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Car Culture

Manobra PIT, TPAC e os métodos de interceptação usados pela polícia em perseguições

Você conhece bem a cena: um carro civil em disparada, costurando o trânsito e dirigindo como um louco, seguido por uma viatura da polícia acompanhada por um helicóptero. Em certo ponto, a viatura policial alcança o meliante e toca sutilmente na lateral traseira do carro, que acaba rodando e encerra a perseguição.

O que você talvez não saiba é que esta manobra tem um nome, tem regras para aplicação, que ela tem origem nas pistas de corrida, e que ela está com os dias contados.

A “técnica de intervenção em perseguição”, ou PIT na sigla em inglês, foi originada nos anos 1970, na Alemanha, como uma técnica anti-terrorismo para afastar carros intrusos de um comboio — como os BMW do Baader-Meinhof Gruppe.

Na década seguinte, uma escola de pilotagem americana chamada BSR a adaptou, inspirada no “bump and run” da Nascar, aquele toque dado na traseira do carro para afetar a tração e tirá-lo do traçado ideal.

Nessa versão da BSR, o carro policial alinha sua lateral dianteira à lateral traseira do outro carro, encosta com suavidade e, encostado, empurra a traseira do outro carro para o lado fazendo-o rodar em frente à viatura. Essa técnica foi usada pela primeira vez pelos policiais Terry Pearson e Joseph McDowell do departamento de polícia de Fairfax, nos EUA, no início dos anos 1990. Na época, Pearson a batizou de “Técnica de Imobilização de Precisão”.

A precisão do nome não está no que acontece com o carro interceptado, mas na execução da manobra: o motorista precisa ser extremamente sutil em todas as etapas para completá-la com segurança e eficácia.

Por essa razão, os departamentos de polícia recomendam que ela seja realizada por carro especializado (com para-choques especiais ou quebra-mato) e em velocidades de até 35 mph (55 km/h) e apenas em situações de extremo risco. Além disso, nem todos os estados americanos utilizam a manobra e, caso ela seja realizada em alta velocidade, o departamento de polícia é responsabilizado por eventuais danos a terceiros — incluindo lesões corporais e fatalidades.

Estas limitações e o alto risco de acidentes secundários estão tornando a manobra PIT obsoleta nos EUA. Entre 2014 e 2017, mais de 300 transeuntes morreram em acidentes decorrentes de perseguições policiais, o que levou as polícias e empreendedores a buscar alternativas mais seguras de interceptação.

No Reino Unido, onde a manobra PIT nunca foi adotada, a polícia cerca o veículo com quatro viaturas em uma manobra sincronizada chamada Perseguição Tática e Contenção (TPAC, na sigla em inglês). Nessa manobra, uma viatura especializada ultrapassa o veículo suspeito enquanto outras duas viaturas se posicionam nas laterais e uma quarta se mantém atrás do suspeito. Desta forma, ele fica bloqueado pelos quatro carros — geralmente peruas Volvo V70 T5 ou BMW 535d. 

https://www.youtube.com/watch?v=koKeTw72u3w

Se você está se perguntando por que a manobra TPAC não é adotada pelos americanos no lugar da manobra PIT, a resposta está na cabine do veículo suspeito: no Reino Unido a possibilidade de o fugitivo estar armado é baixa, enquanto nos EUA os policiais trabalham com a hipótese de o suspeito estar armado. Nesse caso, ao alinhar os carros lateralmente, os policiais se tornariam alvos fáceis.

Uma das alternativas americanas à manobra PIT é uma traquitana meio caricata, mas que aparentemente funciona: o “grappler”. Batizado oficialmente “Grappler Police Bumper”, o negócio é um quebra-mato que tem um sistema basculante com tiras entrelaçadas. Ao se aproximar do carro em fuga, o policial ativa o sistema, que encosta as tiras na roda traseira do carro à frente. Quando isso acontece, a roda trava e o carro do fugitivo acaba preso ao carro da polícia. Ele literalmente laça o bandido igual os xerifes do Velho Oeste faziam com os bandidos procurados “vivos ou mortos”.

O sistema já foi adotado por algumas unidades policiais dos EUA e, segundo o fabricante, já foi responsável por 11 interceptações entre novembro de 2018 e fevereiro deste ano.

Outra alternativa é o Starchase, que é menos intrusivo e mais seguro, embora não seja realmente uma ferramenta de interceptação, mas de rastreamento. Lembra da perseguição de “+Velozes +Furiosos”, em que a polícia atira uma garra elétrica no Lancer Evo do Brian O’Conner? É quase isso, mas em vez de um arpão, o negócio é um transmissor GPS de alta precisão. A polícia atira o transmissor com um lançador de mão ou com um dispositivo instalado na grade do carro de perseguição e, em seguida, reduz a velocidade permitindo que o suspeito se afaste. Quando ele se vê livre das sirenes e luzes de emergência, o motorista fugitivo tende a retomar a velocidade dos demais carros, minimizando o risco de acidentes. Enquanto isso, a polícia mantém o rastreamento por GPS e planeja o cerco ao fugitivo.

Segundo a empresa responsável pelo sistema, os fugitivos diminuem a velocidade em menos de um minuto e meio após se ver “livre” dos perseguidores, e mesmo assim mais de 80% dos fugitivos são capturados pelo rastreamento GPS.

Por último, já que citamos “+Velozes +Furiosos”, vale a pena falar sobre o Electrical System Disabler, aquela garra elétrica que interfere no sistema elétrico-eletrônico do Lancer Evo do Brian O’Conner. Em tese é possível parar um carro usando a interferência eletromagnética.

O problema é que a garra é pequena demais para gerar o campo eletromagnético necessário para isso. E mais: uma garra elétrica cravada na carroceria não causaria problema algum ao carro, uma vez que a carroceria atua como uma gaiola de Faraday — o campo elétrico no interior é nulo, mesmo que seu exterior esteja eletrizado. Nesse caso, a descarga elétrica da garra presa à carroceria resultaria em seu próprio curto circuito.

A única forma de desativar um carro por meio de pulsos eletromagnéticos é com uma fonte externa e suficientemente grande. O exército americano já tem um sistema em desenvolvimento: trata-se de um gerador Marx portátil, instalado na barriga de um helicóptero, com 1,2 metro de diâmetro e 25 kg, com raio de alcance de 200 metros. Quando ativado, este gerador pode criar o campo eletromagnético forte o bastante para interferir na ECU do motor e nos sensores do carro, fazendo com que ele entre no modo de segurança — que limita o funcionamento do motor ou até mesmo o desativa.

E se você está pensando em um carro carburado, esqueça: o campo eletromagnético também afeta o sistema de ignição, impedindo o funcionamento correto do motor. Você pode até fugir, mas não irá muito longe com uma ignição descontrolada. E mesmo que consiga… bem, seria uma situação extrema, daquelas em que a polícia não hesitaria em usar a manobra PIT.

Como dizem nos “Vídeos Incríveis”: não dá para fugir da polícia.