FlatOut!
Image default
Car Culture

O Audi TT V8 que deu origem ao R8

Já falei aqui no FlatOut sobre como, curiosamente, o Audi TT de primeira geração foi o carro que me fez gostar de carros. Sobre como seu design diferente de qualquer outro carro da época me fez enxergar os automóveis de outra forma – ver que, além de meios de transporte e máquinas, eles também podem ser ícones por seu aspecto mais fundamental: o design. As outras gerações mantiveram as qualidades da primeira, adicionaram potência e recursos, mas não conseguiram repetir o mesmo impacto da primeira no que diz respeito ao visual.

Ainda não é assinante do FlatOut? Considere fazê-lo: além de nos ajudar a manter o site e o nosso canal funcionando, você terá acesso a uma série de matérias exclusivas para assinantes – como conteúdos técnicoshistórias de carros e pilotosavaliações e muito mais!

 

FLATOUTER

Plano de assinatura com todos os benefícios: acesso livre a todas as edições da revista digital do FlatOut e demais matérias do site, participação no nosso grupo secreto no Facebook (fique próximo de nossa equipe!). Exponha ou anuncie até sete carros no GT40 e ainda ganhe descontos em oficinas e lojas parceiras*!

R$ 26,90 / mês

ou

Ganhe R$ 53,80 de
desconto no plano anual
(pague só 10 dos 12 meses)

*Benefícios sujeitos ao único e exclusivo critério do FlatOut, bem como a eventual disponibilidade do parceiro. Todo e qualquer benefício poderá ser alterado ou extinto, sem que seja necessário qualquer aviso prévio.

CLÁSSICO

Plano de assinatura básico. Acesse todas as edições da revista digital do FlatOut e demais matérias do site1, além de poder expor ou anunciar até três carros no GT402.

R$ 14,90 / mês

ou

Ganhe R$ 29,80 de
desconto no plano anual
(pague só 10 dos 12 meses)

1Não há convite para participar do grupo secreto do FlatOut nem há descontos em oficinas ou lojas parceiras.
2A quantidade de carros veiculados poderá ser alterada a qualquer momento pelo FlatOut, ao seu único e exclusivo critério.

Mas há outra coisa que faz do primeiro Audi TT um carro especial: ele foi o único que recebeu um motor V8 de 4,2 litros atrás dos bancos, em posição central-traseira – o que, de certa forma, faz dele um precursor do Audi R8.

O Audi TT original se valia de uma receita simples e eficaz: pegava a plataforma de um hatchback familiar e a transformava na base de algo mais exclusivo, de nicho. Assim, apesar das formas inovadoras, o layout mecânico não trazia revoluções: motor dianteiro, 1.8 turbo ou VR6 aspirado, e tração dianteira ou integral com Haldex. Qualquer coisa mais radical que isso, mais que deixá-lo mais caro e complexo, faria do TT um automóvel completamente diferente.

Mas, ao que parece, em 1998 a Audi estava mesmo disposta a usar o TT como base para um esportivo mais especializado – incluindo aí um motor V8 central-traseiro. Afinal, as proporções da bela carroceria criada pelo projetista Peter Schreyer já meio que sugeriam o motor atrás dos bancos. Capô curto, balanços quase inexistentes, entre-eixos longo em relação ao comprimento… não parece mesmo um mini supercarro?

Pois em 1998, quando o Audi TT foi lançado, o plano era ter três variantes – e não apenas o cupê e o roadster, como acabou sendo. A terceira seria justamente uma versão de motor central-traseiro, com produção limitada, criada como especial de homologação para as 24 Horas de Le Mans.

Parece viagem, mas é real. A ideia partiu de ninguém menos que o chefe de desenvolvimento da Audi na época, Ulrich Hackenberg. O projeto foi todo executado em segredo, e envolveu não apenas os engenheiros da Audi, mas também a Italdesign Giugiaro, que ficou responsável pelo desenho e pela construção do protótipo; e o piloto de testes Richard Lloyd, que atuou como consultor técnico para garantir a excelência dinâmica do projeto.

Detalhes técnicos sobre a transformação do Audi TT para esportivo de motor central-traseiro são poucos. Em essência, tudo o que se sabe sobre ele vem de uma matéria no site francês 4Legend, especializado na Audi e em outras marcas do grupo VW. Em uma das fotos, é possível ver o o conjunto mecânico sobre cavaletes:

Na dianteira, um radiador, o tanque de combustível e a suspensão, com direito a strut bar entre as torres dos amortecedores. Em frente ao eixo traseiro – que exibe orgulhosamente o sistema de suspensão por braços triangulares sobrepostos, o motor V8 de 4,2 litros e 32 válvulas, maior propulsor de que a Audi dispunha na época, usado em modelos como o o S4, o S6 e o A8. Segundo o 4Legend, o motor era acertado para render 300 cv a 6.000 rpm e 40,8 kgfm de torque. Para colocar em perspectiva, o Audi TT de primeira geração mais potente de todos era a versão com motor VR6 de 3,2 litros e 225 cv.

O mais intrigante: o motor era acoplado a uma caixa manual de seis marchas, e a tração era traseira – em um Audi dos anos 90!

A Italdesign Giugiaro ficou responsável pelo estilo do protótipo – que, apesar das entranhas de carro de competição e do caráter experimental, foi tratado como um carro completo desde o início, com acabamento caprichado, emblemas, pintura prata e todos os elementos necessários para rodar nas ruas: faróis, setas, lanternas e espaço para a placa. Mesmo que jamais tenha sido emplacado.

O que entregava a verdadeira natureza do carro eram as entradas de ar que alimentavam o coletor de admissão, uma em cada para-lama traseiro, logo à frente das caixas de roda. Mas olhos mais atentos também perceberiam que as janelas laterais traseiras davam lugar a outras duas entradas de ar, e que o capô abrigava uma saída logo acima do radiador, ajudando a extrair o ar aquecido da região.

Alguns elementos eram típicos de um carro de corrida, como os freios com discos de carbono-cerâmica, o próprio tanque de combustível selado e a strut bar na frente. E as imagens não mostram, mas o interior contava com dois bancos concha e cintos de competição.

O aspecto finalizado do protótipo indica que, em algum momento, a Audi planejava uma revelação à altura para o protótipo. Isso porque a ideia era utilizá-lo como especial de homologação para inscrever o TT na categoria GT2 das 24 Horas de Le Mans – um degrau abaixo da classe principal, onde corriam os herdeiros do Grupo C (como o Porsche 911 GT1, cuja origem remonta ao Porsche 962C) e superesportivos ultra-especializados, como o McLaren F1.

E por que não aconteceu? Ao que parece, nada teve a ver com a viabilidade de um Audi TT de motor central-traseiro, que teria ao menos 25 exemplares produzidos, mas sim com as próprias regras das 24 Horas de Le Mans. A partir de 1999, as categorias GT1 e GT2 deram lugar à LMGTP (Le Mans Grand Touring Prototype), que dispensava a necessidade de especiais de homologação e, consequentemente, dava às fabricantes e equipes mais liberdade na hora de desenvolver os carros de competição.

Resultado: sem a obrigatoriedade de vender carros para poder correr, a Audi cancelou sem cerimônia o TT de motor central-traseiro. Em seu lugar, a equipe liderada por Ulrich Hackenberg deu início à criação do Audi R8R, primeiro protótipo Le Mans moderno da marca das quatro argolas. Segundo fontes envolvidas no projeto e ouvidas pelo 4Legend, foi a melhor escolha – até por que, de acordo com o único teste em pista realizado pela Audi com o TT V8, ainda seria preciso melhorar bastante o projeto, especialmente a questão do arrefecimento do motor.

A história também se encarrega de mostrar que foi uma decisão acertada: já em 1999, o Audi R8R – cujo desenho, aliás, não esconde a influência do Audi TT – fez sua estreia nas 12 Horas de Sebring. No ano seguinte, além de vencer em Sebring, o R8R também conseguiu a primeira vitória da Audi em Le Mans. Vitória essa que foi seguida de outras dez, sendo oito delas em sequência (2000-2007).

Enquanto o Audi TT com motor V8 central traseiro foi levado ao depósito secreto da Audi em Ingolstadt, as vitórias da marca no circuito de La Sarthe ajudaram a amadurecer a ideia de um supercarro de motor central-traseiro: o Audi R8, que foi lançado em 2006 com duas opções de motor – um V10 de 5,2 litros emprestado da Lamborghini, e um V8 de 4,2 litros. Então, sim: o Audi TT com motor V8 que foi feito em 1998 pode ser encarado como precursor do R8.

Fotos: 4legend.com