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Junior e a saga de seu Corsa GSi Amarelo Gris | FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
Clique aqui para acessar o índice com todas as matérias do quadro.


 

Um jovem clássico

Por volta do ano 2000, quando os carros antigos saíram dos clubes de entusiastas para iniciar o que se tornaria uma febre mainstream, admirados e adotados até mesmo como acessório de moda para celebridades estilosas, eram os carros dos anos 1960 e 1970 que estavam no radar deste novo público. A famosa “janela de 30 anos”, uma idade em que os carros já são antigos o bastante para não fazerem seu motorista parecer durango, mas suficientemente nova para ser utilizada algumas vezes ao mês.

 

Passados 20 anos, esta janela móvel de 30 anos agora está começando a arejar os anos 1990. O que significa que os carros que eram nossos sonhos de consumo até outro dia, modelos que até semana passada faziam parte da paisagem urbana cotidiana, agora começam a se aproximar do status de veículos históricos.

O Chevrolet Corsa GSi é um destes carros.

Com cerca de 2.500 unidades produzidas ao longo de três anos, ele é bem mais raro do que parece, o que não torna fácil a vida de quem procura um exemplar deste novo clássico brasileiro, caso do Junior Zumpano, proprietário deste tão raro quanto belo exemplar Amarelo Gris.

 

16 válvulas

A história do Corsa GSi começa pouco antes de sua chegada ao Brasil, quando foi lançado na Alemanha e demais mercados europeus no primeiro semestre de 1993. O modelo era exatamente igual ao que seria vendido no Brasil, combinando a carroceria de duas portas a um bodykit exclusivo, composto pelos para-choques, spoiler traseiro e dianteiro e saias laterais, além de rodas de 14 polegadas e o teto solar.

Por aqui ele desembarcou no segundo semestre de 1994, já como linha 1995, com uma campanha de lançamento que incluía um hilário velhote que se rejeitava a modernidade com argumentos estapafúrdios. Sobre o Corsa GSi, que tinha um inédito 1.6 16 válvulas, ele dizia: “Tenho um rádio com mais de 16 válvulas”.

No material promocional o Corsa GSi aparecia sempre pintado com o popular Vermelho Bach, mas em ao menos duas ocasiões ele apareceu vestindo um belo e chamativo tom de amarelo chamado “Amarelo Gris” — semelhante ao usado pela Fiat em seu arquirrival, o Uno Turbo i.e.

Mas, como a GM faria novamente com o Vectra GT-X, aquela cor curiosamente não estava disponível no lançamento. Naquele ano você só poderia comprar o GSI Branco Mahler ou Vermelho Bach. O Amarelo Gris só foi disponibilizado no ano seguinte, e somente enquanto a linha 1996 não chegou. Isso o tornou um modelo extremamente raro — estima-se que apenas 75 unidades tenham saído da linha de produção com esta cor. Foi o que motivou Junior a procurar um destes.

 

Amarelo Gris

A relação de Junior com o Corsa GSi não começou com este exemplar amarelo, mas ainda durante a adolescência, em 1999, quando seu pai comprou um GSi Preto Liszt 1996 — um carro que ambos já admiravam, que acabou fazendo parte da história da família e foi usado por Junior em seus primeiros ralis de regularidade. Ele gostava mesmo do GSi amarelo, mas foi difícil não se apaixonar pelo modelo preto compartilhado com seu pai.

Junior, contudo, acabou distanciado do GSi pelo divórcio de seus pais. Uma mudança de cidade, um novo casamento, o abandono do carro e sua posterior venda acabaram tirando o GSi de sua vida. A passagem do tempo acabou adormecendo a paixão pelo Corsa GSi. Junior comprou uma Harley-Davidson 883 para curtir os fins de semana junto de seu pai, então proprietário de uma Fat Boy.

Um acidente acabou levando o pai a trocar a moto por um roadster e, sem um parceiro sobre duas rodas, a Harley começou a ganhar uma vergonhosa camada de poeira que levou Junior a tomar uma decisão: trocar sua Harley pelo carro que sempre fez sua cabeça, o Corsa GSi.

O plano inicial era procurar o GSi preto que fora de seu pai, mas, diante da impossibilidade de rastrear o carro, Junior decidiu realizar seu sonho adolescente: comprar um GSi Amarelo Gris.

 

Onde encontrar?

O Corsa GSi Amarelo Gris é um dos mais raros da pequena série de cerca de 2.500 unidades do esportivo. Embora não se conheçam números oficiais, os fãs do modelo estimam que o Vermelho Goya (bordô) seja o mais raro deles, seguido pelo Amarelo Gris.

Há o registro de 75 destes emplacados, sendo que o primeiro de todos, o modelo promocional usado pela GM em 1994, foi o único produzido naquele ano. E hoje ele está desaparecido, pois foi roubado no Rio de Janeiro. Restam 74. Ou menos. Afinal, a contagem é dos carros que foram emplacados, não dos que sobreviveram.

 

O GSi Amarelo era um carro tão raro que Junior só conseguiu ver um pessoalmente pela primeira vez em 2000, durante um evento no autódromo de Interlagos. Encontrar um à venda seria um desafio e tanto.

Ou não?

 

Um golpe de sorte

Foi somente em 2016 que Junior decidiu vender sua Harley-Davidson e finalmente se pôs a procurar o sonhado GSi amarelo. Durante 10 dias sua rotina incluiu a busca incessante pelo esportivo em todos os sites de classificados e redes sociais possíveis. Nada.

Ele chegou ao ponto de buscar o carro no Google Imagens, anotar as placas e, com a ajuda de um amigo, encontrar os proprietários. Ninguém queria vender.

O jeito foi apelar ao popular Vermelho Bach. Junior topou com um modelo ainda dotado de dois itens que geralmente são trocados: o tecido original dos bancos e o borrachão dos para-choques. Tinha potencial, mas não era amarelo. Junior manteve contato e, depois de alguns dias, o vendedor comenta sobre um grupo de admiradores do GSi e que iria adicioná-lo. Ao ser aprovado, a primeira mensagem foi uma pergunta: “Algum GSi à venda?”

Minutos depois a resposta positiva. Em um golpe de sorte, Junior encontrava seu sonhado GSi Amarelo Gris. É claro que a história não seria simples: o carro não estava em perfeito estado. Longe disso. E longe de Junior: o carro estava em Goiânia/GO.

O vendedor era um funileiro que pegou o carro para restaurar, mas acabou desistindo. Na negociação ele ofereceu duas opções: entregar o carro do jeito que estava, desmontado e com o motor aberto, ou pronto para usar. Júnior negociou o valor do carro pronto e entregue em sua cidade, Rio Claro/SP.

 

Eu disse sorte?

O carro chegou um pouco abaixo do que Junior considerava ideal. À medida em que ia resolvendo os problemas, contudo, Junior começou a perceber que uma restauração completa seria a melhor saída para o carro. E assim foi feito.

O carro foi completamente desmontado e restaurado em absolutamente todos os detalhes: das lentes dos faróis ao isolamento termoacústico, passando pelo motor, pelas rodas, teto solar e computador de bordo. Foi um processo que levou dois longos anos, sendo concluído somente em 2018, quase 20 anos depois do dia em que seu pai chegou em casa com um GSi preto.

Agora, Junior tem usado o carro exatamente do jeito que sonhava quando adolescente nos anos 1990: viajando e participando de encontros e, de certa forma, preservando este raro pedaço da história do Corsa GSi e dos esportivos brasileiros. Uma verdadeira aula de como se cuidar de um clássico nacional e uma bela declaração de amor ao GSi.