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Car Culture Zero a 300

Nada mais trivial que um Renault Espace com motor V8, nitro, tração traseira – e o piloto no meio!

Lembra quando, um bom tempo atrás, falamos sobre aquela vez em que a Renault colocou um motor V10 de Fórmula 1 em uma Renault Espace para criar a minivan mais insana da galáxia? É claro que lembra: em 1994, alguém da Renaultsport achou uma boa ideia pegar o V10 aspirado do Williams FW15C – o último dos moicanos com suspensão ativa, que conquistou o mundial de 1993 com Alain Prost ao volante –, o seu transeixo e todas as tecnologias de suspensão e freios recentemente banidas e instalar num Renault Espace. Ou melhor: um protótipo de motor central-traseiro com a silhueta da Espace. Os 312 km/h de máxima ou o 0 a 100 km/h em 2,8 s eram só o começo: a dinâmica da van estava muito mais próxima de um monoposto de competição.

Só para relembrar

Dito isto, a Espace F1 não foi a única Renault Espace do planeta a ser transformada em um monstro. Esta, caros leitores, é a Renault Espace de terceira geração que esconde um segredo: ela não é bem uma Renault Espace, e sim um Lexus LS400, com motor V8 e tração traseira, sob a carroceria de uma Espace. Quer mais? O motorista vai no centro do carro, como no McLaren F1!

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Naturalmente este é o projeto de um entusiasta, e não da própria Renault. E foi uma daquelas ideias malucas que só acontecem porque alguém tem tempo de sobra e carros demais na garagem. Tudo começou em agosto de 2012, no fórum Pistonheads, quando o usuário “Lexspace” (sugestivo, não?) postou a seguinte mensagem:

Bom, eu comprei um Lexus LS V8 4.0 (paguei £500, então que se dane) e consegui remover mais de 280 kg (!!) de acabamento interno, acabamento do porta-malas, acabamento sob o capô, outros acabamentos e coisas que eu não quero/preciso, etc, etc. Recentemente eu instalei um sistema de óxido nitroso Wizards, calibrado para um boost extra de 80-100 cv, mas o sistema é capaz de um boost de até 150 cv.

O plano é transplantar este motor em uma Renault Espace. Me digam: é loucura ou genial?

A primeira resposta foi: “Ambos. Manda ver!”

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Deixando de lado aquela história de que engine swaps só podem ser feitos quando motor e carro são da mesma marca, ou ao menos do mesmo grupo: este é o tipo de ideia que não tem como não encorajar. Especialmente considerando que o Lexus LS400, apesar de ser um carro de luxo, tem originalmente 250 cv e 36 mkgf produzidos por seu V8 aspirado. Com NOS e 100 cv a mais? É mais do que qualquer minivan tem o direito de ter.

O motor sendo testado com o nitro antes de ser instalado na minivan. Por mais que tenha sido usado em um sedã de luxo feito o Lexus LS400, o 1UZ-FE, então recém-lançado, era todo de alumínio, tinha comando duplo variável nos cabeçotes, curso de 82,5 mm e diâmetro de 87,5 mm. Ou seja: era girador e recebia muito bem o fôlego extra do NOS.

Acontece que o cofre da Renault Espace, cujo maior motor era um V6 de três litros, simplesmente não foi feito para acomodar um V8 Lexus de quatro litros. Assim, não demorou para que Lexspace decidisse mudar a abordagem: em vez de colocar o motor do sedã na minivan, ele colocaria a carroceria da minivan sobre o sedan. Simples, não?

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Na verdade não, não é nada simples. Quer dizer, por mais que a mecânica já estivesse toda “pronta”, adaptar a carroceria de uma Renault Espace sobre um Lexus LS400 foi uma tarefa hercúlea, que exigiu diversas adaptações na chapa para abrigar as entranhas do sedã japonês.

 

Para começar, há a questão crucial das medidas de entre-eixos. Na Espace, são 2.702 mm de entre-eixos, enquanto no Lexus LS400, há 2.814 mm entre os eixos – uma diferença de mais de 10 cm. As bitolas dos dois veículos, por outro lado, são bem mais próximas: cerca de 1.560 mm. Para Lexspace, foi o suficiente para pensar “cabe”!

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Para isto, ele removeu toda a carroceria do LS400 e deixou apenas o monobloco, que perdeu também a área reservada ao porta-malas. Já a carroceria teve novos arcos de roda cortados nos para-lamas traseiros e deslocados para trás para que tudo se encaixasse. Caso tivesse utilizado uma Grand Espace, as coisas seriam mais fáceis: o entre-eixos da versão longa da van é, na verdade, dois ou três centímetros maior do que o do sedã japonês.

As fotos mostram que o para-lama dianteiro também foi cortado. Com isto, ao ser montada sobre o monobloco do Lexus, a Espace ficou com uma postura muito mais baixa e agressiva. É claro que o sistema de suspensão do LS400 também deu sua contribuição para isto: o sistema independente por braços triangulares sobrepostos nas quatro rodas é naturalmente mais baixo que o McPherson na dianteira + eixo rígido com barra Panhard na traseira usado na Espace.

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Mas as modificações não acabaram por aí: por dentro, o interior seguiu depenado (Lexspace jamais considerou deixar o carro com visual original, tanto no exterior quanto o interior) e perdeu todos os sete lugares. No lugar deles, apenas um banco concha de fibra de carbono. O painel original foi adaptado com os instrumentos do Lexus em posição central. Só não ficou apertado como o cockpit do McLaren F1, mas a sensação de guiá-lo deve ser ao menos parecida. A sensação, não a experiência, claro.

Além destas fotos no tópico do fórum, Lexspace também postou alguns vídeos em seu canal no Youtube. Infelizmente a última atualização foi em 2014, quando ele arrumou uma bela maneira de explicar por que sua minivan “híbrida” precisava de um diferencial de deslizamento limitado:

O vídeo foi gravado em 2014, dois anos depois do início do projeto. Foi mais ou menos aí que Lexspace parou de atualizar seu tópico, voltando a postar novamente apenas em 2016 para dizer que estava ocupado demais para dedicar-se à sua criação. No entanto, foi por uma boa causa: ele começou a trabalhar na Ginetta, integrando a equipe de desenvolvimento do G57, protótipo LMP2 com motor V8 General Motors de 6,2 litros e câmbio sequencial X-Trac.

No ano passado, o G57 começou a ser utilizado na Britcar Dunlop Prototype Series, categoria de endurance criada para protótipos desenvolvidos e fabricados no Reino Unido. Ao menos o  projeto foi abandonado por uma boa causa, não?

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