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Manoel e o primeiro Opala de produção normal | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Todo mundo conhece o Opala; é um dos mais emblemáticos carros nacionais. Junto com o Gol, o Fusca e o Chevette, permanecem ícones de nossa fauna automobilística. Com o Gol compartilha a honra de ser um carro que existiu somente no mercado brasileiro; se o tão mal-usado JDM significa Japanese Domestic Market, um carro tão somente vendido no mercado japonês (que não é necessariamente um carro japonês; existem Mini JDM legítimos fabricados na Inglaterra), o Opala é um BDM, Brazilian Domestic Market.

O carro do qual derivava, o Opel Rekord “C” de 1966, era diferente não só em detalhes de estilo e construção. O Opel recebia motores Opel, notadamente (mas não exclusivamente) os CIH de 1,9 litros e 4 cilindros, e seis cilindros em linha com 2,2 litros (ou 2,5 litros no Commodore, mesmo carro mais luxuoso). Aqui, a GM tinha outros planos para o carro. Nos anos 1950 e 1960, os Chevrolet Impala valiam como ouro no Brasil; eram os carros mais admirados e desejados, sonho de consumo de uma população inteira que não ousava sonhar com os inalcançáveis Cadillac, Lincoln e Chrysler. Ford era uma marca admirada também, bem como os Dodge, Plymouth e Studebaker de preço similar, mas era claro que a Chevrolet, e especialmente o Impala, eram os carros mais amados.

Assim, a empresa, que anunciou o carro já em 1966, resolveu que o chamaria de um nome deveras criativo: Opala é uma pedra semipreciosa comum no Brasil, mas também, um nome que evocava tanto a origem Opel, quanto o motor americano “de Impala”. Parecia uma junção dos dois, mas era outra coisa; genial.

A marca seria Chevrolet, sem dúvida, um nome bem mais forte aqui no país, embora toda a linha de carros da GM acabaria ligada à Opel, de uma forma ou outra, no futuro. O Chevrolet Opala tinha motores grandes como convinha a um Chevrolet então: o menor partia do deslocamento do maior Opel, 2,5 litros, e o maior inicialmente 3,8 litros e seis cilindros em linha. O maior foi realmente usado em Impalas, mas é conhecido nos EUA como o motor do Chevy II, lançado que foi neste compacto americano em 1962.

Era um motor moderno ainda ao lançamento do Opala, totalmente novo em 1962, e sem nada em comum com o anterior “Stovebolt” bem mais antigo, ao contrário do que se fala por aí. Era  também modular: muito deles era comum entre as versões de 4 e seis cilindros em linha, e muito tinham em comum com o revolucionário V8 small-block da marca, seu contemporâneo. Para o Brasil, montado no Opel Rekord para se fazer o Opala, foi extremamente feliz. Um projeto que pegava o melhor da Europa e dos EUA, e que se mostrou perfeito para o Brasil.

Na época se chamava esse tipo de coisa, um carro europeu com motor americano, de híbrido; desde então o significado disso mudou bastante. Mas um híbrido clássico o Opala é (e fiquem liberados para dizer que andam de híbrido, opaleiros), e mais: um carro moderno em seu lançamento.

Quando foi lançado, simplesmente acabou com a sua concorrência. O Opala era um Opel contemporâneo, com motor americano moderno, afinal de contas; não era algo comum então aqui. O Aero-Willys era uma relíquia dos anos 1950, com um seis em linha que conseguia beber mais que o Opala seis cilindros, e andar menos que o Opala quatro cilindros. Os V8 de 2,5 litros dos Simca eram relíquias do pré-guerra, concebidos originalmente por Henry Ford nos anos 1930. Não tiveram nem chance; sobreviveram um par de anos e boa.

Era um carro perfeito para seu mercado. Podia ser um sedã pacato, relativamente barato e econômico, um taxi ou veículo oficial, com o quatro cilindros e sem opcionais. E com o seis cilindros, era o carro mais veloz do país. Roubava mercado dos Galaxie e Dart, roubava mercado dos carros “médios” como Corcel e depois Polara e Passat. Ajudou que quando a Ford fez um concorrente para ele, errou duas vezes: a primeira trazendo o Maverick americano, totalmente errado para nossa realidade, e ainda por cima inicialmente com o horrível seis do Aero; a segunda vez com o excelente, mas fraco de motor Del Rey. O Opala duraria até 1992, ainda competitivo no mercado. Incrível, mas verdade. Coisa de um milhão deles foram fabricados; o que para um carro desta categoria, no Brasil, é incrível.

Confesso que ao olhar as fotos do carro desta reportagem de hoje, não pude deixar de sentir alguma emoção, como qualquer brasileiro entre os milhares que teve Opalas em sua vida. Para mim tem cheiro de casa da vó. De infância, de adolescência, de épocas melhores; o cheiro inconfundível e delicioso da nostalgia. O Opala não era nem alemão, nem americano, apesar de geneticamente ter traços de ambos: era, como todos nós, brasileiros de alma.

Eu especialmente sempre gostei destes sedãs de primeira leva; como contei aqui meu avô logo que se anunciou o Opala encomendou um, mas só o foi receber em meados de 1969, um 3800 básico azul-calcinha. Foi com ele que em setembro do mesmo ano ele vai até Itabira, em MG, conhecer seu primeiro neto: eu mesmo. Não me lembro deste carro azul, apenas do cupê bege 4100 que veio depois. Mas sabe-se lá por qual motivo, sempre que vejo um desses primeiros carros, algo acontece comigo. Eu realmente gosto deles.

 

O primeiro Opala?

O Opala foi mostrado em 23 de novembro de 1968, no VI Salão do Automóvel. Este seu lançamento, como ano/modelo 1969, foi sob grande fanfarra e expectativa, animado por uma campanha prévia de teasers, como as propagandas de televisão onde celebridades como a atriz Tônia Carrero, o cantor Jair Rodrigues e o jogador de futebol Rivelino recusavam carona, dizendo: “Não, obrigado. Meu carro vem aí”.

Mas era um lançamento de imprensa, que algumas vezes ocorrem um pouco antes de carros estarem disponíveis para a venda. No ano de 1968, existem registros de apenas 305 Opalas fabricados. E daí existe a controvérsia sobre o “primeiro Opala”.

O colecionador Ales Farias Otacio, do Clube do Chevrolet, sempre manteve que este Opala, fabricado em 1969, é o primeiro deles. Então o que seriam os 305 Opalas produzidos em 1968? Muito provavelmente carros pré-série. A pré-série é uma série de carros vendáveis; são a especificação final do carro, montada na fábrica. Mas raramente saem da fábrica para serem vendidos como carros zero-km. Ficam em uso na companhia, primeiro em testes para verificação e correção de problemas, depois para eventos de lançamento, e usos diversos em transporte. Só são vendidos como usados, muito depois, quando todos os defeitos iniciais e mudanças de especificação que ocorrem nesta pré-série foram retrofitados.

São tecnicamente os primeiros carros produzidos, sim, mas carregam uma nomenclatura diferente interna, e são segregados; a empresa não os vende como novos normalmente. Portanto, se alguém aí tem um Opala fabricado em 1968, não fique chateado; pode ser um pré-série. Não há demérito nisso, ele é até mais raro que este 1969. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Os donos atuais do carro, a família do nosso amigo Manoel Cintra, não quer parecer dizer algo que não é verdade; comprou o carro somente pelo estado incrível de conservação e sua história. Não tem como confirmar o fato deste ser o primeiro carro de produção normal, além do que lhes foi contado pelo Farias, o dono anterior. Mas os fatos todos indicam que é ele mesmo o primeiro.

Primeiro existe a confiabilidade da fonte. Já vi pessoalmente o Manoel perguntar para outros colecionadores e ex-funcionários GM onde confirmar a história. A resposta é sempre a mesma: fale com o Farias, do Clube do Chevrolet; ele é a autoridade neste assunto. Depois existe a história em si: por que outro motivo a GM manteve este carro até o fim da produção do Opala?

A história é a seguinte: este Opala de Luxo 3800, topo de linha, na cor verde-pistache (oficialmente Verde Antigo) , foi o primeiro Opala de produção normal, e ao sair da linha, foi imediatamente guardado pela GM por sua importância histórica. Isso conta o Farias; de fato sabemos que o carro ficou na propriedade da companhia até 1992, ao fim da produção do Opala.

Em 1992, diz o Manoel recontando a história do dono anterior, o carro foi sorteado entre os funcionários da GM. Foi ganho por um tapeceiro, que obviamente feliz, manteve o carro por muito tempo, e o repassou para o filho depois. Este, pretendia também deixar o carro para a filha, mas esta, sem interesse na “velharia”, acabou por desencadear a venda do carro.

Oferece o carro, por sua importância histórica, ao clube, e é neste ponto que o Farias fica com ele. Mantém o carro por muito tempo, inclusive colocando a placa preta com as suas iniciais FAR. Com ele, ganhou prêmios em várias exposições de antigos, inclusive Araxá. Há dezessete anos atrás, o pai do Manoel compra o carro para a coleção da família.

A coleção deles é centrada em carros esporte. As exceções, claro, são casos realmente especiais como este Opala. Além de ser aparentemente o primeiro de série normal, o carro de qualquer forma tem história na GM, e no Clube do Chevrolet. Mas o que é absolutamente inacreditável é o estado: absolutamente original.

Sim, você ouviu corretamente. O carro nunca foi restaurado ou pintado. Tem apenas 61 mil km originais. Pintura, estofamento, interior, absolutamente tudo é como saiu de fábrica a 53 anos atrás. Os Cintra usam seus carros, mas este mais esporadicamente por sua absoluta raridade. Mas andar sempre o mantém em condições de rodagem. O que dá ainda mais valor ao carro.

O carro é belíssimo, uma testemunha de época. O motor 3800 de 125cv SAE e um minúsculo carburador Solex/Brosol H40 de corpo simples, que logo daria lugar ao 4100, os acabamentos externos do modelo inicial com a grade toda cromada, o painel com molduras cromadas, o câmbio de três marchas na coluna. O acabamento preto do interior imaculado. Parece uma máquina do tempo, uma que nos leva direto ao início da GM no Brasil, e o início de uma das mais sensacionais histórias de carros nacionais, a do Opala.

E, sabendo como os Opalas são, uma certeza mesmo sem ter andado nele: um carro deliciosamente suave e gostoso para se guiar. É realmente algo muito especial. E isso, é só o que interessa.

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