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História

O esportivo que a gente amava: uma breve história do Lotus Esprit

“Simplifique e adicione leveza” é o mantra repetido à exaustão por uma legião de entusiastas, que vêem na frase cunhada por Colin Chapman, fundador da Lotus, uma das maiores verdades do mundo automotivo. E, por mais que a gente goste motores monstruosos e potentes, não há como discordar deles. Mas será que dá para equilibrar as duas coisas? Sim, e a resposta está no Lotus Esprit, que deixou de ser produzido há dez anos.

Em 2014 faz 10 anos que o Lotus Esprit deixou de ser fabricado. O que é impressionante, visto que o esportivo foi lançado em 1976, e manteve as mesmas formas básicas ao longo de quase 30 anos. Porém, se no início ele era um carro que primava pela leveza complementada por um motor esperto, no fim de sua carreira o Esprit usava um V8 de 350 cv e, mesmo defasado, nutria uma base de fãs que não o trocariam nem pelo que havia de mais avançado no mundo. Vamos contar a história do Lotus Esprit a partir de agora.

Gênese

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O Esprit surgiu em 1972 como um conceito projetado pelo designer Giorgetto Giugiaro. Apresentado no Salão de Turim daquele ano, o conceito batizado simplesmente de “Silver Car” era um dos primeiros a apresentar o novo estilo de Giugiaro, com linhas retas, cantos vivos e o perfil em forma de cunha que acompanharia o trabalho do designer por anos.

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Lotus Europa

O conceito usava a plataforma esticada de outro Lotus clássico, o Europa — famoso pela “corcunda” na parte traseira que abrigava o motor. A estrutura era a mesma de todos os outros carros da marca desde a década de 60: um chassi do tipo backbone, ou “espinha dorsal”, sob uma carroceria de fibra de vidro. Meses depois, o mesmo conceito foi apresentado no Salão de Genebra, já com seu nome definitivo: Esprit, que significa “espírito” em francês, dando sequência à tradição de dar at dos os carros nomes iniciados com a letra “E”. Giugiaro queria que seu nome fosse Kiwi — e, com todo respeito ao gênio, ainda bem que ninguém lhe deu ouvidos.

Duplamente aprovado pelo público e pelos dirigentes da marca, o conceito foi logo encaminhado para a sede da Lotus, em Hethel, na Inglaterra, para que fosse desenvolvida a versão de produção. Em outubro 1975 o Lotus Esprit foi apresentado no Salão de Paris. Era praticamente idêntico ao conceito de 1972, e foi o grande destaque daquele Salão.

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O cupê de dois lugares com motor central traseiro tinha a pretensão de competir com superesportivos mais caros e potentes, e suas armas eram um motor 2.0 de quatro cilindros, 16 válvulas, comando duplo no cabeçote e 162 cv, e o baixo peso — 1.100 kg. Para comparar, o primeiro Lamborghini Countach tinha um V12 de quatro litros e 375 cv, e pesava 1.300 kg.

Por estas características, o Esprit logo chamou a atenção de entusiastas no mundo todo — com ressalvas para os EUA, onde o motor tinha menos potência para se adequar às regras para emissão de poluentes e, por isso, era considerado fraco demais para um esportivo. De fato, os números de 0 a 100 km/h e velocidade máxima pareciam meio otimistas: ainda que a fábrica anunciasse, respectivamente, pouco mais de seis segundos e 222 km/h, testes da imprensa na época revelavam figuras na casa dos oito segundos e 210 km/h.

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A primeira geração do Esprit ficou famosa por aparecer no filme “007: O Espião Que Me Amava”, estrelado por Roger Moore. O carro do filme era capaz de se transformar em um submarino ,e foi vendido recentemente para Elon Musk, CEO da Tesla, que pretende colocar um motor elétrico nele e transformá-lo em um carro de rua.

Herói da resistência

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Parecia loucura fazer um supercarro com um quatro-cilindros aspirado e menos de 200 cv, mas Colin Chapman era irredutível, e a adoção de um novo motor estava fora de cogitação. Em vez disso, Chapman preferiu concentrar seus esforços em melhorar os detalhes: sistemas de admissão e escape aperfeiçoados, rodas Speedline maiores, pequenas alterações aerodinâmicas e um interior mais confortável eram as novidades para 1978, na chamada Series 2, ou simplesmente S2. Em 1979, foi lançada a edição limitada John Player Special, em alusão ao título da equipe Lotus de Formula 1 no ano anterior.

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Ainda considerado fraco de mais por boa parte do público, o Lotus Esprit recebeu um aumento de cilindrada para 1980. O motor, agora deslocando 2,2 litros. A potência ainda era de 160 cv, mas o torque crescia de 19,3 mkgf para 22 mkgf. Denominado S2.2, o Esprit passou a acelerar de zero a 100 km/h em 7,3 segundos. Outra melhoria era o chassi de aço galvanizado, aumentado a resistência à corrosão. Foram produzidos apenas 88 carros ao longo de treze meses, porque a resistência ao aumento de potência estava com os dias contados.

Respirando melhor

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Naquele mesmo 1980, outra edição especial saía do forno: o Lotus Essex Turbo Esprit, homenagem ao patrocinador da Lotus F1 Essex Petroleum, trazia pintura azul com uma faixa nas cores da Essex. A série serviu para introduzir o novo motor turbinado do Esprit, com cárter seco, capaz de desenvolver 210 cv e 26,8 mkgf de torque. Finalmente o desempenho do motor se alinhava à disposição para curvas do Esprit, acelerando de 0 a 100 km/h em 5,5 segundos.

Foram feitas 45 unidades do Essex Turbo Esprit, que traziam um kit aerodinâmico especial projetado por Giugiaro e incluía um spoiler dianteiro, persiana sobre o vidro traseiro e um aerofólio na traseira. Apesar de manter o visual básico, o Turbo Esprit era melhor construído, mais rígido e tinha freios melhores, além de um interior mais confortável.

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Depois dos 45 carros com a pintura Essex, a Lotus passou a fabricá-los sem as cores do patrocinador, mas com exatamente as mesmas especificações.

Um desses Essex também foi o segundo Lotus Esprit a aparecer em um filme de James Bond — na verdade, dois: um branco e um vermelho, mas ambos “interpretavam” o mesmo carro em “007 — Somente Para Seus Olhos”, novamente com Roger Moore no papel do espião. Este carro é bem menos famoso do que o Esprit submarino.

Paralelamente, o Esprit de aspiração natural continuava em linha, aperfeiçoado e batizado de S3. Se o motor era o mesmo, os outros sistemas do carro recebiam as mesmas melhorias do Turbo, com estrutura mais rígida, freios melhores, pneus mais largos e rodas de 15 polegadas. Depois do lançamento do S3, em 1981, o Esprit não sofreria alterações significativas até 1985.

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Naquele ano, a Lotus encontrou uma solução para o problema do turbo lag — o atraso na atuação do turbocompressor que compromete o desempenho em baixas rotações: aumentar a taxa de compressão do motor, que ganhou 5 cv, totalizando 215 cv, e teve o torque aumentado para 30,4 mkgf. A mesma mudança foi empregada ao  motor aspirado, cuja potência passou de 160 cv para 172 cv — e finalmente o tempo de 0 a 100 km/h chegava à casa dos seis segundos, com a máxima de 222 km/h prometida na época do lançamento. A taxa de compressão mais alta rendeu até um sobrenome para o carro, que agora se chamava Lotus Esprit HC, de High Compression.

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Nos EUA o motor também recebeu um sistema de injeção Bosch para se adequar às leis de emissão de poluentes. A potência era a mesma do modelo carburado, mas o torque era menor — 27,9 mkgf. O modelo injetado se chamava Esprit HCi.

Adicione potência

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Em 1987 o Esprit sofreu uma grande reformulação. Peter Stevens, que anos mais tarde projetou o McLaren F1, foi contratado para modernizar o carro de Giugiaro. Sabiamente, Stevens manteve boa parte dos elementos de design do italiano, porém com elementos arredontados, que, surpreendentemente, funcionaram muito em no Esprit e conseguiram deixá-lo contemporâneo sem parecer forçado.

A transformação, porém, não foi apenas visual: o Esprit foi todo renovado por dentro, ficando mais espaçoso, e recebeu um sistema elétrico reformulado. O teto e as laterais receberam reforços estruturais em Kevlar, tornando o carro mais seguro em caso de capotamento e aumentando a rigidez à torção em 22%. A partir daí também ficou claro que apenas leveza e comportamento dinâmico não seriam capazes de manter o Esprit na briga dos supercarros, e por isso a Lotus começou a dar mais atenção ao quesito potência.

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A versão turbinada passou a se chamar Esprit Turbo em vez de Turbo Esprit, ganhou 228 cv, e passou a acelerar de 0 a 100 km/h em 5,5 segundos. O câmbio manual de cinco marchas, antes de origem Citroën, foi substituído por uma transmissão Renault, também de cinco marchas, porém mais resistente.

Nesta época, a Lotus foi adquirida pela General Motors, que lançou em 1988 uma versão comemorativa de 40 anos da marca inglesa — embora a fundação oficial da companhia fosse acontecer apenas em 1992, em 1948 Colin Chapman construiu seu primeiro carro, o Lotus Mk I, com carroceria de alumínio sobre um chassi de madeira. Eram 40 unidades do Lotus Esprit Turbo pintadas na cor branco pérola com interior azul.

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Quem quisesse algo mais potente partiria para o Esprit SE (Special Equipment), que recebia um intercooler (que a Lotus chamava de Chargecooler) e um aumento na potência para 264 cv e no torque para 36,9 mkg, com 280 cv disponíveis no modo overboost. A velocidade máxima superava os 260 km/h, enquanto o 0 a 100 km/h levava 4,7 segundos. 

Em 1990, a Lotus lançou o Esprit X180R. Alusivo à participação do carro no Bridgestone Supercar Championship da IMSA, o X180R era basicamente uma versão de rua dos carros usados na competição e trazia gaiola de proteção e novos componentes aerodinâmico. Foram produzidas 20 cópias, e a última delas foi vendida apenas em 1996.

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Mas o melhor ficou para o final: em 1993, a Lotus lançou o Esprit Sport 300. Tratava-se de uma evolução do X180R que foi oferecida apenas na Europa. O motor 2.2 turbo produzia 300 cv, conseguidos com modificações que incluíam maior pressão no turbo, ECU recalibrada e coletor e válvulas de admissão maiores. O Sport 300 tinha maior potência específica em carros produzidos em série até então: 138 cv/l. Mas a potência não era única coisa que o tornava especial. O Sport 300 era 11 kg mais leve, tinha para-lamas alargados, chassi reforçado, gaiola de proteção, suspensão retrabalhada e rodas O.Z. de 16 polegadas calçadas em pneus 245/45, além de interior forrado com Alcantara. Também era uma edição limitada, com apenas 64 cópias feitas.

Duplicando os cilindros

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Àquela altura, o Esprit já se aproximava dos 20 anos de idade.  Em 1993 o carro sofreu sua última grande reformulação, cujo design ficou a cargo de Julian Thompson — o cara que, mais tarde, desenharia o Lotus Elise. O Esprit ganhou novos para-choques, saias laterais e spoiler traseiro, que migrou para o centro do vidro, além de rodas de 17 polegadas. Em termos de segurança, pela primeira vez o Esprit oferecia airbags e direção assistida.

Aumento de potência, porém, só viria no ano seguinte, com o advento do Esprit S4s. O motor de 300 cv passava a ser de série, acelerando de 0 a 96 km/h em 4,6 segundos com máxima de 265 km/h. O aerofólio na traseira era igual ao do Sport 300. Os pneus eram de medidas 285/35 e a suspensão era mais firme. Estes fatores, somados ao peso de 1.300 kg, fazem dele o Esprit de melhor desempenho, tanto em velocidade quanto em dinâmica, graças a seu conjunto equilibrado.

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A maior de todas as novidades, porém veio em 1996. Naquela época a Lotus tinha um motor V8 pronto para ser colocado em um carro de motor dianteiro (um grand tourer, talvez?). Contudo, o projeto foi cancelado — para a sorte dos fãs do Lotus Esprit.

O S4 seria a última geração do Esprit, que sempre foi alvo de críticas por parte da imprensa por não oferecer uma variante com motor “grande”. Com o V8 pronto e sem carro para utilizá-lo, a Lotus resolveu dar uma sobrevida ao Esprit usando o novo motor.

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Desenvolvido a partir de dois quatro-cilindros, o V8 de 3,5 litros entregava 350 cv e 40,8 mkgf de torque —  a Lotus o tinha feito para entregar até 500 cv, mas a potência foi reduzida para preservar o câmbio. O Esprit V8, lançado no Salão de Genebra em 1996. Capaz de chegar aos 100 km/h em 4,8 segundos e continuar acelerando até os 282 km/h, era um carro digno para marcar os 20 anos do lançamento do Esprit.

O Esprit V8 estava disponível em duas versões, SE e GT. Ambas entregavam desempenho semelhante, porém a primeira tinha mais itens de conforto, como ar-condicionado, sistema de som e bancos de couro, enquanto o GT tinha um apelo mais racing, sem estes itens e pesando 50 kg a menos.

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Com o V8 ocupando o posto de alto desempenho, sobrou ao quatro-cilindros a posição de entrada na gama. Com dois litros e 240 cv, o Esprit GT3 ia de 0 a 100 km/h em pouco mais de cinco segundos, com velocidade máxima de 263 km/h. Este teve vida curta, sendo descontinuado em 1999 por não atender às normas para emissão de poluentes.

Curvas finais

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Em 1999 foi lançado o mais rápido Esprit de todos: o Sport 350. Apesar de manter a mesma potência, o carro empregava materiais exóticos na época, como fibra de carbono no aerofólio e rodas de magnésio, e itens de competição como freios e pesava 80 kg a menos do que o V8 normal. Cada uma das 50 unidades numeradas era capaz de chegar aos 100 km/h em menos de 4,5 segundos, e aos 160 km/h em 10,1 segundos.

Nos anos seguintes, o Esprit permaneceu praticamente inalterado. Apesar das mudanças mecânicas ao longo de quase três décadas, o Esprit já sentia o peso dos anos — é só olhar para as portas, idênticas do início ao fim de sua produção. Ainda que o Esprit fosse adorado por entusiastas no mundo todo, a Lotus passou a se focar em seus esportivos menores, como o Elise, que havia sido lançado em 1996 e chegou à sua segunda geração em 2001.

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As leis para emissão de poluentes estavam cada vez mais rigorosas, e a Renault anunciou em 2003 o fim da produção do câmbio usado no Esprit. Era a deixa que a Lotus esperava para encerrar a produção de seu esportivo depois de 27 anos ininterruptos sobre a mesma base.

Em 2010, sob o comando do infame Dany Bahar, foi apresentado um conceito que pouco tinha de Esprit além do nome, e que teve seu projeto cancelado assim que Bahar foi expulso da companhia.

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Esperamos que, se a Lotus resolver criar um novo Esprit, ele seja digno de tomar para si o legado deste clássico britânico.