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Car Culture História

“Le Mans”: quando Steve McQueen quase foi expulso do próprio filme por ser teimoso demais


Hoje em dia, “As 24 Horas de Le Mans” (Le Mans, 1971) é um filme reverenciado por entusiastas de todo o planeta por ser uma ode nua e crua ao automobilismo: o filme de quase duas horas quase não tem história ou diálogos, sendo praticamente um documentário da vida à beira da pista no Circuito de La Sarthe, palco da corrida de longa duração mais icônica do planeta.

A carreira de Steve McQueen estava no auge depois do sucesso de Bullitt, em 1968, e ele se julgava pronto para produzir seu próprio filme. Ele queria mostrar ao mundo a sua visão das 24 Horas de Le Mans, com corridas autênticas, pilotos de verdade, carros de verdade e ação na pista, não fora dela. Só que McQueen queria que tudo fosse feito do seu jeito – ele havia aberto sua própria firma de cinema, a Solar Productions, para produzir Le Mans, e não se contentava em apenas atuar. Ele desejava um papel muito maior.

Acontece que a indústria não funcionava assim. Quem paga as contas é mais poderoso do que quem faz o serviço, e McQueen aprenderia isto depois de muito relutar.

Don Nunley foi aderecista (o responsável por todos os objetos usados em cena) de “As 24 Horas de Le Mans”, e recentemente lançou um livro sobre como foi conviver com Steve McQueen durante a produção. O livro, publicado pela Dalton Watson Fine Books, está disponível neste link. O trecho a seguir conta como foi Steve McQueen foi obrigado a se comportar e reduzir sua participação nos bastidores do filme.

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Só havia uma cena na lata; no resto do tempo, a equipe só filmou sequências de corrida. Nos primeiros 37 minutos do filme finalizado não havia uma única linha de diálogo. Isto era ótimo para fãs de automobilismo, porém muito chato para os espectadores que procuravam diversão no cinema. Tinha de haver algo mais.

Nós tínhamos um time de cineastas experientes, talentosos e dispostos a tudo, mas ninguém sabia o que eles deveriam fazer.

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Ford GT40 com câmera Panavision e seu operador, espremido ao lado do motorista, filmando a Ferrari 512S, carro #8, na curva Arnage

Não era um lugar muito divertido de se estar. Alguns sets de filmagem são leves e alegres; os membros da equipe são animados e te cumprimentam todas as manhãs e ficam ansiosos pelas tarefas do dia. Mas não era assim em Le Mans. Ninguém ali havia trabalhado naquelas condições antes, e os detalhes não estavam saindo como a gente esperava.

Todas as manhãs recebíamos as ordens do dia nas nossas folhas de serviço. Mas elas eram vagas e, muitas vezes, contraditórias, porque faltava um roteiro coerente. Às vezes, certos carros não estavam funcionando direito, ou uma cena anterior não estava terminada ou precisava ser toda refeita porque, durante a noite, alguém havia colocado uma mudança. Os pilotos tinham de ensaiar a cena nova a meia velocidade até acertar, e quando eles finalmente acertavam todos os detalhes, o dia todo já havia sido perdido.

Em cinco semanas de filmagens não fizemos progresso algum e o tempo, que era caríssimo, estava correndo. Os gastos se acumulavam por causa da locação no estrangeiro; da manutenção dos carros de corrida e dos salários dos pilotos profissionais; uma equipe internacional cujos membros nem sempre entendiam uns aos outros; do tempo que não cooperava – e um astro que cooperava menos ainda.

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Os carros alinhados para reencenar a largada.

A irresponsabilidade de McQueen era um problema constante. Certa manhã, enquanto Derek Bell e Jo Siffert estavam filmando uma sequência de corrida na qual os carros chegavam a 260 km/h, Bell viu uma coisa que quase lhe causou um ataque cardíaco. Na faixa branca no meio da pista, entre os carros que passavam voando, havia alguém filmando com uma câmera de mão.

Alarmado, Bell chamou John Sturges pelo rádio. “Tem um maluco deitado no chão no meio da pista!”

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A Irmã Bridget ajuda um médico a tirar alguma coisa do olho de Steve

A resposta de Sturges foi chamar McQueen pelo rádio, dizendo que queria vê-lo imediatamente. Passados alguns minutos, Steve apareceu acelerando sua moto, com vento no cabelo, em sua costumeira pose de machão.

“Steve, quem diabos você colocou no meio da pista com uma câmara?”, Sturges indagou. McQueen só deu um sorriso e respondeu sem pensar muito. “Ah, era eu mesmo”. Colocar em risco o filme e a si mesmo não parecia incomodar McQueen nem um pouco. E ele também não dava a mínima para o que Sturges pensava.

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Steve no Porsche 917K, o carro #22. Ao lado, Ferrari 512S, carro #8, perto do muro dos boxes. Olhando bem, dá para ver Derek Bell (virado para a câmera) em pé ao lado de um mecânico da Shell

Para [o produtor e parceiro de McQueen na Solar Studios] Bob Relyea, ficou claro que o ousado ator já havia tomado conta da produção quando ele saiu de seu trailer no dia 24 e McQueen estava dando ordens para um câmera. Estirado em uma cadeira ali perto estava John Sturges, calmamente fumando um cigarro atrás do outro. Se McQueen tivesse feito aquilo uma década antes, Sturges o teria chutado para fora do set. Mas agora, o conformado diretor só ficava sentado esperando, enquanto seu astro tomava conta do espetáculo.

“Inacreditável!”, esbravejou Relyea, antes de virar-se abruptamente e voltar para o escritório. Lá dentro, ele pegou um abajur, o atirou na parede do outro lado da sala e gritou. “Este maldito filme saiu do controle!”

Sentado em um canto estava Bob Rosen, executivo do Cinema Center. Ele guardou a revista que estava lendo e, pedindo desculpas, mandou um SOS para seu patrão, Gordon T. Stulberg, que estava nos Estados Unidos.

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Reencenando um pit-stop com a Ferrari 512S, o carro #8. A sujeira no carro indica o estágio da corrida. Em um dia, o carro tinha de estar limpo; no outro dia, sujo, e assim por diante. Coordenar isso tudo à medida que a corrida avançada era uma tarefa difícil.

Executivo-cheve do Cinema Center, Stulberg não era homem para brincadeirs. Nascido na periferia judaica de Toronto, ele enfrentou e superou um tipo de preconceito que pode ser ilustrado pela placa em uma piscina pública perto da casa onde cresceu, que dizia: “Proibidos cães e judeus”.

Filho de um sindicalista, Stulberg concluiu sua formação na Universidade de Toronto executando vários serviços inusitados, de vender flores a viajar com um parque itinerante – algo que McQueen já havia feito em seus tempos de adolescente.

Depois de se formar e direito em Cornell, Stulberg se mudou para Los Angeles para trabalhar em uma famosa firma de advocacia e descobriu que tinha o dom de trabalhar com clientes da indústria do entretenimento. Ele acabou se tornando o representante do Writers Guild of America (a organização dos roteiristas do cinema e da TV nos EUA). Ele participou de acordos de barganha coletiva e mais tarde trabalhou para a Columbia Pictures.

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O GT40 filmando junto com a Ferrari 512S, na curva Arnage.

Stulberg sabia lidar com astros do cinema temperamentais, e vários dias depois da ligação de Rosen, ele e um gruo de executivos do Cinema Center, incluindo Jere Henshaw, se pôs a caminho da França para acertar as coisas.

O próprio McQueen foi recebê-los no aeroporto e levou Stulberg de carro para a Solar Village; os outros foram com a limousine da Solar. Não era um ato de respeito e cortesia. Em um plano juvenil aparentemente pensado para intimidar e desorientar os manda-chuvas, Steve tornou o passeio o mais traumatizante possível, passando dos 160 km/h com o Porsche nas estradas rurais. Isto deveria mostrar a eles o que era preciso para cuidar da produção de um épico seminal sobre corridas de automóveis.

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John Sturges e Steve relaxam na pista em frente a um Porsche 917, quando os dois ainda se falavam.

Mas o encontro subsequente aconteceu em um escritório, não no carro de McQueen, com o inabalável Stulberg no comando, andando em círculos em volta de McQueen, e sua equipe consistindo de Abe Lastfogel, Roger Davis e Stan Kamen da William Morris Agency.

Stulberg foi direto e reto. Se eles não se comportassem, o Cinema Center sairia do negócio e encerraria o projeto todo, e McQueen perderia seu salário de US$ 750.000 e os bônus da bilheteria. Ou então eles poderiam continuar como estavam e substituir Steve por Robert Redford.

Eles preferiram ficar com McQueen, mas ele precisaria se comportar, se dedicar, estabelecer um roteiro e filmar a droga do negócio. Era pegar ou largar.

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Reencenando a largada. Steve em pé, de costas para a câmera. O cameraman Rene Guissart Jr. está do lado esquerdo de Steve, procurando a melhor luz.

Naquele momento, não havia nada que os executivos da William Morris pudessem fazer pelo seu cliente mais poderoso, que havia ido para um canto da sala, de cara fechada. Eles aceitaram.

Mais tarde, Bob Rosen me contou que McQueen estava agindo feito louco na reunião, soltando comentários ultrajantes e irrelevantes que faziam até mesmo as pessoas do seu lado na história se contorcerem.

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Steve caminha pelo box da Porsche para pegar seu capacete e ir até o Porsche 917.

Naquela altura de sua carreira, McQueen já havia conquistado tudo o que poderia querer. Ele havia deixado as ruas quando era criança e foi para os palcos, e de lá se tornou um astro da TV, e não olhou para trás quando o próximo passou foi se tornar uma lenda de Hollwood. Mas agora ele havia passado dos próprios limites. O salto de astro a cineasta era demais para ele. McQueen sonhava em fazer um filme para chamar de seu, aquele que melhor representaria sua paixão e sua personalidade.

Agora, apesar de todo seu poder, o filme foi tirado dele com um estalar de dedos. Sua maré de sorte que durou uma década finalmente havia acabado. Tirar de McQueen o controle do filme era como arrancar fora sua masculinidade.

Ele tinha duas semanas para digerir enquanto o Cinema Center ordenou a interrupção total da produção, a fim de resolver o caos instaurado por McQueen.

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Steve estava empolgado para conhecer a lenda das pistas Juan Manuel Fangio.

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Steve sai de seu Porsche 917 entre os takes de filmagem.

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Steve relaxa na pista falando com repórteres e assinando autógrafos.

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Steve colocando um protetor facial Nomex, cercado pela imprensa e pelos guardas franceses.

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Sentado ao volante de seu Porsche 917K, McQueen escolheu um capacete aberto para mostrar melhor seu rosto.

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Steve em de moto, com o autor de carona e John Sturges caminhando à esquerda.

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Steve socializando com os atores e mecânicos no set.

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Steve e Derek Bell bebendo Coca-Cola em um intervalo das filmagens. Gino Cassani, que interpretou o diretor de equipe da Ferrari, está à direita.

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Filmando com o macacão antes da corrida. Steve se recusou a fazer estas cenas no dia da corrida, quando havia milhares de atores coadjuvantes de graça.

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Close do Porsche 911 que Steve jogou em um buraco. Ele sempre estava testando suas habilidades ao volante, mesmo nas estreitas estradinhas francesas. Isto aconteceu mais de uma vez.

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Um dos Porsche 911 de uso pessoal de Steve, que o ator bateu durante a produção.

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