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Project Cars Project Cars #425

Ford Focus Wagon Mk1: a história do Project Cars #425

E aí, guris e gurias do Flatout! Tudo certo? Primeiramente gostaria de agradecer a oportunidade de estar aqui contanto um pouco da minha história com essa carro incrível que tem me trazido muito conhecimento, satisfação e alegria.

Desde criança sempre gostei de entender como as coisas funcionavam por dentro. Acredito que todo gearhead tenha um lado “destruidor” de brinquedos dentro de si e eu era bem assim. No início eu desmontava carrinhos de controle remoto, depois passei a desmontar computadores e hoje estou aqui desmontando carros de verdade.

A história do Focus começa em 2015, quando ganhei uma viagem com acompanhante para Las Vegas paga pelos postos Ipiranga. A partir dessa viagem passei a ter outra percepção com relação a morar fora do país. O que não era um sonho antes, passou a ser depois de ver pessoas mais educadas e tolerantes no trânsito, ou então boas estradas com limites de velocidade razoáveis, o clima agradável ou então o que senti quando estava em um engarrafamento com uma Ferrari 458 Itália ao meu lado, que por motivos óbvios foi o melhor engarrafamento da minha vida.

 

Depois desse mudança de perspectiva que tive, resolvi passar a fazer viagens mais frequentes dentro do Brasil em busca de saciar a minha sede por aventura. Todo o sábado pela manhã eu apenas saía com minha esposa para qualquer lugar incrível buscando mais uma memória inesquecível. As viagens poderiam durar um ou dois dias, mas sempre seriam viagens inesquecíveis. E realmente foram.

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Uno Way 1.0 2010 Completo

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Uma de nossas várias visitas à Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Mas percebemos que, mesmo em aventuras, ainda estávamos presos à rotina e ao conforto. Esse sentimento não durou muito pois nos dias seguintes decidimos rebootar nossa história por completo, mas de um modo mais hardcore, mudando de país, carreira, carro, casa, amigos e abrindo mão da vida financeiramente confortável que possuíamos rumando para o completo desconhecido.

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Embarcando no Salgado Filho, rumando a um futuro desconhecido.

Já fazem 8 meses desde que saímos do Brasil. Trabalhamos com limpeza de casas por conta própria, sem chefes, sem prazos e sem estresses. Sempre digo à minha esposa que viver como estou vivendo agora, um dia de cada vez, é como tirar férias da minha antiga vida.

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Eu e minha esposa visitando a borda sul do Grand Canyon durante uma viagem de dois dias por Utah, Nevada e Arizona

O Focus surgiu em um momento onde precisávamos economizar dinheiro pois não chegamos nos Estados Unidos com mais do que para nos manter durante o primeiro mês. Por esse motivo era necessário que o carro tivesse apenas problemas reparáveis por mim, um apaixonado por carros, mas estúpido o bastante para não saber como trocar uma bateria até então.

Logo na primeira volta gostei de como o carro se comportava. A carroceria alongada e envidraçada proporcionava uma dinâmica de condução diferente da que havia experimentado até então com carros hatches e o motor Zetec 2.0 16v acoplado à transmissão automática me impressionava ao se mostrar cheio de fôlego reservado para divertidas aceleradas e velocidades finais impressionantes para um carro desse tamanho. A quantidade de acessórios também era de despertar o interesse. Controle de cruzeiro, ar-condicionado, espelhos elétricos, assim como vidros e travas, regulagem de altura nos bancos e no volante, ABS, Airbags, entre outras coisas mais.

Tenho que dizer que, apesar do estado do carro, ele se mostrou muito promissor como um Project Car que poderia ser reparado e utilizado diariamente, assim como para efetuar longas, confortáveis e divertidas viagens. O carro não queimava óleo e o escapamento não apresentava nem um tipo de fuligem, indicando que os sensores O2 estavam promovendo uma queima de combustível perfeita. Por ser um carro americano, mas também ter sido comercializado na América Latina e na Europa, materiais técnicos e tutoriais no Youtube não faltariam, mesmo que em inglês ou espanhol. O carro possuía uma extensa lista de problemas a ser resolvida, sendo alguns mais complicados que outros, mas todos requeriam paciência, pesquisa e talvez ferramentas para serem solucionados.

Luz de anomalia na injeção ligada, transmissão automática deslizando depois de quente, vazamentos de líquido de arrefecimento em diversos pontos desconhecidos, vazamento de óleo pela tampa de válvulas e por baixo do motor proveniente de algum ponto desconhecido também, ar-condicionado não gelava, o carro trepidava perigosamente depois de 120 km/h, faróis completamente foscos e deteriorados, terminais oxidados em uma bateria com mais de 5 anos e o interior ainda precisava de um trato pois possuía algumas manchas leves, mas que me incomodavam, assim como diversas peças de acabamento faltando ou quebradas.

Apesar dos problemas, um dos fatores importantes para a decisão de compra do carro foi o detalhado histórico de manutenção, incluindo datas e notas fiscais desde que o carro foi comprado no Texas até o momento em que chegou aqui em Utah. Decidimos fechar a compra e levar o carro pra casa no mesmo dia pagando apenas $900, à vista.

Quando você compra um carro usado é necessário fazer o teste de emissão e segurança dentro de 30 dias, comprovando que aquele carro pode ser emplacado para rodar nas ruas durante mais um ano. Esse processo deve ser feito em quase todos os veículos de acordo com essa tabela. É algo rápido e barato, mas pode não ser tão fácil para um carro de 16 anos.

Por esse motivo a prioridade eram resolver problemas aparentes nesse teste que, apesar de não requerer andar com o carro, verifica todos os sistemas eletrônicos e de emissão através do scanner. Problemas como a luz de injeção ligada, os contatos oxidados da bateria e os faróis foscos devido a ação do tempo sobre eles definitivamente fariam o carro ser reprovado.

Todas as autopeças daqui verificam gratuitamente a luz de anomalia da injeção e, no meu caso,  indicou um erro intermitente no Throttle Position Sensor (TPS), que aparecia e depois desaparecia esporadicamente. As duas maiores redes de autopeças no país possuem um sistema completamente integrado com todas as lojas, podendo inclusive consultar o estoque de outras lojas em busca de uma peça específica. Eu, que já não fazia a mínima ideia de onde estava me metendo, fiquei mais perdido ainda quando a pessoa que me atendia trouxe uma peça bem diferente da instalada no carro. Aquela peça se tratava do Camshaft Position Sensor que, por algum erro, estava catalogada no lugar do TPS para o Focus automático. O TPS do Focus manual fazia mais sentido pois parecia idêntico ao instalado no carro e, por esse motivo, resolvi tentar a instalação. Foi então que aprendi que peças visualmente iguais podem funcionar de forma bem diferente. Usando o guia de manutenção do Focus, alguns vídeos do Youtube e as minhas primeiras ferramentas resolvi trocar o TPS para o da transmissão manual. Eu nunca dirigi um carro tão errado em toda a minha vida! Decidi então apenas trocar a peça nova pela antiga, depois de limpar adequadamente a mesma.

O Throttle Position Sensor do automático e do manual são iguais, exceto pelo pequeno pino na superfície que apenas o sensor manual possui.

A luz da injeção não se apagou sozinha e então, quando fui devolver a peça, peguei o scanner e aprendi mais uma coisa. Sempre me disseram que scanners não apagavam erros, mas alguns deles não só apagam, como também são fáceis de operar. A luz se foi e não ouvi falar mais dela desde então. Acho que limpar o TPS realmente funcionou. Não gastei nada além de combustível para resolver o problema, e era isso que eu queria para qualquer problema que eu tivesse.

Essa luz de anomalia na injeção com certeza teria reprovado o carro no teste, mas os outros dois dependeriam de quem testaria.

A limpeza dos terminais da bateria seria suficiente mas, infelizmente, a bateria que já era velha passou dessa para uma melhor depois de uma descarga completa durante uma esquecida noite “bem iluminada”. Mesmo após a recarrega da bateria os instrumentos ficaram malucos durante a partida, e foi quando entendi que a bateria definitivamente deu um vazares dessa vida. Quando removi os terminais da bateria, metade de um dos bornes veio junto devido ao nível de deterioração do metal. Não custou barato, mas com certeza não precisaria me preocupar com isso novamente durante um bom tempo. Custando 95 dólares, comprei a bateria recomendada pelo fabricante para utilização em climas extremamente frios, como esse que tenho experimentado agora com temperaturas máximas que não passam de 0ºC.

Para o cansado e velho farol eu tinha em mente que existiam produtos abrasivos, prontos no mercado, para restaurar o plástico e passar por essa inspeção de segurança, mas o “bom” não era suficiente para mim. A ação do sol sobre os faróis é a mesma sobre o verniz no restante do carro, então o processo para uma restauração completa seria quase o mesmo para a restauração de uma pintura normal. O primeiro passo é molhar a peça e, se o problema desaparecer, haverá certeza que apenas o verniz deve ser reparado. Dessa forma bastou lixar o antigo verniz do farol e então pintar com uma nova camada de verniz, como feito nesse vídeo. Gastei algo por volta de $10 incluindo as lixas grit 300 e 1200 e o verniz incolor spray que cobrirá os faróis de agora em diante. O preço normal de um desses produtos abrasivo era de $8, então acho que os $2 e o empenho valeram a pena.

Com os três principais problemas que poderiam reprovar o Focus resolvidos era chegada a hora de levar o carro para a temida inspeção. Depois de alguns eternos minutos veio a infeliz notícia que o carro havia reprovado pois o scanner não teve sucesso lendo as informações do Exhaust Gas Recirculation (EGR). O inspetor me questionou se eu havia removido a bateria recentemente e disse que é necessário dirigir durante umas 50 milhas para que o módulo adquira dados suficientes para dizer se o sistema de EGR está funcionando corretamente ou não.

A ansiedade não me deixou esperar até o dia seguinte. Subi e desci o chamado Provo Canyon no mesmo dia para preencher as 50 milhas necessárias para o reteste.

Depois de mais alguns eternos minutos o inspetor entrou na sala de espera e gritou “touchdown!”. O carro finalmente foi aprovado.

Nem brinca! No dia seguinte eu já fui correndo no DMV para trocar a placa de papel fornecida pelo departamento de trânsito e colada no vidro traseiro do carro, por minha primeira placa definitiva americana.

Agora com o Focus devidamente registrado chegava a hora de relaxar e aproveitar o carro, certo? É obvio velho! Ainda possuíamos pendências entre nós, mas todo Project Car merece ser devidamente conduzido e apreciado quando possível. Essa história de aventura e aprendizado está apenas começando.

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No próximo post faremos uma visita ao junkyard e ainda falaremos sobre o reparo de outros problemas que não eram tão assustadores no início mas que poderiam facilmente ter transformado esse Project Car em um Project Nightmare.

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Por Daniel Rashid, Project Cars #425

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