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Project Cars Project Cars #379

Honda “Marlboro Café Racer”: a história da Project Bike #379

E aí, pessoal?! Meu nome é Felipe Queiroz, sou de Tambaú, interior de São Paulo. Tenho 24 anos, formado em contabilidade, casado e pai. Essa é uma história de um apaixonado por carros, que se rendeu também pro lado das motos.

Assim como muita gente aqui, desde criança sempre fui incentivado a gostar de carros, tanto pelo meu pai quanto por tios e avô, que são mecânicos. Meu avô, conhecido na cidade dele por Celsão, é um desses mecânicos antigos, que conserta desde um motor de fusca simples até máquinas agrícolas enormes. Hoje, aposentado, toca uma firma de serviços de guincho pra seguradoras com um sócio. Da frota de reboques dele, dois ele mesmo projetou e construiu sozinho, sendo um deles pra cargas pesadas como outros caminhões e ônibus. Foi do nível de comprar os caminhões originais, cortar a carroceria, montar as plataformas e todo o sistema para levantar e puxar os veículos. Tudo sozinho, com torno, maçarico, solda e experiência de uma vida toda sem nunca ter feito faculdade.

Durante as férias me lembro de passar alguns dias na casa da minha avó e de brincar na oficina com meus primos e de sempre atazanar meu tio e meu avô sobre o funcionamento de motores e das ferramentas (coisa que faço até hoje de vez em sempre).

O tempo passou, consegui minha habilitação e meu primeiro contato com motores e personalização foi num Gol 1.6 CL 1992, azul metálico. Meu pai havia comprado pra incentivar minha mãe, afinal ela já tinha carta desde 1994, mas tinha medo de dirigir. Isso já era no ano de 2009 e mesmo sendo um carro pequeno e simples ela não conseguiu. Eu, com 18 anos, aproveitei a deixa e rolou um usucapião no quadrado. Na época eu trabalhava com meu pai, mas logo em seguida arrumei outro emprego num escritório de uma cerâmica. Lá fiz amizade com outro funcionário, o Neto, que até hoje é dono de um Voyage quadrado cinza metálico, motor 1.8, na época com carburador 2E e que andava muito. Eu, na época bobão de tudo, achava legal o carro dele e começamos trocar umas idéias sobre mexer no meu carro também. O detalhe era que o motor do Voyage dele era um AP e o meu CHT. Lembro até hoje da decepção que senti quando descobri que meu motor não teria as mesmas possibilidades de mexer quanto o dele… Daí então vieram um jogo de rodas aro 15, suspensão mais baixa e uns itens de xuning que quando vejo as fotos, me bate uma certa vergonha.

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Atenção pros frisos da grade do motor, capas de maçaneta e retrovisores cromados. Ah o xuning!

Tempo vai, entrei  pro serviço militar obrigatório e o Gol começava a me dar dor de cabeça. Mesmo fazendo retífica de motor, eu andava praticamente 100km todos os dias na época de recrutamento entre minha cidade e a base da Academia da Força Aérea em Pirassunga-SP, entre ida e volta, sempre dando carona pra outros amigos que também estavam servindo, porta malas cheio de malas e fardamentos… Inclusive cheguei a ficar parado na estrada um dia porque o motor esquentou demais, e cheguei atrasado pro expediente num cagaço enorme de levar detenção do sargento.

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Uma hilária desse carro, também da época do quartel, foi no dia que saí da quarentena, logo no início do recrutamento. Nossa turma havia ficado 26 dias reclusos sem poder voltar pra casa e só havíamos falado com a família um dia por telefone. Depois de todos esses dias de ralação, que só quem passou sabe, fomos dispensados numa sexta feira, cheios de alegria e exaustos após passar quase 36 horas sem dormir. Durante essas semanas me preocupei em ir a cada três ou quatro dias até o carro dar partida e funcionar por alguns minutos pra bateria não descarregar nem nada. Na hora de partir, dei na chave e o motor funcionou normal. Ao me despedir, buzinei pro pessoal e fomos embora eu e meus companheiros pra nossa cidade felizes da vida.

Na segunda feira, de volta ao quartel, dia correu normal, e no final de expediente, tropa em forma, vem o sargento, pede pra todos se sentarem e pergunta: “Quem é o dono do Gol com a buzina engrenada?” Meu cérebro deu um delay até eu perceber que era eu. Na hora gelei, e já levantei a mão esperando a bronca. “Que buzina é aquela, mocorongo?! Tá pensando que tá na praça?”. Detalhe era que um dos itens que mais me envergonho de ter instalado no carro era justamente uma buzina de cinco cornetas, que imitava nada menos que a buzina do Dodge Charger 69 “General Lee” dos Gatões. Resultado disso foi que fiquei detido no quartel mais cinco dias, um pra cada corneta.

Tempo passou, vendi o gol, dei baixa da Força Aérea em 2012 , me casei, nasceu minha filha, e é aí que começa história da motoca.

Ano de 2015, minha filha recém nascida, e eu comichando pra arrumar alguma coisa pra mexer de novo, já que na época eu tinha um VW Gol G6, que tinha tirado zero km logo depois da baixa do quartel. Nele eu tinha colocado só suspensão esportiva e aros 17”. Pra mim ele já tinha um design bem esportivo sem precisar mexer mais. Porém com filha pequena e mulher querendo começar a dirigir, já tava vendo que os dias dele naquela configuração estavam contados.

Num dia, por um estalo comecei pesquisar no Google e no Facebook sobre motos custom e me deparei com alguns estilos diferentes de tudo que eu já tinha visto. Quando se fala de Custom em motos, logo vem na mente Harleys e motos no estilo Easy Rider e caras barbados com coletinhos de couro. A partir dali passei a conhecer outros estilos além das choppers e bobbers, mas também brats, flattrackers, scramblers e claro, café racers.

 

Confesso que eu nunca havia me interessado pelo mundo de duas rodas. Meus pais nunca me incentivaram e sempre foram apreensivos quanto às motos, sempre por causa das histórias de acidentes, muitas das vezes fatais com familiares e conhecidos. Embora quando tinha tirado CNH também já tivesse aproveitado e tirado pra carro e moto de uma vez, a idéia era só se algum dia surgisse uma emergência e precisasse usar.

Idéias brotando, e então passei a considerar comprar uma moto pra usar no dia a dia. A crise dos combustíveis estava pegando pesado com o consumidor, e eu com filha pequena, onde qualquer economia seria bem vinda, a moto viria a ser uma ferramenta que me ajudaria a economizar combustível e tempo. Daí entrou a parte mais difícil que era convencer minha mulher. Um carro mais velho estava fora de cogitação, justamente pelo fato de não ter onde guardar, afinal minha garagem é pequena. E um carro mais velho porém em condições custaria bem mais do que eu poderia gastar no momento.  Conversa vai, conversa vem e ela concordou, mas as condições que estabelecemos foram que, a moto teria que ser barata, de preferência que já não pagasse mais IPVA, de baixa cilindrada e modelo popular. Tudo isso pra baratear o investimento, manutenção, consumo, contando com a possibilidade de eu não me adaptar e quisesse vender fácil caso não gostasse ou se precisasse em caso de emergência e também que eu não me matasse ao encontrar o primeiro poste, afinal já fazia cinco anos que havia tirado CNH e a última vez que havia pilotado uma moto foi justamente no exame da habilitação.

Estabelecido isso, parti pra busca. Como moro numa cidade pequena, as possibilidades não eram tantas, porém o preço era bem menor principalmente por ofertas de vendedores particulares e lojas menores que fazem qualquer negócio. Um dia durante um corte de cabelo, o Murilo, que é cabeleireiro e também motoqueiro, me falou de um amigo em comum, que tinha uma moto nessas condições que procurava, porém parada tinha algum tempo e com algum problema no motor que impedia de funcionar. Entrei em contato, com o Rafinha, dono da tal moto, e fui conhecer a máquina. Era uma Suzuki Intruder 97, vinho, 250cc encostada num canto do quintal coberta de poeira e pêlo de cachorro. Combinamos de levar num mecânico pra avaliar o que teria que ser feito pra então negociarmos o valor de venda.

O problema era justamente o eixo de comando e balancins que precisariam ser trocados, porém pra quem conhece essa moto, apesar de forte e durável foi um modelo que saiu pouco com essa configuração de motor, e por isso, essas peças eram muito difíceis de encontrar e a retífica era difícil quem fazia. Até encontrei algumas opções, mas inviáveis pelo preço (que era quase o valor que o Rafinha pedia na moto) e outras por localização (um cara no Mercado Livre que dizia que importava do Japão, mas sem previsão de entrega). Desisti do negócio e voltei a procurar outra coisa que coubesse nos meus planos e tivesse mais íntegra.

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Suzuki Intruder 250, vendida lá fora pela alcunha de GN 250. Um prato cheio pra quem quer personalizar uma moto por ser praticamente um coringa pra vários estilos de customização

Um belo dia, passando perto de uma oficina/loja dois quarteirões da minha casa, avistei de longe uma motinha branca chamando atenção na porta de entrada. Na distância parecia conservada e original. Entrei como quem não queria nada e perguntei o preço. A moto, uma Honda CG 125cc Four Stroke, ano 1987 branca, pela bagatela de R$2000! Moto popular, manutenção simples, não pagava mais IPVA, econômica, e fácil de vender se precisasse. Era um bingo! Acertei o pagamento com o dono da loja e a moto era minha!

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Eu todo feliz e faceiro igual pinto no lixo quando fechei negócio na moto. Mal sabia o que me aguardava…

E é aí que começa quase que uma epopéia antes mesmo de tirar ela loja, mas que vai ficar pra próxima etapa.

Por Felipe Queiroz, Project Cars #379

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