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Car Culture

O dia em que Valentino Balboni teve que se esconder da polícia dentro da fábrica da Lamborghini

Um dos métodos mais confiáveis para saber se uma pessoa é foda ou não é também muito simples: a pessoa tem uma série especial limitada de algum esportivo icônico batizada com seu nome? Se sim, as chances de o indivíduo em questão ser foda (assim mesmo, em itálico para dar ênfase) são altíssimas.

Case in point: o piloto de testes Valentino Balboni. Em 2009, quando a Lamborghini decidiu dar ao Gallardo um câmbio manual com grelha para relembrar os velhos tempos, a série especial em questão foi batizada Lamborghini Gallardo LP550-2 Valentino Balboni.

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O carro foi feito em homenagem a Balboni com sua configuração favorita — manual, tração traseira. Evidentemente que a Lamborghini jamais recusaria, pois era uma ocasião especial: pouco antes do lançamento, Valentino Balboni, então com 60 anos de idade – hoje ele tem 72 – teve de se aposentar. Não por que, ao completar seis décadas de vida, Balboni deixou de estar apto ao posto, mas sim em razão das leis trabalhistas italianas.

De todo modo, o experiente piloto foi homenageado com aquela que foi uma das mais viscerais versões do supercarro: motor V10 aspirado de 550 cv a 8.000 rpm (com redline 500 rpm acima), diferencial com bloqueio de 45% para garantir aquelas derrapagens controladas matadoras, o clic-clac de metal contra metal na alavanca de câmbio, e peso aliviado em 30 kg para esbeltos – para o padrão dos supercarros, ao menos – 1.470 kg em ordem de marcha. Um Lamborghini inesquecível, que acabou sendo meio que a despedida da caixa manual nos carros de Sant’Agata Bolognese. E que me deixa a impressão de não ser exaltado o suficiente hoje em dia.

Em remédio, que tal uma pausa para um breve interlúdio sonoro?

Na época do lançamento, o LP550-2 Valentino Balboni era o segundo Lamborghini mais rápido de todos os tempos em aceleração: ia de zero a 100 km/h em 3,9 segundos – e ainda seguia aclerando até os 320 km/h.

Sabendo de tudo isso, não se deixe enganar pela cara de vovô gente boa do signore Balboni, pois sua personalidade combina muito com o carro que leva seu nome. E uma anedota sobre ele ilustra muito bem essa afirmação.

A história é contada por um conhecido do próprio: o australiano Andy Enright, do site Which Car, que em 2000 teve a felicidade poder dar uma volta no recém-lançado Diablo GT. Um carro que, por si só, já valeria algumas dezenas de linhas – uma versão limitada a 80 unidades feita para as pistas, porém legalizada para as ruas, com um V12 de seis litros e 583 cv, que parecia um carro de corrida. E roncava feito um, claro!

Balboni, obviamente, ainda era o piloto de testes chefe da Lamborghini naquela época – e Enright teve a onda de pegar uma carona com ele antes de sentar-se ao volante por conta própria. Precaução necessária e totalmente compreensível. Segundo Enright, as vielas nos arredores do QG da Lamborghini em Sant’Agata Bolognese não eram o terreno mais adequado para testar as capacidades dinâmicas do supercarro, então Balboni decidiu compensar com uma demonstração da velocidade máxima do Diablo GT.

Em dado momento, a dupla passou por uma Alfa Romeo dos carabinieri, a polícia militar da Itália. Notando a preocupação do jornalista, Balboni fez pouco caso. “Não se preocupe, eles me conhecem. Não vão nos incomodar.”

Havia um bom motivo para a cuca fresca de Balboni: ele já havia se safado de um rolo com a polícia antes – e sem esforço algum.

Enright relatou a história em março do ano passado, conforme ouviu de Matteo Ortenzi, CEO da Lamborghini para Ásia e Oceania. Na Ortenzi era chefe do departamento financeiro da fabricante – ou seja, já era um dos altos executivos. Apaziguar os ânimos entre Balboni e a polícia não era uma de suas atribuições… mas foi exatamente iso que ele teve de fazer.

“Eu estava no trabalho e Balboni apareceu na frente da fábrica de repente, e muito rápido. Ele pegou o carro, atravessou o terreno e foi até os fundos do prédio”, contou Ortenzi, sem revelar que carro era. Mas ele disse que, instantes depois, uma viatura dos carabinieri chegou, e de dentro dela saiu um policial nada feliz. Sem ninguém para lidar com a situação em seu lugar, o próprio Ortenzi se encarregou de receber o homem da lei.

O policial queria saber onde estava Balboni e queria falar com ele naquele exato momento. Ortenzi deu de ombros e, sem saber do que se tratava, deu uma resposta evasiva. “Acho que ele não veio trabalhar hoje” ou algo assim.

Claro que o policial não acreditou – e tinha bons motivos, pois ele havia seguido Balboni até a sede da Lamborghini. Minutos antes, o guarda havia visto com seus próprios olhos o piloto de testes “ultrapassar uma fila enorme de carros a 200 km/h”, e passar pela viatura logo depois. Segundo o relato de Ortenzi, o policial estava exaltado e gritou “EU VI O SIGNORE BALBONI!”

Em 2021, a situação teria facilmente se transformado em notícia no mesmo dia. Haveria vídeos nos stories do Instagram e notas na Internet – e arrisco dizer que Valentino Balboni certamente teria de se apresentar para esclarecimentos, sob escrutínio de milhares de pares de olhos.

Vinte-e-poucos anos atrás, porém, ainda havia uma distinção grande entre o mundo real e o reino encantado da Internet. Sem medo de repercussão negativa, Ortenzi sustentou que não sabia onde Balboni estava, que provavelmente havia faltado e que o próprio Ortenzi tinha mais o que fazer. Afinal, ele era o chefe do financeiro, e não o supervisor de seu rebelde piloto de testes. Então, após alguma insistência, o chefe de polícia se conformou e foi embora. Irritadíssimo, provavelmente. E Balboni seguiu com sua vida – gosto de imaginar que com um sorriso de satisfação no rosto. E, pelo que conta Andy Enright, sem qualquer pudor de desafiar as autoridades depois.

Esse sorrisinho malandro não esconde…

Em nenhum momento estou glamurizando excessos como o de Balboni – e muito menos dizendo que ele estava certo. O próprio Ortenzi disse a Enright que, se acontecesse hoje em dia, dificilmente o signore Valentino passaria incólume pelo ocorrido. Os tempos são outros e os carros são outros. É preciso manter-se nos trilhos, sob o risco de ter que encarar as penas da lei e a opinião pública.

E eu tenho a leve impressão de que se o carro usado por Balboni fosse um Lamborghini moderno, com câmbio de dupla embreagem, tração integral e miríades de assistências eletrônicas – das quais, diferentemente de pobres mortais como eu ou você, Balboni provavelmente não precisaria – ele talvez sequer tivesse vontade de pisar fundo daquele jeito.

Te faz lembrar que não foram só os carros que mudaram.

Uma última observação: é um alívio poder falar tudo isso e saber que Balboni ainda está entre nós – não precisamos dizer que ele “era” uma lenda. É como dizem: homenagem se faz em vida.