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Car Culture

Lendas do WRC: Ford Sierra e Escort RS Cosworth, os carros de rali que quase deram certo

Se você está acompanhando nossa série sobre as Lendas do WRC desde o começo, certamente sabe que a Ford conquistou seu primeiro título do WRC em 1979, com o Escort RS1800. Levou 27 anos para que isto se repetisse, quando o Ford Focus WRC conquistou os outros dois em sequência (2006 e 2007).

Isto não significa, contudo, que a equipe de fábrica da Ford no mundial de rali, sediada no Reino Unido, não tenha chegado perto do título algumas vezes – especialmente na virada da década de 90, quando o Sierra e o Escort RS Cosworth conquistaram as primeiras vitórias da Ford desde seu primeiro título, e ainda renderam memoráveis especiais de homologação.

Só que a gente precisa contar esta história desde o começo, e este começo está no asfalto.

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O Ford Sierra já era praticamente um veterano em 1987, quando foi homologada sua versão de competição para o Campeonato Britânico de Carros de Turismo, o BTCC (British Touring Car Championship). O Sierra foi lançado em 1982, substituindo o Ford Cortina – este sim um veterano, já suportando o peso de 20 anos no mercado europeu.

 

Poucas vezes se viu na indústria automotiva um salto evolucionário tão grande quanto a mudança do Cortina para o Sierra. O novo carro tinha linhas limpas e aerodinâmicas, frente em cunha e traseira curta. O design chegou a ser considerado futurista demais em comparação ao Cortina, o que desagradou clientes mais conservadores, que demoraram a compreender a proposta do Sierra.

O Sierra, ao contrário da maioria dos rivais, ainda usava o tradicional layout de motor dianteiro longitudinal e tração traseira – incluindo os motores de 1,6 e dois litros do Cortina. Em contrapartida, o Sierra tinha suspensão traseira independente, garantindo comportamento dinâmico superior.

Com o tempo o Sierra começou a ser melhor aceito pelo público, decolando de verdade em 1987, quando a Ford promoveu um facelift que lhe deu um visual mais tradicional. E, como já dissemos, foi naquele ano sua estreia nas pistas – mais precisamente em agosto, quando foi homologado o Sierra RS500 Cosworth.

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Seu maior trunfo era o motor que lhe dava o nome: desenvolvido pela Cosworth, o quatro-cilindros de dois litros tinha comando duplo no cabeçote e era turbinado – receita que permitia que ele entregasse 206 cv na versão de rua e cerca de mais de 550 cv na versão de competição.

Com a catacterística asa traseira em dois andares, o RS500 conseguiu certo sucesso nas provas de turismo britânicas, chegando muito perto de conquistar o título em 1987 (apesar de ter sido desclassificado por usar para-lamas irregulares). Além disso, no circuito australiano de turismo, o RS500 dominou as temporadas de 1988 e 1989.

E o que isto tem a ver com o WRC? Simples: com o fim do Grupo B por ser perigoso demais, a Ford precisou aposentar o monstruoso RS200 e, como praticamente todos os rivais, acabou sendo pega desprevenida, sem um carro apropriado para as novas regras do Grupo A (a Lancia era exceção, e não foi à toa que o Delta HF Integrale foi invencível até 1992). O mais perto disso era o Sierra RS500 Cosworth.

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Sem tração integral, o Sierra se sentia em casa nas etapas disputadas no asfalto. Em terra, porém, ele deixava o serviço para o Sierra XR4x4, que tinha um sistema de tração integral que distribuía até dois terços da força para as rodas traseiras.

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Assim, o Sierra de rali conquistou apenas uma vitória em toda sua carreira no WRC – o Tour de Corse de 1988, com Didier Auriol ao volante. Era, sem dúvida, uma vitória importante – afinal, era a primeira em sete anos! – mas era certo que, por mais potente que fosse, o Sierra RS500 Cosworth não era um carro competitivo nos estágios de rali.

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Uma das razões era seu tamanho: com trechos rápidos e curvas apertadas que não raro aparecem em sequência, os ralis eram melhor encarados por carros menores – exatamente o contrário do que aconteceu em 1990, quando a Ford trocou o hatch pelo sedã no WRC. O chamado Sapphire RS Cosworth 4×4 jamais conseguiu uma vitória no Mundial de Rali entre 1990 e 1992.

Em compensação, rendeu um sedã de alto desempenho à altura de encarar os alemães

Por sorte, àquela altura a Ford tinha o carro perfeito para a tarefa, ao menos nas dimensões: o Escort, que acabava de chegar a sua quarta geração. Só havia um pequeno problema… quer dizer, um grande problema: ele era um carro de motor dianteiro transversal e tração dianteira, totalmente oposto do que um bom carro de rali precisava ser.

A solução foi um caso clássico da expressão “tão louco que pode dar certo”: pegar a plataforma e a mecânica básica do Sierra RS Cosworth 4×4 e colocar a carroceria do Escort em volta dela.

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O projeto foi coordenado por Rod Mansfield e John Wheeler, da divisão SVO (Special Vehicle Operations, que mais tarde se transformou em Special Vehicle Team e deu origem a esportivos clássicos como o Mustang SVT Cobra e a picape F-150 SVT Lightning), e consistiu em adaptar os painéis do Escort para vestir uma plataforma, também adaptada, do Sierra. A fabricação da carroceria ficaria a cargo da alemã Karmann, que também precisou criar todo o ferramental necessário.

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As adaptações na carroceria foram, principalmente, os para-lamas alargados e um ligeiro aumento no comprimento da porção lateral traseira, mara melhor acomodar-se à plataforma. Além disso, o carro recebeu novos para-choques, mais robustos, e sua própria versão da asa traseira de dois andares – que ficou ainda mais exagerada.

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O sistema de tração integral permanecia o mesmo, mas agora distribuía o torque entre as rodas dianteiras e traseiras em uma relação de 34-66%. O motor, porém, ganhava uma nova calibragem no módulo de controle e um novo turbocompressor, mas também usava um restritor de ar no coletor de admissão para restringir a potência a 310 cv, limite imposto pela FIA aos carros do Grupo A. Acredita-se, porém, que a potência real ficava mais perto dos 350 cv.

De qualquer forma, finalmente a Ford t0rnava a ter um carro realmente competitivo no WRC. Ainda que, em seu ano de estreia, 1992, o Lancia Delta HF Integrale não tivesse dado chance para ninguém, em 1993 a Ford conseguiu sua primeira vitória com o novo carro – uma dobradinha de François Delacour e Miki Biasion no Rali de Portugal.

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Mais quatro vitórias foram conquistadas pelo Escort RS Cosworth naquele ano, e outras duas em 1994. Sucesso moderado, mas não suficiente para tirar da Toyota os dois títulos de construtores com o Celica GT-Four. Por outro lado, o especial de homologação para as ruas – com motor de 225 cv – se tornou um verdadeiro ícone entre os entusiastas, que fizeram dele um dos hot hatches mais incríveis e bem-sucedidos da história (leia mais aqui).

Depois de uma temporada fracassada em 1995, quando a Ford decidiu fazer um experimento e deixar sua equipe do WRC nas mãos dos belgas da RAS Sport, o Escort passou por modificações em 1996 para se adequar a uma nova mudança nas regras.

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O Escort teve a suspensão traseira substituída por um sistema McPherson (algo comum entre os concorrentes). Com o novo carro, a Ford ainda conseguiu duas três vitórias – uma em 1996 e duas em 1997, todas com o espanhol Carlos Sainz ao volante. O RS Cosworth ainda competiu em 1998, mas seu melhor resutado aconteceu no Rali do Reino Unido (a última etapa da temporda), quando o finlandês Juha Kankkunen e o belga Bruno Thiry ficaram com o segundo e o terceiro lugars do pódio, respectivamente.

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Foi a última vez que o Escort RS Cosworth competiu no WRC antes de dar lugar ao FocusWRC. Apesar de não terem conquistado título algum, tanto o Sierra quanto o Escort RS Cosworth são idolatrados por entusiastas em todo o planeta por seu visual icônico e sua excelência dinâmica.

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