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Ferrari Roma testada: a melhor Ferrari GT até agora?

A Ferrari nasceu nas pistas, e só começou a criar carros de rua para financiar suas corridas – disto todo mundo sabe. No começo elas eram exatamente isto: por baixo de belas carrocerias e dos equipamentos obrigatórios para uso nas ruas, as Ferrari clássicas eram carros de competição. Tanto que muitas Ferrari de rua dos anos 1960 acabavam voltando às origens e disputando corridas com seus gentlemen drivers ao volante.

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É por isso que, para alguns fãs, as Ferrari de hoje em dia são justificadas em seu visual agressivo e seus motores absurdamente potentes (que a gente adora, aliás). Mesmo as Ferrari com motor dianteiro, que teoricamente têm uma pegada mais gran turismo – como a 812 Superfast e a recém-descontinuada GTC4 – têm um jeitão de inseto nervoso que os mais tradicionalistas não conseguem engolir. Além disso, elas são carros avançadíssimos, cheios de assistências eletrônicas e tecnologias como esterçamento das rodas traseiras, que não agradam quem gostaria de ver uma experiência mais “à moda antiga” em uma Ferrari.

Então, em novembro de 2019, foi apresentada a Ferrari Roma – em um evento online, como mandam os tempos modernos. Mas todos – incluindo a gente – ficaram surpresos com o carro em si. Uma Ferrari de linhas limpas e elegantes, equilibrando perfeitamente elementos marcantes e discrição. Um carro que passava uma imagem de GT muito mais forte que qualquer outra Ferrari recente. Até mesmo seu nome, uma homenagem à capital Romana e não uma sopa de números e letra dispostos de forma esquisita, transmitia uma mensagem diferente.

Agora, quase um ano depois, começam a ser publicados os primeiros reviews da Ferrari Roma – que garantem uma coisa: ela é diferente das outas Ferrari. Mas isto é uma coisa boa?

No que depender apenas do visual, a resposta é um sonoro “sim”. Não há outra Ferrari que tenha a mesma graça nas linhas. São sempre faróis afilados, com um olhar maléfico, uma enorme grade com um sorriso igualmente mal-intencionado, e uma multitude de recortes e vincos que, claro, têm função aerodinâmica, mas também maculam o perfil dos carros com tanta informação. O interior destes carros, da mesma forma, aposta em linhas arrojadas, com inspiração nas pistas, mas não exala muita sofisticação. São todos elementos muito característicos das Ferrari, e fazem parte do seu apelo. Mas a Roma é uma bem-vinda quebra neste padrão.

Os faróis são horizontais, ficam bem no bico do carro e são atravessados por um charmoso filete de LED. A grade é discreta, pintada na mesma cor da carroceria – o que quase dá à dianteira um ar retrô. Indo pelas laterais, nota-se as linhas sinuosas e robustas, o que em conjunto com a curvatura do teto dá a impressão de um carro mais compacto e baixo. E também notamos o capricho com que as saias laterais de fibra de carbono foram desenhadas, seguindo o contorno da carroceria logo acima. Por fim, temos a traseira, com as lanternas encaixadas na borda superior – uma solução bem mais criativa que as tradicionais lanternas redondas.

Por dentro, percebe-se a mesma abordagem. A arquitetura do cockpit, com um console central elevado separando motorista e carona, é pouco usual para uma Ferrari – lembra mais os superesportivos britânicos, de McLaren a Aston Martin. Aliás, toda a filosofia de design do carro, em especial sua silhueta, é muito mais Aston Martin – pense no atual Vantage como referência, mas feito pela Ferrari. Que, na verdade, inspirou-se em seus carros com motor dianteiro de antigamente – o perfil do carro, como bem aponta Jens Meiners, da Car and Driver, é totalmente 275 GTB/4, enquanto o formato à la Kamm da traseira remete à 412. E, de forma geral, o perfil da Roma traz algo da 365 GTB/4 Daytona.

Os jornalistas europeus e americanos concordam com a gente. Beleza e bom gosto são coisas subjetivas, claro, mas quando o desenho de um carro é unanimidade entre a imprensa e o público, ficamos tentados a dizer que a fabricante acertou.

Uma qualidade notável do desenho é a forma como a Ferrari conseguiu fazer com que a Roma não parecesse um modelo de entrada – sim, é isto que ela é, compartilhando o monobloco com a Portofino (sucessora da Ferrari Califórnia). Isto fica mais claro no entre-eixos de 2,67 m, exatamente igual em ambas, mas o restante do carro esconde muito bem a origem comum. A Ferrari afirma que a Roma tem 70% de componentes próprios – e basicamente é isto que eles admitem. Os detalhes são segredo.

Mas eles não precisam mesmo ficar se justificando. Porque, de acordo com as impressões gerais de quem acelerou a Ferrari Roma, ela tem personalidade própria e é bem melhor que a Portofino. E dá para perceber isso imediatamente, como afirma Matt Saunders, da Autocar.

 

“Uma vez que você sai com ela, e a qualquer velocidade, a Roma causa uma primeira impressão muito melhor que a Portofino ou sua antecessora, a California”. Ele prossegue: “Nas curvas mais rápidas, a Roma rola bem menos que a Portofino e passa a sensação de ser naturalmente muito mais ágil. As respostas do chassi são muito melhor ajustadas à direção rápida, em outras palavras. E como resultado sua dinâmica parece muito mais natural, harmoniosa e afiada.”

Há bons motivos para isto: a Ferrari fez diversos ajustes ao conjunto mecânico e ao chassi. O motor V8 é basicamente o mesmo, com 3,9 litros e dois turbos, mas graças a novos comandos de válvulas e uma reprogramação na ECU, entrega 620 cv entre 5.750 e 7.500 rpm – uma vantagem de 20 cv sobre a Portofino, com os mesmos e 77,6 kgfm de torque. O câmbio de dupla embreagem, derivado da SF90 Stradale, tem oito marchas em vez das sete marchas encontradas na Portofino, tem trocas mais rápidas e seu escalonamento aproveita melhor a curva de potência.

A Ferrari diz que a Roma tem exatamente a mesma suspensão que a Portofino, porém com molas 10% mais macias na traseira. Mas ela também tem bitolas mais largas, e isto ajuda a reduzir a rolagem da carroceria e também contribui para fazer com que o carro mude de direção mais rápido nas curvas.

Ela também é o primeiro GT da Ferrari a contar com o modo Race – que a Portofino não tem. Ele torna as respostas do acelerador ainda mais rápidas, deixa a suspensão (que pode, opcionalmente, ter amortecedores magnéticos) mais firme e também liga o chamado “Ferrari Dynamic Enhancer”, que utiliza os freios individualmente para atuar como um controle de estabilidade – fazendo com que o comportamento do carro fique mais previsível caso se perca a traseira em uma curva mais animada.

Contudo, não se trata de uma mudança drástica, como alerta Angus MacKenzie, da Motor Trend:

“Não há nenhuma transformação de Jekyll-e-Hyde quando você coloca o manettino no modo Race: o comportamento e a postura perfeitos para estradas cheias de curvas da Roma é parte fundamental da receita. O V8 debaixo do capô pode até ser turbo, mas responde aos comandos do acelerador com a precisão de um aspirado, atirando-se sem esforço algum até sua redline de 7.500 rpm. É maravilhosamente suave e dócil abaixo das 2.000 rpm e totalmente épico das 5.000 rpm para cima, mas a transição entre os dois estados é soberbamente linear.”

E este é um aspecto importante da Roma – sua versatilidade. O visual e o interior pendem bastante para o lado dos GT, mas o acerto geral do carro e seu desempenho possuem uma amplitude maior. É o tipo de Ferrari que você pode até levar para a pista, mas o caminho até o autódromo pode ser tão divertido quanto – e quanto mais longe, melhor. O foco no conforto em longas distâncias e na usabilidade foi maior que nas outras Ferrari, e isto fica evidente em cada detalhe do interior. Chris Chilton, da Road and Track, resume bem esta dupla personalidade:

“A Ferrari não sugere que este carro seja um equivalente dinâmico à F8 Tributo. Mas, acelerando por estradas emolduradas por quilômetros e quilômetros de vinícolas ao sul de Turim, a Roma não nos parece uma opção muito suave.

Não, ela não vai mudar de direção com a mesma energia das Ferrari de motor central-traseiro, e você certamenete vai de colocar o manettino no modo Sport ou Race para algo próximo do comportamento que se espera de uma Ferrari. Mas os freios são igualmente firmes e o mesmo pedal curto da SF90, e com o motor espremido contra a parede corta-fogo, o equilíbrio de massas é excelente.

A Roma é feita para relaxar e empolgar, para aguentar bem qualquer tipo de condução, e qualquer situação, numa boa. Ela é confortável, tem cruise control adaptativo opcional, e tem dois pequenos bancos traseiros que podem não ser muito bons para sentar, mas ajudam a melhorar a já generosa capacidade de carga.

Se na sua cabeça isto não soa muito como uma Ferrari, talvez seja esta mesma a ideia. Mas a Ferrari espera que soe exatamente como o tipo de carro que vai atrair clientes que jamais haviam considerado uma.”

Este é possivelmente o ponto-chave da Ferrari Roma – atrair novos clientes. E, para isto, a Ferrari fez um carro diferente de qualquer outro modelo em sua linha.

É claro que a Roma não é um carro perfeito mas, felizmente, seus defeitos estão nos detalhes e não interferem na tocada. Uma reclamação em comum foi a troca dos comandos físicos por botões na tela sensível ao toque do console central – não é algo exatamente intuitivo. Como o Top Gear observa:

“Não há nada de errado com o mostrador principal, uma tela HD de 16 polegadas personalizável, pela qual você navega usando um touchpad no raio direito do volante. No raio esquerdo estão os comandos do cruise control. Enquanto isso, as setas, retrovisores e o manettino ficam no volante, como tem sido em todas as Ferrari dos últimos 15 anos, mas ainda assim parece um pouco errado.

As áreas realmente problemáticas são o botão start/stop escondido no volante, o touchpad para ajustar os retrovisores, e o botão que abre a porta. Eu preferia interagir com um pedaço de metal de verdade ou um botão físico nessas coisas, por favor. E, já que estamos falando disso, será que dá para colocar controles manuais para o volume e para o ar-condicionado? Ambos ficam no domínio da tela de 8,4 polegadas do console central, o que significa que você vai ficar colocando os dedos ali várias vezes, e quase sempre à toa.”

É claro que, se não tivesse defeitos, a Roma não seria um carro italiano. Mas, brincadeiras à parte, esta nova forma de fazer Ferrari pode dar resultado. Parece que a Ferrari está percebendo que não pode se apoiar só nos fãs mais ferrenhos para sempre – aqueles que fazem questão de colocar o escudo amarelo do cavalinho rampante nos para-lamas. Este, para quem não sabe, é um item opcional que quase sempre é instalado nos carros, e não de série. Mas a Ferrari diz que, segundo seus cálculos, cerca de 20% dos compradores da Roma vão abrir mão deles. Para uma marca que, assim como seus fãs, dá tanto valor à sua própria identidade, isto diz muita coisa.

Na visão de Matt Saunders, da Autocar, a Roma tem chances até mesmo de explorar um público inédito.

“Dá para sentir claramente que a Ferrari V8 moderna está finalmente atingindo seu potencial com a Roma, tanto esteticamente quanto dinamicamente. Incluindo o potencial de invadir o território dos Porsche 911 mais caros, Audi, Aston Martin e Mercedes-AMG, sendo pela primeira vez uma ameaça de verdade.”

 

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