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Car Culture

Nosso adeus a Ed Iskenderian (1921-2026)

Ed “Isky” Iskenderian, o “Camfather” acaba de nos deixar, aos 104 anos. O apelido que o acompanhou por décadas, nunca foi só um bom trocadilho: ele sintetizava sua importância na cultura hot rodder. O pai dos comandos. Faz sentido, porque antes de existir uma indústria multimilionária e global, com milhares de marcas, feiras internacionais e uma linguagem própria, o mundo da preparação de motores era feito por caras como Ed Iskenderian, mecânicos e artesãos que estavam imersos em um cenário que ainda não tinha nome, mas que décadas depois acabaria batizada como “Kustom Kulture”.

O caminho até ali começou cedo, num cenário que misturava dificuldade e oportunidade. Iskenderian nasceu no dia 10 de julho de 1921, em Cutler, na região central Califórnia. De origem armênia, seus pais trabalhavam nas vinícolas do Vale Central, mas uma sequência de geadas severas levou os Iskenderian a mudarem-se para Los Angeles quando ele ainda era bebê.

Quando Isky tinha 14 anos, por volta de 1935, ele e um amigo viram um hot rod pela primeira vez e ficaram loucos. Os garotos pegaram suas bicicletas e seguiram o carro, descobriram onde seu dono morava e começaram a enchê-lo de perguntas. Segundo o próprio Isky já disse em algumas entrevistas, o homem lhes contou sobre carburadores, taxa de compressão, comandos de válvulas, alívio de peso e outros aspectos da preparação, dando a eles uma visão geral do que era preciso para fazer um hot rod.

E ainda disse que, se quisessem ver outros carros como aquele, os meninos deveriam ir ao deserto de Mojave, a cerca de 160 km ao norte de Los Angeles. Lá ficava o lago seco de Muroc, onde os hot rodders se reuníam para disputar recordes de velocidade, e também as primeiras corridas de arrancada da história.

Semanas depois, Isky e seu amigo foram até o deserto, conversaram com os pilotos e mecânicos, viram as corridas, e voltaram para casa determinados a construir seu próprio hot rod. E foi ali que tudo começou, de verdade: a dupla comprou um Ford Modelo T por US$ 10 – o equivalente a pouco mais de US$ 230 em valores atualizados – e começaram a montar o carro. Após terminar o ensino básico, Isky foi para a Escola Politécnica de Los Angeles, onde aprendeu noções de mecânica.

Usando seus conhecimentos recém-adquiridos, Isky adaptou um sistema de comando no cabeçote no motor do Ford T usando um kit originalmente concebido para motores Chevrolet, além de dar ao carro cabeçotes com maior fluxo. Pouco depois, Isky conheceu outro Ed – Ed Winfield, que era um hot rodder experiente, especializado em preparar comandos de válvulas e virabrequins. Foi Winfield quem iniciou Isky na arte de modificar comandos, e também lhe ensinou a customizar bielas, pistões e câmaras de combustão.

Então, veio a Segunda Guerra Mundial, e Isky se alistou na Army Air Corps. Seu único interesse, porém, era cuidar dos veículos e aprender o máximo possível para levar aquilo de volta aos hot rods. O plano parecia simples demais, mas funcionou: ele voltou do conflito com uma bagagem enorme de conhecimento técnico – e com ainda mais certeza do que queria fazer.

Foi também nesse período que ele passou a testar a máquina que lhe foi apresentada pelo xará: um torno mecânico adaptado para usinar comandos de válvulas. Havia uma boa motivação para isso: depois da Segunda Guerra Mundial, os soldados que voltavam para casa, cheios de adrenalina, foram responsáveis por um verdadeiro boom de hot rods nos EUA, especialmente na Califórnia – o que, por sua vez, causou um aumento gigantesco na demanda por peças de preparação, algo com o qual a indústria ainda não estava preparada para lidar. Irritado com os prazos para entrega de suas encomendas para seu hot rod, que passavam dos cinco meses, Isky resolveu fabricar suas próprias peças.

O lendário torno de Ed Iskenderian

Não demorou para transformar o hobby em negócio. Isky começou a ser procurado por colegas hot rodders em busca de comandos mais nervosos, e logo ele percebeu que teria uma boa clientela logo de cara. Com uma forte intuição para marketing e promoção, ele comprou um anúncio na revista Hot Rod, e também começou a divulgar sua marca, a Isky Racing Cams, em camisetas e uniformes de oficina. Além disso, ele foi um dos primeiros a patrocinar pilotos de arrancada, fornecendo componentes ou mesmo dinheiro em troca de um adesivo da Isky nos carros. Ele é considerado um dos primeiros preparadores dos EUA a investir neste tipo de publicidade..

Ao longo da década de 1950, Isky foi responsável por diversas inovações. Seus comandos de válvulas foram os primeiros com revestimento de aço temperado nos cames (hard-face), os primeiros a serem desenvolvidos para operar com tuchos hidráulicos, e os primeiros a contar com o auxílio de computadores em seu desenvolvimento, a fim de definir medidas com uma precisão muito maior. Isky também foi um dos primeiros a fabricar comandos roletados.

E ele não se limitava aos comandos, embora tenham sido eles os maiores responsáveis por sua reputação. Ainda nos anos 1950, Isky foi o primeiro a chegar à almejada potência específica de 1 cv por polegada cúbica nos motores V8 “early Hemi” da Chrysler, que deslocavam 235 pol³ (3,85 litros). Nos V8 Chevrolet de 283 pol³ (4,6 litros), o número era ainda mais impressionante: 1,3 cv por polegada cúbica, ou seja, quase 370 cv.

Mas foi no início da década de 1960 que a Isky Racing Cams começou a crescer de verdade – Isky firmou um acordo com o piloto de arrancada Don Garlits, tornando-se um dos primeiros patrocinadores de uma equipe de arrancada nos EUA. Junto de Garlits, a Isky desenvolveu um dragster batizado simplesmente Don’s Speed Shop/Iskenderian Special.

Mesmo sem um nome criativo como outros dragsters da época, o carro conseguiu notoriedade ao atingir os 289 km/h em 8,36 segundos, tornando-se o dragster mais veloz do mundo por um breve período. A publicidade obtida pelo feito foi monstruosa, e Isky conseguiu se aproximar de nomes como Vic Edelbrock Jr. e Dean Moon.

Em 1963, quando Edelbrock e Moon se juntaram a outros fabricantes de peças e preparadores para fundar a SEMA, Isky foi chamado para ser o primeiro presidente da associação, ocupando o cargo até 1964.

Em 1966, a pequena oficina que Isky abriu em Culver City, a 16 km de Los Angeles, ficou mesmo pequena demais para a companhia em plena expansão. Assim, ele se mudou para Gardena, 40 km ao sul de Culver City, onde a Isky Racing Cams tem sua sede até hoje.

Ed Iskenderian nunca deixou de trabalhar – ao longo das décadas seguintes ele fez questão de acompanhar sua empresa de perto, tomando todas as decisões e trabalhando pessoalmente no desenvolvimento das peças. Os comandos de válvulas sempre foram, e continuam sendo, o forte da Isky Racing Cams, mas o catálogo da companhia também conta com trens-de-válvulas completos, molas, tuchos, rolamentos, varetas e engrenagens. E, claro, com diversos itens licenciados como camisetas, bonés e ferramentas.

Ainda que hoje a companhia seja tocada por seus dois filhos, Ron e Richard, Isky permaneceu ativo e presente até o fim. Ele morreu nesta tarde de 4 de fevereiro de 2026, aos 104 anos, deixando para trás algo maior do que uma empresa: um modo de fazer, de pensar e de vender performance que ajudou a definir o hot rodding moderno. Para muita gente, ele foi o “Henry Ford dos comandos de válvula”. Para todo mundo que cresceu lendo anúncios, ouvindo histórias e vendo “Isky” pintado na lateral de carros rápidos, ele será sempre o Camfather.