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Car Culture

José Luiz Vieira (1932-2020) – O adeus ao criador da Motor 3

A coisa mais incrível sobre o ser humano, em minha humilde opinião, é sua capacidade de adaptação e superação. Já estamos há mais de dois meses trancados em casa, mas continuamos a funcionar de uma forma ou de outra; talvez um pouco mais pobres, talvez desconfortavelmente, mas ainda assim, andando para frente de forma contínua, sem parar. Como Steve McQueen em “Papillon”, continuamos vivos e indo adiante, dando uma banana para um mundo que nos puxa para trás, tenta acabar com nossa força de vontade, e judia da gente. “Hey, you bastards! I’m still here!”

Mas alguns dias são mais difíceis que outros. E o dia de hoje nem bem começou e recebemos a notícia que o José Luiz Vieira, o jornalista para sempre imortalizado pelas iniciais “JLV” ao fim de suas matérias na revista Motor 3, veio a falecer em sua casa em Cotia na noite de ontem, terça feira 19 de maio. Tinha 88 anos e sofreu uma parada cardiorrespiratória em consequência de uma insuficiência renal.

Sabíamos que já há bastante tempo sua saúde não era das melhores, e juntando isso à sua idade avançada, não podemos dizer que não era esperado, uma hora ou outra. Provavelmente, finalmente está em paz. Mas não há como ser avassalado por um sentimento de tristeza, de fim real e definitivo de uma era. José Luiz Vieira era um ser humano falho como todos nós, tenho certeza. Mas para mim ele é mais que isso. Era um ídolo insubstituível.

José Luiz Vieira era um dos primeiros engenheiros automobilísticos formados do Brasil, conseguindo seu título nos EUA nos anos 1950, quando ainda não existiam cursos deste tipo por aqui. Depois disso, de volta ao Brasil, trabalhou na pioneira “Revista de Automóveis” do Rio de Janeiro, o que o catapultou para uma carreira no meio jornalístico, escrevendo para várias publicações. Seu trabalho na revista Status, a revista masculina da editora Três, faz nascer a Status Motor.

Desta revista nasce a sua maior criação: a revista Motor 3, que existiu de 1980 a 1987. Hoje, considerada a melhor revista automobilística do Brasil. Depois do fim da Motor 3, JLV continuou sua carreira escrevendo constantemente para praticamente toda publicação especializada. Escreveu livros, se tornou talvez o mais conhecido, cultuado e respeitado jornalista do meio. Praticamente o patrono do jornalismo especializado em nosso país.

Conheci o JLV por meio de sua revista, em 1980. A Motor 3, quando apareceu na banca, era algo que não entendi muito bem. Na capa, um Chrysler 1927: é uma revista de carro antigo? Mas era um moleque ainda sem barbas, que como não podia dirigir consumia tudo que aparecia no tema automóvel em sua frente, e sendo assim, entreguei sem remorsos os 100 cruzeiros impressos na capa para o tio da banca em frente ao meu colégio, e comecei a folhear ela na viagem de volta, no ônibus.

O “tudo que aparecia no tema” aqui é na verdade um eufemismo para “revista”. Não existia internet em 1980, claro, e apenas música, em discos e fitas cassete, podiam ser comprados; vídeo cassete ainda não existia, pelo menos não em minha vida. Televisão tínhamos apenas uma em casa, e com 4 canais só. Telefone ficava no meio da sala, não era coisa para criança, e tinha um disco esburacado esquisito no meio. Se quisesse saber algo sobre alguma coisa, só lendo mesmo.

E pouca coisa existia nesse campo também. Livrarias e bibliotecas não se dedicavam ao automóvel, como não fazem até hoje, nos deixando a mercê de apenas duas revistas que saíam só uma vez por mês: a Quatro Rodas e a Auto Esporte. Elas eram pouco. Mas era o que tínhamos então.

Não posso dizer que a Motor 3 me converteu logo de cara; isso veio com o tempo, depois. Mas ao abrir a revista agora aqui do meu lado, não posso deixar de me sentir emocionado e saudoso desse tempo. Já na sua primeira coluna mensal JLV dizia o mote que ainda ecoa como música nos corações da molecada dos anos 1980: “Curtição levada a sério”. A Motor 3 mudou tudo, abriu nossas cabeças para um mundo automobilístico maior lá fora, nos explicou que tratar esta curtição, este amor, seriamente, era uma coisa normal e boa. Que carro é uma coisa séria, mas também divertida, alegre, feliz. Como dizem os americanos, ela literalmente explodiu nossas cucas.

E como não fazer isso? As revistas à que estávamos acostumados eram burocráticas, com textos limitados em tamanho e escopo, e poucas fotos. Cuidavam apenas do mercado de carros local, e uma delas nem testava picapes por colocá-las na categoria de “caminhões”. Prestavam um serviço útil, de comparação e coleta de dados, mas sem nenhum espírito ou emoção.

Aí chega a Motor 3. Usava um formato que, depois descobri, tinha muito em comum com a Car&Driver de David E. Davis: Uma foto básica só na capa, da matéria principal, e abaixo dela as outras matérias listadas apenas. Dentro da revista, tínhamos uma coluna de cada um dos autores, depois notícias, depois os testes e reportagens. Já aí as colunas inovavam: gente que tinha o que dizer, emitia opinião, falava o que pensava. Falar sobre carro como um tema, amplo, sociológico, filosófico, e não apenas uma máquina qualquer definida tecnicamente apenas. Automóvel é mais do que crê sua vã filosofia, era o recado. Eu adorava todas elas, principalmente, claro, a de JLV.

Assim conhecíamos JLV, em sua coluna.

JLV era algo raro, um engenheiro de verdade com uma grande afinidade com a escrita e com suas emoções. Ler JLV era entrar em suas ideias, seus amores automobilísticos, sua vida particular até, muitas vezes. Ele falava o que pensava, sem ofender ou procurar polêmica, e com um vasto conhecimento humildemente oferecido sem reservas. Definitivamente não atirava este conhecimento na cara dos outros como uma pedra, como arma, péssima mania muito comum entre os engenheiros. Uma pessoa incrível, que sempre admirei por isso.

E as reportagens da revista? Enormes, sem pressa, feitas com gosto e conhecimento não somente da história contada, mas da maneira certa de se escrever. JLV nos levava com ele no avião, ao hotel, ao restaurante, para só aí nos levar através dos impenetráveis portões das fábricas, lá para dentro. Às vezes, nos mostrava a fábrica antes de mostrar o carro. Só depois disso tudo acontecia a avaliação do veículo em si. E mesmo ela era diferente: técnica, mas também mercadológica, social, e completa. JLV nos dizia como era andar no carro, como ele o fazia sentir, e a gente entendia perfeitamente. Nos carregava consigo para um mundo bem mais legal que o nosso, o que para mim, um moleque sem amigos e com dificuldades sociais, era uma deliciosa fuga para um mundo melhor. Um sonho de olhos abertos.

E não apenas aqui no Brasil: andava de carros estrangeiros, na Europa e nos EUA. Só isso já era um grande progresso: somente em caríssimas revistas importadas tínhamos acesso a eles, e somente aprendendo outra língua. Foi com o impulso da Motor 3 que me entusiasmou a aprender inglês, para ler publicações de outros países.

Era uma revista que falava de tudo que interessasse ao entusiasta: carros novos, mercado e testes objetivos, sim, mas também carros antigos, barcos, motos, aviões. E carros modificados. JLV vivia inventando coisas diferentes, que se tornavam projetos da revista: Chevette 2.5 e Koizyztraña (um chassi Landau com carroceria tubular) os mais famosos. Era um oásis de informação e divertimento, esperado ansiosamente por todos. Quando atrasava a entrega, era um martírio…

Certa vez colocou um Duesenberg J na capa. Dentro da revista, 15 páginas de história, impressões ao dirigir e fotos. Quinze páginas! A revista claramente era feita por um leitor contumaz, um entusiasta do automóvel, um engenheiro com profundo senso histórico. Outra vez, testando o DeLorean na Irlanda, viu a importância histórica do que fazia e publicou uma imensa reportagem sobre a fábrica, com fotos. Maior e mais detalhada que qualquer revista estrangeira, e escrita com muito mais verve, habilidade e finesse. Um mestre em seu ofício.

A Motor 3 foi a primeira publicação nacional feita por entusiastas para entusiastas, como é agora o nosso Flatout! Ele foi o primeiro cara a falar com a gente de igual para igual, porque era um de nós. E isso mudou tudo.

Mas a revista acaba em 1987, nos deixando órfãos. Hoje sabemos o porquê: JLV não quis comprometer a integridade de sua criação. O dono da editora procurava mudar a linha editorial para aumentar ainda mais a circulação, mas JLV não permitiu. Melhor acabar, do jeito que é, que se corromper ou se tornar outra coisa diferente, disse JLV ao dono da editora. Algo que muita gente não consegue conceber, mas tem todas as características de heroísmo puro, não destilado. Morrer gloriosamente numa bola de fogo possível de ser vista da estratosfera, enquanto persegue seus ideais, é matéria prima básica das lendas.

Conheci o JLV pessoalmente exatamente dez anos atrás, em uma visita à coleção de Og Pozzoli em Cotia, junto com alguns amigos. Foi um dia memorável, principalmente para mim e meu compadre Juvenal Jorge, fãs declarados e incondicionais do JLV. Mas ele claramente já não era o mesmo, já acometido de alguma enfermidade debilitante. Mesmo assim, cumprimentei-o emocionado e contei como tinha sido importante em minha formação como pessoa.

Mas não foi só isso. Lembram do Chrysler LeBaron 1927 da capa da Motor 3 número um? Pois bem, o carro era de Og Pozzoli. Ainda estava lá, em uma das impecáveis salas da coleção do saudoso Og. Eu e Juvenal pedimos um minuto de JLV, nos alinhamos em frente do carro, e registramos o momento numa foto. Dois moleques de 10 anos, crescidos, 30 anos depois de avidamente abrirem a primeira Motor 3 para serem apresentados à um novo mundo. O carro, o objeto místico que tornou possível tudo isso, o criador da revista, e os dois leitores, juntos. Um momento que guardo com carinho especial.

É triste que, por causa da situação atual, não haverá velório. Esta é para mim a mais cruel das facetas da pandemia; não podemos prestar uma homenagem mais pessoal a um grande homem. Mas somos gente, e gente se adapta. Vou ter que prestar minha homenagem daqui da minha cadeira mesmo, escrevendo isto.

O que não é fácil para mim. Olhando para trás, vejo que hoje, sem ter planejado, inadvertidamente, modelei minha vida à de JLV. Me formei engenheiro automobilístico, trabalhei na indústria, e de uma forma o de outra, passei os últimos 20 anos escrevendo sobre carros. Claro que não tão bem como ele, nem muito menos fundei revista nenhuma. Mas não posso deixar de pensar sobre a influência que teve sobre mim, além da que sempre soube conscientemente. Mas é o que os ídolos fazem; nos inspiram a tentar ser como eles. Gente melhor do que seríamos sem eles.

Na verdade, não há como negar: sempre quis ser JLV. O admirava como nunca mais admirei ninguém. Hoje, sei que nunca serei como ele, e vivo bem com isso. Me contento em ser o que sou: um discípulo. Digitando essas linhas aqui, apenas repito da melhor maneira que posso o que ele me ensinou nas 83 edições mensais da revista Motor 3. E por isso, agradeço.

Obrigado Mestre José Luiz Vieira, e que o Senhor, em toda sua misericórdia e grandeza, sempre lhe chame para conversar quando quiser escolher um novo carro esporte para aterrorizar as estradas do céu. E que Ele lhe permita o descanso eterno que você, certamente, merece.