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Land Rover Defender: seus quase 70 anos de história chegaram ao fim

Depois de 68 anos de estrada (e fora delas), o Land Rover Defender deixou de ser produzido. A última unidade do utilitário deixou a linha de produção ontem, dia 29 de janeiro de 2016. A aposentadoria do Defender não era novidade para ninguém, claro – a Land Rover deixou todo mundo ciente de que este momento estava próximo, e fez questão de dar a seu utilitário mais emblemático um encerramento glorioso, com homenagens e edições especiais.

Era o mínimo que eles podiam fazer, considerando os serviços prestados pelo Defender ao longo de quase sete décadas. E o mínimo que a gente pode fazer é contar sua história direito, não?

Pois bem: o Land Rover Defender não nasceu como Defender. A origem da linhagem está no Series I, concebido em 1947 como uma tentativa de recuperar financeiramente a britânica Rover que, como várias fabricantes no pós-Guerra, passava por dificuldades financeiras e sofria com escassez de mão-de-obra e materiais. Para piorar a situação, a fábrica original foi destruída por um bombardeio durante o conflito e, por isso, a produção precisou ser transferida para uma unidade improvisada construída durante a Guerra para fornecer material aeronáutico.

Com a infraestrutura prejudicada e as finanças em frangalhos, a Rover decidiu lançar um utilitário simples e robusto, nos moldes do Jeep Wrangler, mas voltado para uso rural.

O chamado Series I foi lançado em 1948 e já trazia as características básicas que tornariam o Defender um ícone: visual simples e funcional, carroceria de alumínio sobre chassi de aço (materiais remanescentes da indústria bélica) e a capacidade de enfrentar todo e qualquer terreno com mais desenvoltura que qualquer fazendeiro poderia querer.

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O nome Defender só viria em 1990, depois que já haviam sido lançados os modelos Series II (1958); Series IIA, com faróis já integrados aos para-lamas (1961), e Series III (1971). Não dá para dizer que o utilitário mudou muito com o passar dos anos – a verdade é que, em essência, o projeto foi essencialmente o mesmo ao longo dos 68 anos de produção. Claro, foram modificados motores, elementos estéticos e adicionados até alguns recursos de conforto e conveniência mas, no fim das contas, a mudança mais radical no Defender aconteceu mesmo quando ele mudou de nome.

Antes disso os nomes Series I, Series II e Series III serviam apenas para identificar as atualizações promovidas no carro, que se chamava simplesmente Land Rover. Ao mesmo tempo, havia o Range Rover, lançado em 1970 como uma opção um pouco mais espaçosa e confortável ao Land Rover, ainda com interior frugal (para se ter uma ideia, o painel de plástico e os assentos de vinil foram feitos para serem lavados com uma mangueira). Seus rivais eram caras como o Jeep Wagoneer (aquele que sempre aparece nos filmes com laterais imitando madeira), porém o Range Rover não tinha o mesmo apelo luxuoso.

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Claro, hoje os Range Rover são conhecidos por unirem luxo e capacidade off-road incríveis em igual proporção, mas aqueles tempos eram outros. Em todo caso, o que importa é que não dava para confundir as coisas.

Apesar do projeto muito semelhante ao do Land Rover, o Range Rover era mais sofisticado em alguns aspectos: a cabine não era tão frugal assim, o espaço interno era melhor aproveitado e a suspensão usava molas helicoidais em vez de feixes de molas. Com sua chegada, o resultado inevitável foi um declínio nas vendas do Land Rover que, apesar de ter sido concebido como um veículo de trabalho (e usado pelo Exército Britânico desde seu lançamento), acabou ficando popular entre gente comum, atraída por seu visual rústico, sua suspensão robusta e sua mecânica que, acredite, sempre foi confiável.

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Assim a Land Rover decidiu dar uma boa repaginada no carro, sem acabar com sua personalidade ou com seu apelo, mas o tornando um pouco mais palatável para uso civil. Ele recebeu algumas revisões de projeto, como a suspensão do Range Rover, uma nova dianteira, bitolas maiores (e para-lamas mais largos de acordo) e duas dimensões de entre-eixos: 110 polegadas (2,79 m) e 90 polegadas (2,28 m). A primeira se chamava Land Rover One Ten (1-10 em inglês), enquanto o outro se chamava Land Rover 90.

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E foi assim até 1989, quando a Land Rover apresentou seu terceiro modelo: o Discovery. Pensado como um intermediário entre o minimalismo do 110/80 e o luxo do Range Rover (que àquela altura já havia ganhado itens como ar-condicionado, direção assistida, acabamento de madeira no painel e couro nos bancos), o Discovery utilizava diversos componentes encontrados nas estantes do grupo Rover mas, mesmo assim, tornou-se um sucesso praticamente imediato nos EUA e na Europa. O preço disso foi certa confusão: a gente que curte carros sabe exatamente a diferença entre um 90, um 110, um Discovery e um Range Rover, mas na época as coisas eram mais difíceis. Para separar as coisas, em 1990, a Land Rover decidiu adotar o nome Defender.

Fazia sentido: além de soar bacana, “Defender” era um nome para lá de apropriado para o utilitário que também foi usado pelas forças armadas britânicas logo que começou a ser fabricado (e continua sendo, desde então).

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É claro que o Defender continuou sendo exatamente o que sempre foi ao longo das décadas. Desde que passou a se chamar assim, o primeiro de todos Land Rover jamais abandonou o espírito aventureiro. Na verdade, talvez a mudança de nome tenha ajudado a mantê-lo no mercado por tanto tempo — tanto é que, mesmo que tenha sido fabricado antes de 1990, todo membro da família costuma ser chamado de Defender. Até pela própria fabricante.

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E seu apelo é universal: não são só entusiastas do off-road que vivem para isto os fãs do utilitário. Cantores famosos, como Bob Marley, Sting e Paul McCartney, tiveram seus exemplares. Celebridades de Hollywood, como Sylvester Stallone (claro!), Jim Carrey e Sean Connery também; além de políticos como Winston Churchill, Fidel Castro e toda a Família Real Britânica (desde o início da produção, provavelmente). Ou seja: é óbvio que o Defender é um ícone. E ele foi até montado no Brasil, em regime CKD, pela Karmann entre 1999 e 2006.

E, assim, a Land Rover não poderia deixar de fazer uma homenagem e tanto a seu modelo mais tradicional. Assim, no dia 29 de janeiro de 2016, quando o último Defender deixou a linha de produção na fábrica de Solihull, no Reino Unido — a mesma onde tudo começou, lá em 1948 — um evento de comemoração com os 700 funcionários envolvidos foi realizado.

O último exemplar é um Defender 90 conversível. A versão não foi escolhida por acaso, e sim porque, em sua montagem, ele ainda utiliza um componente exatamente igual ao do modelo 1948: o grampo que prende a capota ao topo do para-brisa.

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O carro irá para o acervo de veículos históricos da Jaguar Land Rover. Além disso, a fabricante anunciou que manterá os exemplares do Defender vivos com um programa de restauração especial, anunciado também ontem, além de um canal na internet onde os donos poderão compartilhar suas histórias com o Defender. E, no que depender da robustez do utilitário e da dedicação dos ingleses em mantê-lo, ainda haverá Defenders nas ruas (e longe delas, principalmente) por muito tempo.