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História

A história de AVUS, o esquecido circuito alemão que já foi o mais rápido do planeta


Gente boa do Flatout, muito prazer! Meu nome é Jonas Seelig e esta é a primeira vez que elaboro um artigo. Aproveito para agradecer à equipe pela oportunidade. Bem como muitos de vocês acesso o FlatOut diariamente para me abastecer com informações e sempre sentia a necessidade de retribuir contribuindo — o que não é nada fácil, avaliando a qualidade e quantidade do material aqui disposto. Dias atrás, quando viajava pela Alemanha, percebi que o momento estava chegando quando visitei um lugar muito especial e um tanto esquecido: AVUS.

Alguém ainda lembra de AVUS das corridas do DTM nos anos 80 e 90, dos modelos de rodas VW/Audi ou da cor Avusblau de alguns BMW de outrora? Mas há muito mais que isto!

AVUS, sigla de Automobil Verkehrs und Übungs Straße (estrada para testes e tráfego de carros, em tradução livre), foi uma das principais pistas de corridas da Alemanha, junto com Nürburgring e Hockenheim – estas, ainda em atividade. Está situada na parte sudoeste de Berlim, não muito longe do centro. Pista de corrida com traçado bastante incomum e riquíssima história, suas imensas retas e curvas altamente inclinadas (a volta chegou a ter 19,5 KM de extensão!) receberam as “flechas de prata” nos Grandes Prêmios do passado, foi também a primeira Autobahn, e ainda serviu como ligação entre Berlim Ocidental e a Alemanha Ocidental, durante a Guerra Fria.

 

O início – concepção, construção, primeiros eventos

No início do século XX, o AvD (Automobilclub von Deutschland – clube do automóvel alemão) idealizou um circuito de uso geral para a prática do automobilismo e desenvolvimento da indústria automobilística. Após alguns anos levantando recursos, em 1913 iniciaram-se as obras. Logo após, em 1914, o início da Primeira Guerra Mundial causou a suspensão das obras até o fim do conflito em 1918, mas a falta de recursos impediu a finalização da pista.

Por volta de 1920, Hugo Stinnes, político e empreendedor, resolveu investir no projeto, e com este impulso as coisas evoluíram muito bem. Tanto que, no dia 24 de Setembro de 1921, a pista foi inaugurada com um grande evento que envolveu uma corrida e o primeiro IAA do pós-guerra. Não sabe o que é IAA? É o Internationale Automobil-Ausstellung (Exibição Internacional de Carros), mais conhecido fora da Alemanha como Salão de Frankfurt – que naquele ano ocorreu em Berlim.

Sua outra face era mostrada logo após a corrida de inauguração: o uso como auto estrada. De fato, AVUS é também a primeira auto estrada da Europa — ou autobahn na terminologia alemã. As duas retas com cerca de nove quilômetros faziam parte do caminho entre Berlim e Potsdam em dias regulares. Quando AVUS era requisitada como autódromo as longas retas eram unidas por duas curvas inclinadas (inicialmente, em cinco graus), com raio longo. Esta configuração próxima ao de uma estrada comum, mas bastante incomum para uma pista, caracteriza AVUS como uma das mais estranhas e mais rápidas já construída.

Großer Preis von Deutschland, Avus, Berlin

Nos anos que se seguiram, AVUS recebeu eventos automobilísticos e também corridas de motocicletas. Em 1926, o AvD promoveu em AVUS o primeiro Grande Prêmio da Alemanha (o AvD continua a promover o GP da Alemanha até hoje, como parte da Fórmula 1), saindo vitorioso o lendário piloto Rudolf Caracciola a bordo de um Mercedes Benz. A pista mostrou-se muito perigosa, e o evento foi marcado pela tragédia: ocorreram dois acidentes com fatalidades, num total de quatro mortes. Devido a isto, nos anos seguintes, a prova seria disputada no novo e muito mais seguro circuito de Nürburgring Gesamtstrecke (a combinação de Nordschleife e Südschleife, sobre o qual falamos neste post).

 

As flechas de prata na parede da morte

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Nos anos que se seguiram — entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930 —, a pista continuou a receber diversas provas. Conforme a velocidade dos veículos aumentava dramaticamente com os desenvolvimentos tecnológicos, a periculosidade crescia de modo proporcional. Visando tornar AVUS mais segura e a mais rápida pista do mundo (e tomar de Nürburgring o GP da Alemanha), em 1936 ela recebeu reformas durantes as quais ficaram suspensos os esportes a motor.

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Mas não os demais esportes: durante as Olimpíadas de 1936, AVUS sediou os eventos de ciclismo, a maratona e a marcha atlética. O ponto alto da reforma foi a curva norte, que recebeu uma pavimentação de tijolos extraordinariamente inclinada, com 43,6 graus. A título de curiosidade, a pista de Indianápolis possui “apenas” nove graus de inclinação nas curvas.

avus1936

Logo, a Nordkurve recebeu o apelido de “parede da morte”, pois além das altíssimas velocidades que os carros atingiam nela, não havia nenhum tipo de barreira de retenção no topo – se algo errado acontecesse, o veículo literalmente saía voando da pista. Além disso, a pista recebeu novas arquibancadas e torre de comando.

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Naquela época, os ânimos estavam exaltados pelo mundo, e as nações competiam obstinadamente entre si, sendo o automobilismo um dos “campos de batalha” mais importantes. Mercedes Benz e Auto Union, estimuladas pelos anseios patrióticos, rivalizavam construindo os mais velozes carros da época, que ficaram conhecidos como “flechas de prata” (leia mais sobre elas em nossa série especial).

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Em 1937, o Mercedes Benz guiado por Hermann Lang (W25K Stromlinienrennwagen AVUS) estabeleceu um recorde mundial, com velocidade média de corrida de 261,7 km/h, recorde décadas mais tarde quebrado em ovais, mas ainda persistente para um circuito misto. De fato, Lang quase se acidentou a estimados 390 km/h durante os treinos, quando testavam alterações aerodinâmicas no carro. Passado o susto e voltando à configuração original, o carro atingiria “apenas” cerca de 370 km/h de velocidade máxima.

 

Tempo de Mudanças

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Em 1938 as corridas foram novamente interrompidas em AVUS. A morte de Bernd Rosemeyer durante uma tentativa de quebra de recorde de velocidade no trecho entre Frankfurt e Darmstadt refletiu a insegurança em relação às altíssimas velocidades atingidas na pista pelos carros de Grand Prix. Além disso, e principalmente por isso, novas obras na rede de Autobahnen (estava prevista uma nova Südkurve, também com grande inclinação, mas nunca finalizada) impediam o uso como pista. Os planos foram interrompidos pela Segunda Guerra. Com a derrota da Alemanha, o exército americano tomou conta do que restou de AVUS, então uma obra inacabada e danificada pela guerra. Na área que viria a ser a curva sul (Südkurve) intalou-se o Keerans Range, uma base militar para treinamento de tiro ao alvo – a pilha de terra com cerca de 15 metros de altura que daria inclinação à curva serviu como para-balas.

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No total, desde 1937 foram 14 anos perdidos. Somente em 1951 a glória a motor voltaria ao circuito, que teve o traçado encurtado para apenas 8,3 km de extensão. A curva norte permaneceu inalterada, mas a curva sul foi recuada (e mantida plana), diminuindo as retas para menos da metade de seu comprimento no traçado original. Em 1954 a Fórmula 1 visitou AVUS em uma corrida de demonstração dominada pela Mercedes, mas que não valeu pontos para o campeonato.

Em 1959 a Fórmula 1 apareceu oficialmente pela primeira e única vez. O intuito era oferecer aos alemães residentes na Alemanha Oriental a possibilidade de assistir à corrida, pois Nürburgring estava situada na Alemanha Ocidental, enquanto Berlin era acessível por ambos os lados (o muro de Berlin seria construído somente em 1961). Durante o evento principal, no domingo, tudo transcorreu normalmente e a corrida foi vencida por Tony Brooks. Contudo, no sábado, durante uma corrida de demonstração, Jean Behra perdeu o controle do carro, derrapou e voou para fora da pista na curva norte, o que lhe custou a vida — e encerrou definitivamente o uso de AVUS em provas de nível internacional.

Os problemas com a segurança e o crescimento de sua importância em termos logísticos culminaram em uma reforma no ano de 1967, que aplainou a Nordkurve, tornando ela mais civilizada, ao mesmo tempo que permitia um melhor aproveitamento deste espaço na rede de Autobahnem. AVUS era um segmento da A 115, estrada que ligava Berlim Ocidental à Alemanha Ocidental, e nela ficava o Checkpoint Bravo, uma espécie de aduana onde eram fiscalizados os veículos e pessoas que desejavam se mover entre estes territórios, passando pela Alemanha Oriental.

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Os 20 anos seguintes foram mais tranquilos, sem reformas, e com corridas regulares do DTM e da Formula 3, entre outras categorias – embora cada vez menos a pista era usados para o esporte, devido à necessidade de ter a Autobahn em operação. Em 1989 a pista foi encurtada novamente (para 4.8 km) com o deslocamento da curva sul; e mais uma vez em 1992 (para 2.6 km) quando foi adicionada uma chicane um pouco antes da curva norte, uma tentativa de reduzir as velocidades que novamente vinham crescendo e trazendo insegurança aos pilotos.

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A festa acabou – e agora?

No início dos anos de 1990, ainda corria-se em AVUS. As provas do DTM eram bastante significativas, e os incidentes e acidentes eram comuns, dada a forma agressiva de pilotar da categoria. Uma nova chicane foi adicionada em 1994 para contornar a situação. Mesmo assim, em maio de 1995 a segunda bateria da prova do DTM (que naquele ano passaria a ser o ITC) teve que ser cancelada após um acidente envolvendo diversos carros que bloqueou a pista.

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E o pior ainda estava por vir: em setembro, Kieth O’dor morreu em um acidente válido pelo STC (tanto o STC e o ITC são campeonatos que se originaram no DTM, vou ser bastante breve pois daria um outro bom artigo!). O destino de AVUS estava selado. A partir de então, pouco foi usada como pista. Lausitzring já estava em construção e logo seria inaugurada, tornando-se uma opção muito mais viável naquela região. Em 1º de maio de 1999, carros históricos foram tirados de seus museus para uma grande despedida pilotados por veteranos. Depois deste dia, nunca mais o rugido dos motores de corrida soaria por lá.

Em julho deste ano, tive a oportunidade de ir prestar meu tributo a AVUS. Lá ainda estão as arquibancadas, costeando a A 115; a curva norte, agora plana e interrompida por um guard rail; a torre de controle, com sua estrela gigante da Mercedes no topo e diversas inscrições dos patrocinadores na fachada, hoje abriga um hotel e restaurante.

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Em ótima companhia a visitei com tempo suficiente para observamos esses detalhes que restaram, lembrando das histórias que aqui relatei e imaginando como teriam sido no seu tempo, os gloriosos dias de corrida com centenas de milhares de expectadores, as expectativas e alegrias e também as decepções e o sofrimento dos pilotos-herói de outrora.

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O hotel e restaurante AVUS é um lugar simples e fora dos roteiros turísticos convencionais, mas lá pode-se beber generosas porções de café, além de saborear pratos típicos alemães com atendimento acolhedor e ambiente que reflete a nostalgia do lugar. Para quem ficar interessado em ir visitar, é bastante fácil: há várias estações de metrô nos arredores, ou mesmo de táxi, que não é caro se você já estiver em Berlim. Sem dúvida um passeio interessante para os apreciadores da história do automobilismo.

 

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