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Golf, Fiesta, Civic e Corolla: quando os carros compactos invadiram os EUA nos anos 70

Claro, tivemos por aqui os nossos carros de base norte-americana – Galaxie, Maverick, Dodge Dart, dentre outros. Mas sempre tive a impressão de que o mercado automotivo brasileiro é muito mais parecido o que se via na Europa do que nos Estados Unidos. Talvez por uma questão cultural, talvez por uma questão geográfica – afinal, nossas ruas são estreitas e a topografia costuma ser acidentada, como no velho continente. Não temos tantas avenidas e ruas largas como nos EUA, quanto menos rodovias de sete ou oito faixas e retas até sumirem do horizonte…

Mas talvez o mais propício seja classificar o mercado brasileiro como “único” – além da mistura de carros importados tanto dos Estados Unidos quanto da Europa,  por dezesseis anos os carros importados foram proibidos por aqui, o que nos proporcionou uma boa seleção de carros feitos especialmente para o nosso País.

Olhando para o passado, temos carros como o Chevrolet Opala, o Ford Corcel, o Volkswagen Passat e o Fiat 147 que, na década de 1970, começaram a ser fabricados no Brasil. Todos eles usavam como base projetos europeus: o Opala era uma versão nacionalizada do Opel Rekord; o Corcel era um projeto desenvolvido em parceria com a Renault; Volkswagen Passat era praticamente idêntico ao modelo alemão e o Fiat 147 era baseado no 127 vendido na Itália.

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Esta tendência se manteve por décadas – Chevrolet Monza e Omega, Ford Escort, Volkswagen Santana, Fiat Uno… todos têm raízes europeias. O mesmo vale para projetos tidos como nacionais – como o VW Gol e o Fiat Palio, que foram desenvolvidos em grande parte pelos braços brasileiros de suas respectivas fabricantes, mas sempre utilizaram componentes e soluções de engenharia oriundos do Velho Continente.

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Havia exceções, claro: nos anos 60 e 70 a Ford vendeu no Brasil o Galaxie, full-size derivado do Fairlane norte-americano, e a Dodge marcou época com seus modelos baseados no Dart vendido nos EUA – sendo que o Dart era o modelo compacto da Dodge por lá. No geral, contudo, nosso mercado foi eurocêntrico por décadas.

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É preciso fazer um estudo mais profundo para entender as razões socioeconômicas e culturais para este fenômeno mas, se for para dar meus two cents, sua motivação tem a ver com as escolhas das próprias fabricantes, que por sua vez levavam em consideração fatores como o poder aquisitivo da população e a infraestrutura das ruas e estradas brasileiras, que simplesmente não comportaria uma frota de american metal. 

 

Produto tipo exportação – para o mundo todo

Seguindo com os termos em inglês, fast forward para os tempos atuais. Há alguns anos as fabricantes começaram a globalizar suas linhas, produzindo produtos que atendam diversos mercados espalhados pelo mundo, apenas com pequenas variações regionais para satisfazer os regulamentos de trânsito locais, condições de piso (os projetos para o Brasil quase sempre contam com suspensões mais altas e macias), preferências culturais (cores, tipos de forração) ou, cá entre nós, satisfazer a margem de lucro para mercados emergentes com pouca vivência com produtos sofisticados.

Uma forma de constatar isto rapidamente é nosso próprio mercado nos últimos anos. O Fiat 500, por exemplo, começou a ser importado para o Brasil em 2009, vindo da Polônia (onde a Fiat atua desde a década de 1970, fazendo do país no Leste Europeu um importante polo de produção).

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Em dezembro de 2010, porém, o Fiat 500 começou a ser fabricado no México – e, de lá, começou a abastecer o mercado norte-americano, onde a marca italiana já não vendia carros havia 26 anos. Fazia sentido, então, passar a trazer o Fiat 500 do México, o que tornou a versão vendida no Brasil igual à norte-americana, com para-choques mais volumosos, mais alto na suspensão e, dizem alguns, menos esmero em termos de construção, acabamento e qualidade dos materiais.

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Também podemos observar este fenômeno na trajetória de outros modelos de sucesso no Brasil, como o VW Golf e agora, o Jetta – que foi além e, em sua sétima geração, passou a ser desenvolvido especificamente para o mercado norte-americano, ficando maior, mais espaçoso e mais confortável. No fim das contas, nos EUA ainda se compra carros por metro, mesmo que a presença de compactos desenvolvidos na Europa tenha aumentado bastante por lá nos últimos dez anos.

Mas não é a primeira vez que isto acontece, porém. E foi disso que vim falar hoje, afinal de contas: da primeira invasão dos compactos aos Estados Unidos. Que, além da Europa, também vinham do Japão.

 

A grande invasão dos pequenos

Aconteceu em meados da década de 1970 que, como foi observado recentemente aqui no FlatOut, geralmente não é considerado o período mais empolgante para os entusiastas automotivos dos EUA. O aumento no preço dos combustíveis e das apólices de seguro podem ser considerados os grandes culpados. As disputas no quarto-de-milha e no dinamômetro deram lugar à briga por eficiência energética, pois os combustíveis custavam caro e as agências de proteção ambiental ficavam cada vez mais rigorosas nos limites de emissões, fechando o cerco contra as polegadas cúbicas.

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A Chevrolet foi uma das únicas que “teimou” em apresentar o V8 como opção em todas as gerações do Camaro, desde 1967. Contudo, os anos 80 foram uma época de baixa potência específica…

Colocando de forma simplista, as pessoas começaram a trocar suas banheiras fabricadas em Detroit por carros menores, mais leves, mais econômicos e mais baratos. Carros que cumpriam as mesmas tarefas, mas eram mais fáceis de guiar e estacionar, custavam menos e, mais importante, bebiam menos.

Como em That 70’s Show, série de comédia exibida originalmente entre 1998 e 2006. Na primeira temporada, Red Forman trocou seu Oldsmobile Vista Cruiser 1969 – que, apropriadamente, era um dos maiores carros à venda nos EUA – por um Toyota Corolla 1976 novinho em folha (ainda que, no fim das contas, ele acabe dando o carro a seu filho, Eric, com a condição de que ele pague por sua própria gasolina).

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É importante, porém, citar outro fator que contribuiu para a ascensão dos carros compactos nos Estados Unidos: o Volkswagen, que começou a ser vendido nos EUA no início da década de 1950 e abriu a mente do norte-americano. A partir de 1959, uma agressiva (e lendária) campanha de marketing da VW nos Estados Unidos conseguiu estabelecer o Beetle como uma alternativa racional, econômica e até mesmo charmosa aos carrões americanos. Tanto que muitos carros “compactos” desenvolvidos nos EUA depois disto tinha como parte do briefing combater o Volkswagen. No contexto da época, porém, tais modelos – como o Ford Pinto, o Chevrolet Chevette (que era um pouco diferente do “nosso” Chevrolet Chevette) e o AMC Pacer não eram tão compactos, espaçosos e eficientes quanto os importados para os quais o Beetle abriu as portas.

A seguir, listamos alguns dos carros compactos que “invadiram” o mercado norte-americano nos anos 70 com motores de quatro cilindros, construção monobloco, carroceria compacta e, em alguns casos, até mesmo uma boa dose de carisma – mesmo que os mais tradicionalistas mostrassem resistência à chegada dos carros japoneses. Foi ali que tudo mudou.

 

Honda Civic

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A primeira geração do Honda Civic foi lançada em 1972 e foi vendida até 1979, e foi um dos primeiros carros da marca a deixar de lado as normas dos kei cars japoneses, que restringiam as dimensões físicas e o deslocamento do motor dos carros. Ainda assim ele foi um dos menores automóveis vendidos nos EUA na época, começando em 1973: tinha apenas 3.551 mm de comprimento e 2.200 mm de entre-eixos, sendo capaz de acomodar quatro adultos e alguma bagagem. O motor era um quatro-cilindros em linha que, em sua versão mais potente, tinha 1,4 litro e 60 cv.

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O sucesso do Civic foi imediato e em questão de quatro anos, de 1973 a 1976, o número de concessionárias Honda nos Estados Unidos saltou de 32 para 630. O Civic abriu caminho para a versão hatchback do Accord, que se tornaria outro campeão de vendas no futuro – entre 1990 e 1992, nenhum carro vendeu mais que o Accord nos EUA.

No geral, o Honda Civic foi o grande responsável pela expansão da Honda no mercado norte-americano, a ponto de motivar uma incursão no segmento dos carros de luxo com uma submarca dedicada exclusivamente ao mercado norte-americano – a Acura, que foi inaugurada em 1986. Toda uma infraestrutura de concessionárias foi construída, com um investimento inicial de US$ 3 milhões em cada uma delas. Modelos de nicho, como o Honda Integra e o lendário NSX, foram comercializados nos EUA sob a marca Acura.

 

Toyota Corolla

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O Toyota Corolla fez sua estreia no mercado norte-americano em 1968, com construção monobloco, motor quatro-cilindros de 1,1 litro e 60 cv, entre eixos de 2,28 metros e suspensão McPherson na dianteira, com eixo rígido e feixe de molas semi-elípticas atrás. Era um carro pequeno e de qualidade indiscutível, ainda que na época os menos entusiasmados com ele diziam que era por falta de componentes para quebrar. O Corolla de 1968, com carroceria sedã de quatro portas, perua de duas portas e cupê de duas portas, era um carro pequeno, mas deixou claro que os japoneses prezavam pela qualidade.

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Dito isto, foi em 1970 que o Toyota Corolla se tornou um carro “completo”, no sentido em que não lhe faltava nada para substituir um carro norte-americano na garagem de uma família: com um entre-eixos quase cinco centímetros maior e motor de 1,2 litro e 73 cv, ele era um carro muito mais confortável e prático de se usar no dia-a-dia. A evolução na terceira geração, vendida entre 1975 e 1979, incluiu a oferta por uma caixa automática de três marchas e a estreia da carroceria sedã de quatro portas.

Da mesma forma que o Civic fez com a Honda, o Toyota Corolla foi o carro que consolidou a fabricante japonesa nos EUA, ainda que em um ritmo mais lento – o Toyota Camry, modelo maior e mais refinado, começou a ser vendido em 1983, abrindo caminho para a construção de uma fábrica nos EUA em 1988 e à chegada da Lexus, divisão de luxo, no ano seguinte.

 

Datsun 510

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O Datsun 510 era a versão internacional do Nissan Bluebird de terceira geração, lançado em 1967. E ele sem dúvida é um dos carros que mais agradaram aos entusiastas não apenas nos EUA, mas em todos os mercados onde foi oferecido, como Reino Unido e Austrália.

O Datsun 510 foi considerado, na época do lançamento, uma alternativa de baixo custo a um BMW. Com razão: boa parte de sua receita foi inspirada diretamente pelo BMW 2002: um carro de três volumes com linhas limpas e bem resolvidas, comando de válvulas no cabeçote, suspensão independente do tipo McPherson e braços semi-arrastados atrás e, claro, tração traseira e câmbio manual de quatro marchas (um automático de três era opcional).

A versão norte-americana tinha um motor de 1,6 litro com carburador Hitachi e 96 cv, velocidade máxima declarada em 160 km/h. Sendo um carro leve, bem acertado e divertido, o Datsun 510 logo se tornou um favorito entre os project cars, reputação que carrega até hoje.

 

Volkswagen Dasher e Rabbit

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É bem sabido que o Volkswagen Passat foi o primeiro modelo da marca vendido no Brasil com motor e tração na dianteira, e o primeiro com um sistema de arrefecimento líquido. O mesmo aconteceu nos EUA, incluindo o ano de lançamento – 1974 –, exceto que o Passat norte-americano se chamava Volkswagen Dasher e tinha os para-choques de impacto, que deveriam evitar qualquer dano à carroceria em colisões até 8 km/h. O único motor disponível era o quatro-cilindros de 1,5 litro com comando duplo no cabeçote, carburador e 75 cv.

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O Golf chegou no ano seguinte, e também ganhou um novo nome: Rabbit. Além dos para-choques de impacto, ele diferia do desenho original pelos faróis quadrados que eram usados em algumas versões. O Golf era importado da Alemanha em seus primeiros anos, até que em 1978 começou a ser fabricado no estado da Pensilvânia.

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O Volkswagen Rabbit foi notável nos EUA não apenas pelo bom desempenho nas vendas, mas também por dar origem a uma versão de carroceria exclusiva: a picape Caddy, que também começou a ser fabricada em 1978. Era o mesmo conceito da nossa Saveiro.

 

Ford Fiesta

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Algo que nem todo mundo lembra é que o Ford Fiesta de primeira geração foi vendido nos Estados Unidos entre 1978 e 1980. O carro era fabricado em Köln, na Alemanha, e era equipado exclusivamente com um motor quatro-cilindros de 1,6 litro e 90 cv. Embora tenha sido um sucesso na Europa, porém, nos Estados Unidos o Fiesta de primeira geração foi vendido por apenas três anos.

Assim como o VW Golf/Rabbit, ele recebeu os para-choques de impacto, faróis do tipo sealed beam e reforços contra impactos na estrutura. Além disso, apenas nos Estados Unidos era oferecido ar-condicionado como opcional.

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Em 1981 o Ford Fiesta foi substituído nos Estados Unidos pelo Ford Escort, que apesar de compartilhar certos elementos estruturais com o modelo europeu (que estava em sua terceira geração), com motor quatro-cilindros transversal e tração dianteira, trazia todos os painéis da carroceria distintos.

 

Renault 5 – AMC “Le Car”

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O Renault 5 foi um dos maiores sucessos da marca francesa na Europa, tornando-se inclusive um ícone dos ralis com sua versão Turbo, de motor central-traseiro, que correu no Campeonato Mundial de Rali. Nos EUA ele foi a carta que a “alternativa” AMC tirou da manga para brigar não apenas com as três grandes de Detroit no segmento dos carros pequenos, mas também contra as opções importadas.

O nome “Le Car” tinha certo fator cômico – imagine vender um modelo norte-americano no Brasil como “The Carro”! – mas a AMC apostava na economia de combustível e na boa fama na Europa para atrair clientela.

Lançado em 1976, o AMC Le Car não conquistou o público de imediato, mas suas qualidades foram notadas pela imprensa especializada, que o chamava de “Rabbit francês”: um carro prático que exalava personalidade para compensar a falta de estilo. Além disso, seu motor de 1,4 litro e 55 cv era muito suave e econômico, sendo capaz de rodar até 14,8 km com um litro de combustível.

Embora seus números de venda fossem sólidos, motivando até mesmo a importação da versão com carroceria de quatro portas, o Renault Le Car deixou de ser oferecido nos EUA em 1983.

 

Chevrolet Chevette

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O Chevrolet foi o primeiro carro global da General Motors, desenvolvido principalmente pelo time da Opel na Alemanha, porém com nome, visual e versões diferentes de acordo com cada um dos mercados. A versão norte-americana, que foi lançada nos EUA em 1975 (dois anos depois do Chevette brasileiro, diga-se), foi vendida nos EUA apenas como hatchback, de duas ou quatro portas, e era equipado com motores de quatro cilindros a gasolina de 1,4 e 1,6 litro semelhantes aos usados por aqui, e também um motor a diesel de 1,8 litro.

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Embora hoje em dia o Chevette não seja um carro cultuado nos Estados Unidos como é por aqui, e apesar das críticas iniciais à simplicidade do projeto, a verdade é que o Chevrolet foi bem sucedido no que se propunha a fazer e acabou sendo o modelo de entrada da Chevrolet por doze anos, saindo de linha apenas em 1987 com 2,8 milhões de unidades vendidas. Em 1979 e 1980 ele foi o carro compacto mais vendido dos EUA.