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Automobilismo

O guia completo dos carros de rua de Ayrton Senna

Hoje é 1º de maio de 2019. Não é apenas o Dia do Trabalho, mas também uma data marcante para muitos entusiastas: neste dia, completam-se 25 anos da morte de Ayrton Senna. Um quarto de século.

Há quem diga que se lembra exatamente do que estava fazendo naquele domingo de 1994, quando foi divulgada a morte do tricampeão. Senna perdeu o controle do carro no circuito de Imola, na Itália. O carro se chocou de frente com o muro da Tamburello e Senna não resistiu aos ferimentos.

As circunstânciasexatas da morte do ídolo, na verdade, jamais foram completamente esclarecidas. Mas uma coisa é certa: quando Ayrton Senna morreu, parte da Fórmula 1, do esporte a motor em geral, e dos fãs brasileiros do automobilismo “morreram” junto com ele.

É fácil lembrar de Ayrton Senna por todas as suas conquistas na Fórmula 1 – os três títulos, as voltas perfeitas em Mônaco, as ultrapassagens absurdas que ele colecionou durante a carreira.

Mas hoje, tanto tempo depois, quando todos os seus feitos do piloto Ayrton Senna já foram contados e recontados inúmeras vezes, nos parece mais interessante lembrar da pessoa Ayrton Senna. O cara que, como qualquer um de nós, gostava de carros, tinha seus esportivos favoritos e aproveitava qualquer oportunidade que tinha para dar umas esticadas.

Quando não estava pilotando, fosse pela Toleman, pela Lotus, pela McLaren ou pela Williams, Senna estava curtindo algum de seus carros – fosse um presente de algum patrocinador ou amigo, fosse algo que ele mesmo havia escolhido. Para lembrá-lo nesta data, compilamos aqui um guia com todos os carros que Ayrton Senna teve depois de se tornar piloto profissional.

Em vez de falar de sua morte, vamos lembrar do que tornava Ayrton Senna muito mais próximo de todos nós: seu ótimo gosto para carros.

 

Escort XR3

A relação de Ayrton Senna com a Ford começou cedo quando, no início dos anos 80, ele competiu na Fórmula Ford 2000, conquistando os títulos do Campeonato Britânico e do Campeonato Europeu em 1982.

A Ford do Brasil, na época, aproveitou o sucesso do jovem Ayrton para contratá-lo como garoto propaganda do Corcel II à álcool, em 1983. Na peça, Senna dizia que, no Brasil, dirigia um Corcel II a álcool e que estava muito satisfeito com a economia do carro.

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No ano seguinte, porém, Senna ajudou a vender algo que combinava mais com ele: o recém-lançado modelo esportivo da Ford: o Escort XR3 que, com motor de 1,6 litro e 83 cv, rodas de 14 polegadas, faróis auxiliares e aerofólio, se tornou um dos carros mais desejados pela juventude.

Naquele mesmo ano, Senna teve um XR3 prata (provavelmente um presente da Ford) e, em outra ocasião, foi fotografado saindo de um XR3 vermelho.

 

Mercedes-Benz

Ainda em 1984, o circuito de Fórmula 1 de Nürburgring — baseado em partes do antigo traçado do Südschleife — ficou pronto para receber corridas de Fórmula 1 e foi inaugurado com uma corrida promocional realizada pela Mercedes-Benz, que também aproveitou para divulgar o 190E 2.3-Cosworth, seu especial de homologação para o Campeonato Alemão de Carros de Turismo, o DTM.

Como já contamos aqui no FlatOut, a corrida foi disputada por diversos pilotos de renome da Fórmula 1, incluindo nove campeões (Jack Brabham, Phil Hill, John Surtees, Denny Hulme, Niki Lauda, James Hunt, Jody Scheckter, Alan Jones e Keke Rosberg)  e jovens promissores como Ayrton Senna, que estreava naquele ano pela Toleman. Senna venceu a corrida e, como prêmio, levou para sua casa na Inglaterra um 190E Cossie novinho em folha. Segundo relatos da época, Senna gostou muito do carro e o usou com frequência em seus primeiros anos na F1.

Senna ainda teria sido dono de outros Mercedes: há uma foto do brasileiro ao lado de um 500SEC, tirada no Reino Unido ainda nos anos 1980; e um conversível SL600 – com um V12 de 390 cv – que foi comprado por Ayrton Senna no início dos anos 1990, ficou exposto por algum tempo no antigo Museu da Ulbra, no Rio Grande do Sul. Consta que Senna também teve um SL600 branco, que ficava em Mônaco.

De acordo com o Estadão, o irmão de Ayrton, Leonardo Senna, conta que o piloto também tinha uma perua Mercedes 300TE no Brasil, na virada da década de 1990 – que se pode ver neste vídeo, bem como uma Honda Sahara (vamos falar sobre as motos de Senna mais adiante).

 

Honda NSX

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Não é segredo algum que Senna participou do desenvolvimento do Honda NSX. Há quem diga que o piloto brasileiro foi crucial no aperfeiçoamento das qualidades dinâmicas do carro, enquanto outros acreditam que não passaram de palpites no acerto da suspensão de um dos modelos de pré-produção. É indiscutível, porém, a intimidade que Senna tinha com o esportivo, como demonstrado no famoso vídeo onde o brasileiro testa o NSX Type-R em Suzuka.

Ayrton e a Honda eram bastante próximos, visto que a Honda começou a fornecer motores para a McLaren na Fórmula 1 em 1988, exato ano em que Senna foi contratado pela equipe britânica. Por isso, Senna ganhou da fabricante um NSX vermelho, com placa SX-25-59, que ficava em sua casa em Portugal. É o carro mais famoso, e Senna foi fotografado com ele várias vezes.

 

Contudo, Senna tinha outros dois NSX. O primeiro, preto com interior de couro preto, foi encomendado pelo piloto no Brasil e foi registrado com a placa “BSS-8888”, de “Beco Senna da Silva, campeão de 1988”, em um referência ao apelido de Ayrton, “Beco”.

 

O outro, idêntico ao carro preto que tinha no Brasil, foi lhe dado de presente pelo empresário, amigo e mentor Antonio Carlos de Almeida Braga, mais conhecido como Braguinha, para que Senna o utilizasse quando ficasse hospedado em sua propriedade em Sintra, a cerca de 15 km do Autódromo do Estoril.

Hoje em dia, estes dois pertencem a colecionadores do Reino Unido – e os ambos, coincidentemente, foram comprados em 2014. O atual dono do NSX vermelho até documentou em seu site, dedicado a Ayrton Senna, a compra do carro em Portugal e a viagem que fez com ele até sua casa na Inglaterra.

E aproveitou para dar uma olhada de perto no carro preto e fotografar, juntos, dois dos três NSX que Senna teve.

 

Porsche 911 e 944

Aparentemente, Braguinha já havia presenteado Senna com outro carro antes do NSX: em 1987, ele deu ao piloto com um Porsche 911 Carrera Cabriolet 3.2 (equipado com um flat-6 de 3,2 litros e 207 cv), na cor prata. Ao contrário do NSX, porém, o Porsche ficava no Brasil e era usado por Senna de vez em quando

Ao longo dos anos, o Porsche trocou de mãos algumas vezes até ser comprado por um colecionador português na virada da década de 2010. À esta altura, algum dos antigos proprietários o havia pintado o carro de amarelo para homenagear seu ilustre dono. De acordo com a edição de junho de 2011 da revista Porsche&PW, o carro seria restaurado e voltaria a sua cor original em pouco tempo.

Ayrton Senna também teve um Porsche 944 S2 1990, com o qual foi fotografado ao menos uma vez:

Ao que parece, atualmente este carro está em uma loja de usados em Lisboa. De acordo com a descrição do anúncio, o Porsche foi dado de presente a Ayrton durante a semana do Grande Prêmio do Estoril naquele ano.

O 944, até o momento, está anunciado por € 42.500, o que dá cerca de R$ 186.000 em conversão direta.

 

Audi S4 Avant

O envolvimento de Senna com a Audi foi além da admiração pelos carros da marca. Por 11 anos, de 1994 a 2005, a Senna Imports foi responsável pela atuação da marca de Ingolstadt no Brasil. O acordo foi formalizado em 1993 e as importações dos veículos da Audi para o Brasil começaram em março do ano seguinte.

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Senna morreu no dia 1º de maio de 1994, mas ainda teve tempo de usufruir de um dos primeiros carros que vieram para o Brasil através de sua empresa: uma S4 Avant 1994, equipada com V8 de 4,2 litros e 280 cv, câmbio manual e tração integral quattro.

O carro, que tem pouco menos de 5.000 km rodados, atualmente fica exposto no Audi Lounge, em São Paulo, mas dá suas saídas ocasionais para não ficar fora de forma – incluindo um especial no programa Acelerados, feito em 2015 para comemorar o aniversário de 55 anos de Senna e traz Rubens Barrichello ao volante da super perua.

 

Outros carros… e algumas motos

Existem, ainda, outras histórias envolvendo os carros de Ayrton Senna. Wagner Gonzalez, um dos colunistas do excelente Autoentusiastas, conta que seu primeiro carro quando morou na Inglaterra foi um Alfa Romeo Alfasud 1500Ti que pertenceu a Chico Serra e Ayrton Senna. No vídeo do primeiro treino de Ayrton Senna na Fórmula 1, em Donington Park, no ano de 1983, podemos ver Ayrton dirigindo o Alfa.

Depois de passar pela Toleman em 1984 e ser contratado pela Lotus em 1985, Senna conseguiu trocar o Alfasud por um Escort XR3 – o modelo britânico, com motor 1.6 CVH, mais potente que o nosso CHT. Na época, Senna rachava o aluguel de uma casa na região de Norwich com o colega Maurício Gugelmin, que disputava a Fórmula 3000, e os dois pilotos dividiam também os carros.

Senna também teve um Gol GTI 1988 no Brasil, um presente pelos patrocinadores do Banco Nacional. Conforme conta o Autoentusiastas, o exemplar a ser entregue ao piloto foi escolhido a dedo pelo pessoal da fábrica da Volkswagen, em Taubaté, para garantir construção e acabamento perfeitos. A VW até selecionou o melhor conjunto de motor e câmbio disponível na linha de montagem para instalar no carro.

Para realizar o serviço, o GTi foi levado até a Ala Zero, oficina de fábrica da VW, e colocado em um elevador para ter o conjunto mecânico removido. Então, um imprevisto aconteceu: com o cofre vazio e os pneus dianteiros no porta-malas, o Gol desequilibrou-se e despencou do elevador, caindo no chão sobre o próprio teto. Foi declarada a perda total do carro, e fez-se necessário escolher outro exemplar para dar a Senna. Não há imagens deste carro, ao que tudo indica – a foto acima, divulgada pela Volkswagen na época, mostra um Gol GTS (repare no emblema na coluna “B”). Segundo informações do blog Ayrton Senna Vive, é provável que a foto tenha sido tirada em 1987, durante o lançamento do Gol GTS.

O mesmo blog apurou que, em 1991, Senna comprou um Mitsubishi 3000 GT de uma importadora em São Paulo. O carro movido por um V6 biturbo de três litros e 280 cv, havia sido lançado no ano anterior. Acima, a nota no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, publicada em 25 de abril de 1991.

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Além disso, a apresentadora Adriane Galisteu, que foi namorada de Ayrton Senna por um ano e meio – até sua morte, em 1994 – ganhou dele, como presente, um Uno Mille Electronic 1993 zero-quilômetro. Ela conta, em seu livro “Caminho das Borboletas – Meus 405 Dias ao Lado de Ayrton Senna”, que queria comprar um Uno usado, mas Senna decidiu surpreendê-la com um carro novo e entregando-o a ela com flores no capô e a placa “DRI-7770”.

Falando em Adriane Galisteu, o vídeo abaixo mostra ela e Senna passeando pelas ruas de Mônaco com um Audi 80 conversível, em 1993, na semana do Grande Prêmio daquele ano – o último que Ayrton disputou em seu autódromo favorito.

Na foto abaixo, Senna e Adriane estão em Tatuí em um buggy da BRM, empresa fundada em 1969 para montar buggies de outras fabricantes, como Bugre e Glaspac, antes de produzir seus próprios modelos a partir de 1973.

Agora, além dos carros, Ayrton Senna também era fã de motocicletas. Ele já foi fotografado algumas vezes montado em scooters, pois elas eram um meio de transporte mais prático durante os finais de semana de corrida e, nos anos de McLaren, aproveitou para conhecer melhor alguns modelos da Honda, como a off-road NX150 e a esportiva CBR600F – com esta última, posando para uma foto claramente desconfortável na garupa de Alain Prost…

Mas foi com a Ducati que Ayrton Senna entrou de cabeça no mundo das motos. Ele era um grande admirador da lendária fabricante italiana, e não só teve alguns modelos diferentes, como a M900 e 851 Desmo, mas também construiu uma boa relação com a marca – para o que contribuiu o fato de Claudio Castiglioni, dono da fabricante na época, ser amigo próximo do piloto.

Na verdade, era uma relação tão boa que Ayrton Senna foi convidado para dar consultoria no desenvolvimento de um novo modelo, a Ducati 916. Senna atuou como piloto de testes, e ajudou a afinar o motor e a suspensão da moto – além de colaborar na escolha das cores do catálogo. Tragicamente, a Ducati 916 foi aprovada para produção pouco tempo antes da morte de Ayrton, que não teve a chance de pilotar uma.

Como homenagem a Senna, a Ducati mostrou ao público já em 1995 a 916 Senna, com o sobrenome do piloto adesivado na carenagem e amortecedores Öhlins. O modelo foi vendido novamente em 1998 e 2001 e, a cada reedição, parte dos lucros era revertida ao Instituto Ayrton Senna.

Em 2014, a Ducati tornou a lembrar sua associação com o piloto e apresentou a 1199 Panigale S Senna,  com visual inspirado pela 916, movida por um motor bicilíndrico de 1198 cc e 195 cv.