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Car Culture História

Mitsubishi Lancer EX 2000 Turbo: o ancestral do Evo – e o primeiro com motor 4G63

O ano de 2019 vem caprichando nas notícias tristes, acho que todo mundo concorda. Uma delas veio da Mitsubishi: a fabricante acha que é impossível manter a lucratividade se não dedicar-se exclusivamente a SUVs e crossovers, e acredita que seu portfólio não tem espaço para nenhum modelo esportivo. Toyota, Subaru, Nissan e Mazda estão aí mostrando que não é bem assim, mas OK. Não vamos discutir.

A Mitsubishi ainda disse que, para seus fãs entusiastas, há uma rica história de esportivos da fabricante que podem ser celebrados – e isto é verdade. Só o Lancer Evolution possui dez gerações em mais de duas décadas, nove delas com o épico motor 4G63. O 2.0 turbo tem quatro títulos do WRC no currículo entre 1996 e 1999, todos com Tommi Mäkinen ao volante.

Mas o primeiro Lancer a usar o motor 4G63 veio anos antes do primeiro Evo, lançado em 1993. Seu nome completo era Mitsubishi Lancer EX 2000 Turbo e, de certa forma, ele foi o precursor do Lancer Evolution.

Repare no letreiro o para-choque. Um aceno ao BMW 2002 Turbo?

O Lancer EX 2000 Turbo fazia parte da segunda geração do modelo, lançada em 1979. Apesar de usar a mesma plataforma básica da primeira geração, ele era um carro de visual bem mais moderno, trocando as formas curvilíneas da primeira geração, típicas da década de 1970, por linhas retas e limpas, com faróis quadrados e para-choques integrados, de plástico – no geral, era um look mais europeu e oitentista. Ele também era um carro maior e mais espaçoso, com acabamento mais sofisticado.

Lancer I
Lancer II

Inicialmente eram oferecidos motores carburados, de 1,4 e 1,6 litro, com 80 cv e 85 cv. Mas havia muito potencial naquela base, e a Mitsubishi sabia disto.

A primeira geração do Lancer, lançada em 1973, já havia conseguido bons resultados em provas de rali no Reino Unido com a versão 1600 GSR, equipada com um motor 1.6 de 170 cv. Só nos anos 1970 foram quatro vitórias em sequência no Southern Cross Rally, no País de Gales, entre 1973 e 1976, e duas vitórias no Safari Rally, realizado em vários países da África, em 1974 e 1976.

A Mistubishi decidiu replicar, com a segunda geração do Lancer, o desempenho da primeira geração nos ralis. Por isto, em 1980, decidiu dar a ele uma versão capaz de encarar o Lancia Stratos, o Fiat 131 Abarth e o Ford Escort RS1800 – a elite do WRC naquela época.

O chamado Lancer Evolution EX 2000 Turbo foi desenvolvido pelo braço britânico da Mitsubishi – que, naquela época, operava sob a marca Colt, e também era encarregada pelos esforços da marca nos ralis. Àquela altura, o Lancer já usava uma variante turbinada de 1,8 litro do motor 4G63, chamada 4G62, que movia a versão de topo 1800GSR, que tinha apelo esportivo.

Embora tivesse bons 135 cv na versão sobrealimentada, o motor do Lancer 1800GSR não seria capaz de entregar desempenho comparável aos melhores do Mundial de Rali. O pessoal da Colt/Mitsubishi UK, então, lançou mão de um recurso já provado e consagrado: mais deslocamento para o fourbanger. Enquanto o motor 1.8 tinha diâmetro × curso de 80,6 × 88 mm, o motor 2.0 tinha 5 mm a mais no diâmetro dos cilindros. Com isto, passava de 1.795 cm³ para 1.997 cm³. A maior diferença quanto à versão mais moderna do motor 4G63 estava no cabeçote, que ainda tinha comando simples. O comando duplo só foi adotado em 1987.

Era o suficiente para que, na versão de rua, o Lancer EX 2000 Turbo tivesse 170 cv a 5.500 rpm e 25 kgfm de torque a 3.500 rpm. A redline do motor começava às 6.000 rpm. Com câmbio manual de cinco marchas, o carro era capaz de acelerar de zero a 100 km/h em 7,9 segundos, com máxima de 202 km/h.

Como especial de homologação do Grupo 4, o Lancer EX 2000 Turbo chegou às concessionárias em 1981 e foi produzido em quantidade limitada – o regulamento exigia apenas 400 exemplares por ano. E, com isto, podia ter modificações mais significativas em relação aos outros Lancer sem causar tanta preocupação com o custo. Assim, além do motor exclusivo da versão, o carro tinha outras características marcantes para separá-lo dos outros Lancer. A suspensão dianteira era do tipo MacPherson, enquanto a traseira usava um sistema de braços arrastados que garantia um controle do carro nas curvas, quase neutro, com um subesterço sutil e facilmente controlável. Os freios usavam discos ventilados na dianteira e sólidos na traseira.

A carroceria tinha alguns detalhes especiais, como um para-choque dianteiro mais volumoso e um spoiler de borracha na tampa traseira – elemento de estilo comum na década de 1980, aparecendo até mesmo no Escort XR3 brasileiro. E a Mitsubishi, apostando forte na versão de rali, chegou a oferecer como opcionais diversos esquemas de pintura e adesivagem, incluindo uma imitação da livery de competição.

O interior do carro, por sua vez, tinha revestimento de couro ou veludo, um volante de quatro raios com aro grosso e diâmetro quase grande demais, painel com conta-giros e direção assistida. O porta-malas era adequado, e o nível de conforto era maior do que o esperado de um especial de homologação para o WRC. O que era um ponto positivo, de acordo com os testes da época – bem como o visual e o desempenho.

A versão do Grupo 4 também estreou em 1981, no Rali da Acrópole, na Grécia. Com 280 cv, era um carro veloz, que mostrava-se competitivo ao enfrentar os rivais já estabelecidos, mas problemas mecânicos – em especial na embreagem e na suspensão – o impediram de terminar a maioria das etapas. No ano seguinte, um terceiro lugar no Rali da Finlândia foi seu melhor resultado.

No ano de 1983, o Lancer EX 2000 Turbo foi homologado novamente, porém para o Grupo B – a mesma categoria do Audi Quattro e do Lancia 037. E ele não se saiu bem, pois naquela altura já era evidente que os carros de tração integral, como o próprio Audi Quattro, eram superiores em desempenho.

Com resultados fracos, a Mitsubishi decidiu abortar o programa no fim de 1983, a fim de desenvolver o seu próprio protótipo 4×4 – o Mitsubishi Starion, cupê que havia acabado de ser lançado. Por isto, o EX 2000 Turbo só foi fabricado entre 1981 e 1983, apesar de a segunda geração do Lancer ter durado até 1987.

O Lancer só veio a se tornar um vencedor no WRC no início da década de 1990, com o primeiro Evo – que tinha comando duplo no cabeçote, tração nas quatro rodas e uma plataforma completamente nova. Mas esta história nós já conhecemos muito bem.