, disse que ele estava ficando louco.

A Porsche havia lançado o 930 naquele ano para homologar o Porsche 934 nas corridas de longa duração, e os turbos ainda não haviam sido usados em um 911 de rua – era uma tecnolgia nova, experimental e que podia dar muitos problemas. Ele recomendou um Porsche 911 Carrera S, mais dócil e naturalmente aspirado. No entanto, Bill lia a respeito dos avanços da Porsche com a sobrealimentação desde o fim dos aos 1960, ainda restrita às pistas de corrida, e a ideia de uma tecnologia que pudesse tornar o motor mais potente sem aumentar o deslocamento (e o consumo de combustível naqueles tempos de crise do petróleo) muito lhe apetecia.

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O carro pintado na cor Midnight Blue foi o primeiro 930 a ser vendido no Canadá, e o de nº 350 da leva inicial de 400 unidades para homologação da versão de pista. Com isto, ele acabou se tornando uma “cobaia” para os turbos, de certa forma. A Porsche o convidou para ser uma espécie de beta tester, e sua experiência com o motor turbinado ajudaria a fabricante a identificar possíveis problemas que não haviam sido identificado nos testes preliminares.

Como resultado, nos primeiros milhares de quilômetros, ele ganhou serviços de manutenção grátis, como a troca dos cabeçotes aos 32.000 km, para que a Porsche pudesse analisar os efeitos da sobrealimentação nos cabeçotes que vieram com o carro; um novo turbo aos 40.000 km (e depois novamente aos 100.000 km, pois os turbocompressores foram ficando melhores e mais duráveis), e o motor refeito aos 80.000 km. Depois de um tempo, os serviços começaram a ser pagos por ele mesmo – o motor já foi todo refeito outras três vezes.

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Bill já passou a maior parte de sua vida com o carro, que testemunhou todas as grandes mudanças eu sua vida: quando o 911 tinha 4.300 km, Bill casou-se com a namorada Lyse. Aos 6.200 km, ele fez sua primeira grande viagem, 400 km de Ontario a Quebec, para assistir a uma corrida da Trans-Am.

Acompanhar as provas acabou se tornando um hábito e, ainda em 1977, ele levou seus filhos aos boxes do piloto canadense Ludwig Heim­rath e lhe perguntou se seria possível que ele e seus dois filhos o ajudassem com os carros. Ele deixou, fácil assim, e algumas semanas depois Bill lhe perguntou quanto custaria para patrocinar o Porsche 934 de Heimrath – que afinal, era a versão de competição de seu carro. Por US$ 2.000 (em dinheiro de hoje, US$ 8.000), o nome da MacEachen Deep Steam, companhia de limpeza de tapetes aberta por Bill em 1970, passou a estampar o carro de Heimrath.

Aqui, uma observação interessante: há alguns meses, postamos aqui um vídeo onboard impressionante com o piloto Leh Keen ao volante de um 934 de 600 cv, ultrapassando dezenas de outros carros em uma corrida histórica no circuito americano de Laguna Seca. Pois bem: aquele carro brutal era exatamente o carro que Bill patrocinou em 1977, e ainda conserva o nome da MacEachern Deep Steam no para-lama dianteiro esquerdo, olha só:

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Deve ser um orgulho e tanto para Bill até hoje. Sua companhia cresceu depois disto, e seu sucesso até garantiu que um de seus dois filhos seguisse carreira como piloto.

O Porsche 930 o acompanhou através de tudo isto, fosse no dia-a-dia, resolvendo questões relacionadas a seu negócio, fosse nos fins de semana, pegando a estrada para acompanhar corridas de automóveis até hoje, em circuitos como Watkins Glen, Willow Springs, Road America e Laguna Seca (é bem possível que ele estivesse lá quando o vídeo mais acima foi gravado).

 

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O carro só foi pintado pela primeira vez na década de 1990, quase vinte anos depois da compra, no mesmo tom de azul metálico, e as marcas já acumuladas na pintura desde então são ostentadas com orgulho. Por sorte, ter um Porsche 911 tão rodado lhe garante certos privilégios – Bill é relativamente conhecido na comunidade de fãs da Porsche americanos e, com isto, sempre tem garantidos serviços de manutenção e fornecimento de componentes. Quando sofreu seu primeiro acidente, em 2009 – um SUV atingiu o 930 ao lhe dar uma fechada –, foi questão de apenas algumas horas até que a oficina conseguisse consertar o para-lama, o eixo dianteiro e um dos braços da suspensão, todos danificados na colisão. O mecânico reconheceu o carro de Bill, e garantiu que ele não perdesse a corrida para onde estava indo. Àquela altura, o carro já tinha 850.000 km rodados.

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A marca de 1.000.000 de km veio em 2012: Bill levou seu carro para o Texas Mile, evento de velocidade em uma milha, e o odômetro virou 621.371 milhas durante uma de suas puxadas. Digno, para dizer o mínimo.

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Não foi à toa que Bill foi homenageado pela Porsche quando a empresa produziu seu 1.000.000º exemplar do 911, com uma sessão de fotos e sua história contada pelo próprio no vídeo abaixo, que celebra justamente a longevidade que o nine-eleven consegue alcançar se cuidado corretamente.

A história de Bill começa por volta dos 7:25

Bill diz que seu objetivo agora é alcançar 1.000.000 milhas, em seu Porsche 930, o que dá mais de 1.600.000 km. E temos certeza de que a dupla ainda tem muita estrada pela frente.

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E você aí preocupado porque seu carro tem mais de 100.000 km…

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