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Jorge e seu Fusca 1949, o mais antigo do Brasil ainda original | Flatout Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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O Fusca mais antigo do Brasil

O Fusca pode ter nascido na Alemanha na década de 1930 – quando nem tinha nome, e era apenas o Volkswagen. Mas seria exagero chamá-lo de um patrimônio nacional não-oficial? Creio que não – afinal, todo brasileiro já andou de Fusca, muitos brasileiros aprenderam a dirigir em um Fusca e, para muitos entusiastas, foi (ou será) a porta de entrada para o mundo dos carros antigos.

Foi o que aconteceu com Jorge Cirne, capixaba residente na Bahia e colecionador de carros antigos que é conhecido no meio justamente por causa de um Fusca. E não é qualquer Fusca, mas sim o exemplar mais antigo do Brasil ainda original. Um carro sobre o qual você pode até procurar, mas não vai encontrar muitas informações. Fotos também são poucas – há algumas imagens antigas do carro participando de encontros e eventos, mas só. Ou seja: de certa forma, esta edição do FlatOut Classics é muito importante – talvez até histórica.

De Fusca em Fusca

“A minha relação com o Fusca no passado vem desde a adolescência . Eu aprendi a dirigir em um Fusquinha, como a maioria dos brasileiros” – foi a primeira coisa que Jorge me contou, corroborando a afirmação do primeiro parágrafo. “Então, minha coleção de carros antigos começou com um Fusca”.

Não é difícil de entender o motivo. Na verdade, as razões para que o Fusca seja tão popular são facílimas de listar: visual carismático, disponibilidade no mercado, simplicidade mecânica e preço acessível – ao menos na hora de comprar. Restaurar ou preparar um Fusca é mais dispendioso, mas isto vale para qualquer carro antigo. Deixá-lo “ajeitadinho” para curtir aos fins de semana é, sim, uma proposição bem alcançável.

Jorge comprou seu Fusca quando ainda morava no Espírito Santo, há cerca de 40 anos – o carro que deu a ele suas primeiras aulas de mecânica. “Fiz um pouco de tudo, desmontei motor, montei motor, tirei carroceria, coloquei carroceria – na época, com pouco dinheiro, a gente tinha que se virar e aprender a fazer tudo sozinho.” Dali, Jorge não parou mais, e aquele foi só o primeiro Fusca.

Bastante tempo depois, já morando na Bahia e de família formada, Jorge decidiu dar um carro a seu filho, que estava prestes a completar 18 anos – um carro que ele pudesse usar no dia a dia, ir para a faculdade, estas coisas”. Jorge conta que, de cara, o garoto já pensou em modificar o carro – trocar rodas, dar um tapa na suspensão, et cetera. “Eu não deixei, e disse a ele que se fosse para mexer em um carro, que fosse um Fusca”. Foi o primeiro carro da coleção de fato – um Fusca “Itamar” 1996 que já estava na família desde zero-quilômetro.

Aquele acabou se tornando o primeiro Fusca da atual coleção de Jorge. “Depois que terminamos o Itamar, não paramos mais – e decidimos ter pelo menos um Fusca de cada década. Primeiro vieram os exemplares dos anos 1970 e 1980. Depois, um 1968. Depois, dois dos anos 1950 – um 1953 split window (com o vidro traseiro bipartido) e um 1955 “oval” (auto-explicativo).

E então veio o Fusca 1949 – mais ou menos 15 anos atrás, segundo Jorge. “Um belo dia, decidi comprar um motor. Vi anunciado na Internet um motor 1100 e me interessei, imaginando que fosse um motor da década de 1950”, conta Jorge. “A ideia era só restaurá-lo e deixá-lo de enfeite na oficina.”

Acontece que o motor não estava sozinho: o vendedor também tinha o carro – o tal Fusca 1949. “Quando ele me contou o ano do carro, pedi uma foto da plaqueta – algo que era mais difícil naquela época sem smartphones.” Quando viu a foto e confirmou o ano de fabricação do Fusca, Jorge tentou comprá-lo, mas o dono recusou. Só depois de muita insistência foi que ele conseguiu fechar o negócio e trazer o carro para casa.

 

O Fusca em 1949

Quando o carro de Jorge saiu da fábrica da Wolfsburg, na Alemanha, o primeiro exemplar produzido ainda podia ser considerado um seminovo – só para ter noção do quanto este exemplar é antigo. E ele tem suas particularidades da época, como o painel de instrumentos simétrico, com o velocímetro deslocado para o centro (ao lado de um emblema da VW estampado na lata, onde alguns exemplares traziam um relógio opcional), dois porta-luvas sem tampa e teto revestido apenas parcialmente.

O motor é um boxer de 1.131 cm³ que, originalmente, entrega 25 cv e garante sem tanto esforço a velocidade máxima de pouco mais de 100 km/h – só em 1954 foi adotado o motor 1200 (1.194 cm³) de 30 cv. Não havia setas, apenas faróis, lanternas e a luz de placa.

Também não há retrovisores externos, e todos os elementos que estamos acostumados a ver com acabamento cromado – para-choques, molduras dos faróis, maçanetas e calotas – são pintados na mesma cor da carroceria (Vermelho Bordeaux), embora naquela época já existisse a opção pelos cromados.

As calotas, aliás, ainda trazem o emblema primeiro emblema da Volkswagen, com as “asas” que são comumente associadas ao Partido Nazista. E absolutamente todos os detalhes de do Fusca estão presentes, como as “bananinhas” nas colunas B, o tanque de combustível dentro do porta-malas dianteiro e o kit de ferramentas embutido no estepe. Este carro, acima de tudo, é um documento histórico sobre rodas.

Mas não foi fácil. “Quando o carro chegou, descobri que ele estava muito ruim” – a ponto de deixá-lo parado em um canto da oficina por quase um ano antes de começar o serviço pesado. Jateamento, restauração da carroceria e pintura foram as partes mais fáceis (ou menos difíceis), feitas pelo próprio Jorge para garantir a qualidade do serviço.

O mais complicado foi garimpar peças de acabamento. “Procurei em todo canto, e cheguei a ir buscar peças na na Alemanha. Naquela época havia muito mais dificuldade do que hoje”, observa Jorge.

Foi um processo de quase três anos. O esforço compensou – atualmente o carro está impecável e exatamente como saiu da fábrica, de acordo com os registros da Volkswagen na Alemanha, que chegou a emitir um certificado de autenticidade. Foi no meio da pesquisa que Jorge confirmou que seu Fusca era o mais antigo em registro e circulação no País.

E, naturalmente, Jorge sequer cogita – mesmo remotamente – a possibilidade de vendê-lo. Ele sabe muito bem que o Fusca que tem em mãos é possivelmente uma das unidades com maior valor histórico em todo o País (talvez seja até mesmo o mais valioso do Brasil). Para um carro que foi encontrado por acaso, é uma honraria e tanto.

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