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Car Culture

Lendas do WRC: Fiat 131 Abarth, o outro italiano que dominou os ralis na década de 1970

Por alguma razão quando se pensa em WRC a Fiat não é tão lembrada quanto outras marcas. É bastante injusto visto que, depois da varredura que a Lancia fez no campeonato com o Stratos, a Fiat abocanhou três títulos: 1977, 1978 e 1980. É dele que vamos falar hoje na nossa série especial sobre as lendas do WRC — e esperamos, quem sabe, fazer justiça.

Como sempre, a história começa alguns anos antes — nesse caso, vários anos antes: em 1966, quando a Fiat lançou o 124. Com carrocerias sedã e perua, motores avançados (o 124 foi um dos primeiros automóveis a usar o motor com comando duplo no cabeçote projetado por Aurelio Lampredi) e aproveitamento de espaço exemplar graças a seu longo entre-eixos, o 124 foi um dos maiores sucessos de vendas da Fiat, sendo vendido até 1974 em sua forma original.

O 124 também deu origem a um dos roadsters mais icônicos de todos os tempos e a um símbolo sobre rodas da União Soviética, o Lada 2105, que conhecemos por aqui como Laika. Mas ele também foi um grande carro de rali em sua versão cupê, que tinha linhas mais elegantes e motor de 150 cv. O 124 Abarth tem três vitórias do WRC no currículo: uma na Polônia, em 1973; e duas em Portugal em 1974 e 1975. Contudo, como já vimos, os primeiros anos foram dominados pelo Alpine A110 e o Lancia Stratos.

A Fiat precisava de um novo carro, e ele veio: o 131 veio em 1974 para substituir o 124 nas ruas e nos ralis — com sucesso nos dois.

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O Fiat 131 era uma evolução do 124 sedã, usando as mesmas soluções técnicas — monobloco de aço, suspensão dianteira independente do tipo McPherson e traseira por eixo rígido (controlado por dois braços assimétricos e dotado de uma barra Panhard). Até os motores eram derivados dos usados no 124 — todos com quatro cilindros em linhas, deslocamento de 1,4 a dois litros e potência de 70 cv a 140 cv. Seu porte era maior, seu estilo, mais moderno, e ele durou exatamente dez anos no mercado, de 1974 a 1984 — ano em que foi substituído pelo Fiat Regata.

Era um carro competente, mas não revolucionário, e por isso não tem o status de ícone do 124. Sua história nos ralis, contudo, é brilhante — como já dissemos, ele foi campeão do WRC três vezes, e ainda deu a Walter Rörhl, em 1980, seu primeiro título do WRC.

Não foi fácil, porém, transformá-lo em um carro de rali. Diferentemente do 124 Abarth, que era uma versão cupê de um sedã familiar, o 131 não recebeu uma nova carroceria e um entre-eixos mais curto. Desta vez a Fiat decidiu se virar com o que tinha — o que significou alterar praticamente todos os aspectos do carro, menos o formato da carroceria.

Para começar, o 131 foi levado para a Abarth, que acabara de ser comprada pela Fiat e transformada em sua divisão de competição. Os engenheiros da Abarth atacaram a suspensão trocando o eixo rígido por um sistema totalmente independente (essencial para encarar os pisos irregulares das etapas do rali) do tipo McPherson que, aliada à tração traseira, deu ao 131 Abarth um comportamento dinâmico excelente, acima dos rivais.

Na verdade o bom acerto dinâmico foi essencial para o sucesso do 131 Abarth, visto que seu motor era um dos menos potentes do grid.

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Não que fosse exatamente fraco, afinal com um cabeçote de 16 válvulas e comando duplo, a Abarth conseguiu extrair saudáveis 230 cv da versão de dois litros, mas o V6 do Lancia Stratos, por exemplo, entregava pelo menos 275 cv. Além do motor preparado, o 131 Abarth recebeu uma caixa manual de cinco marchas (o modelo de rua só tinha quatro) e freios a disco nas quatro rodas.

De qualquer forma, a carroceria também foi modificada, com um kit aerodinâmico projetado pelo estúdio Bertone que incluía para-lamas alargados, um grande difusor dianteiro e asas traseiras no teto e na tampa do porta-malas. Todos os componentes novos eram de fibra de vidro para aliviar peso, e os vidros laterais e traseiro foram trocados por Plexiglass.

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As bitolas mais largas e a suspensão mais baixa também davam ao carro uma postura muito mais agressiva e, por alguns instantes, ao olhar para ele dava para esquecer que o 131 Abarth era baseado em um pacato sedã de família.

Para homologar o novo carro de rali, como de costume, a Fiat precisou fabricar 400 exemplares de rua. Nestes, o motor era mais manso e entregava 140 cv.

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A estreia do 131 Abarth no WRC aconteceu em 1976, ainda ao lado do 124. Já naquele ano aconteceu sua primeira vitória, quando o finlandês Markku Alén venceu em casa a sétima das dez etapas da temporada. Era um bom sinal para o piloto e para a equipe, mas isto só ficaria selado nos dois anos seguinte.

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Ao todo o 131 Abarth venceu vinte ralis em seis anos — mais que o Lancia Stratos. Foram cinco em 1977, que lhe renderam 136 pontos e o título do Mundial de Construtores. Só não foi melhor porque, naquele primeiro ano em que era disputado o Campeonato de Pilotos, quem venceu foi Sandro Munari, ao volante do Lancia Stratos. Por outro lado, o vice-campeão de construtores foi a Ford, com o Escort RS1800.

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As coisas ficariam melhores no ano seguinte — Markku Alén e Walter Röhrl conseguiram vencer nada menos que nove dos onze ralis disputados naquela temporada, com direito a uma dobradinha de Röhrl e Alén no Canadá e a uma vitória tripla no Tour de Corse.

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O ano seguinte não foi tão bom e a Fiat perdeu o título para a Ford e o vice-campeonato para a Datsun, amargando o lugar mais baixo do pódio, mas a redenção veio em 1980: novamente a Fiat dominou a temporada, com oito vitórias em dez provas, e o talentosíssimo Walter Röhrl ficou com três delas (Monte Carlo, Portugal e Argentina), e assim o 131 conquistou seu terceiro título e Röhrl, o primeiro. Ninguém fala disso, mas não é absurdo dizer que o maior vencedor do WRC nos anos 1970 foi o Fiat 131 Abarth.

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Infelizmente, porém, aquele foi seu último ano de comemorações. Os culpados? Vários: Ari Vatanen que, com o Escort RS1800, venceu o título de pilotos em 1981; o Talbot Sunbeam Lotus, que ficou com o título de construtores naquele ano; mas, principalmente o Audi Quattro que, em 1982, mudou tudo na competição ao provar que o melhor era ter tração nas quatro rodas. E, em uma ironia do destino, o piloto que levou o título a bordo do Audi naquele ano foi o mesmo Walter Röhrl que ganhou seu primeiro título com a Fiat.

Mais do que isso: o nome de Röhrl ficou fortemente associado à Audi — até hoje seu nome é citado como um dos mais importantes na história da Audi em ralis, e o piloto é presença constante em campanhas publicitárias da marca.

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Pode ter certeza: vamos contar todas estas histórias nos próximos capítulos das Lendas do WRC!

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