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Car Culture

O lado entusiasta da “trend do Studio Ghibli”

Nos últimos dias a internet foi dominada pelas trend das imagens de IA inspiradas pelas animações do Studio Ghibli, um dos principais estúdios do Japão, conhecido pelos clássicos modernos “Meu Amigo Totoro” e “A Viagem de Chihiro”. A tendência, claro, foi embalada pela tanto pela qualidade artística do estúdio quanto pela capacidade assombrosa — e um tanto preocupante — da inteligência artificial em reproduzir um estilo tão característico.

Isso, porque os traços do Studio Ghibli, embora ainda claramente identificáveis como de origem japonesa, têm elementos mais ocidentalizados, como os olhos menores, cores vibrantes em primeiro plano com tonalidades mais sutis ao fundo e com a presença de elementos naturais nas cenas. Os quadros são desenhados e pintados a mão e a computação gráfica é meramente assistiva, e não fundamental como na Inteligência Artificial – daí a polêmica sobre o uso das imagens originais como elemento gerador de algo artificial. O próprio fundador do estúdio, o ilustrador e cineasta Hayao Miyazaki, disse em 2016 que a criação de arte por IA era “um insulto à própria vida”.

Polêmicas à parte, outra característica marcante das animações do Studio Ghibli é a fidelidade com a qual Miyazaki e sua equipe reproduzem os veículos reais nas animações. Em “A Viagem de Chihiro”, de 2001, por exemplo, a família da protagonista viaja em um Audi A4 B5, que é retratado desta forma:

A explicação para o cuidado ao detalhar os carros em suas animações tem uma explicação: Miyazaki tem um Citroën 2CV, o qual usou diariamente por muito tempo, e serviu de inspiração para muitas de suas animações. Não somente o automóvel em si, mas os passeios que fez a bordo do minicarro francês, como veremos mais adiante. Para Miyazaki, o pequeno francês não era apenas um meio de transporte, mas uma extensão de sua visão de mundo — um reflexo da nostalgia, da simplicidade e da resistência contra o avanço desenfreado da modernidade.

Miyazaki comprou seu primeiro Citroën 2CV nos anos 1960, quando ainda era um estudante universitário, e desde então nunca mais abandonou o modelo. Ele teve diferentes versões do carro por mais de 40 anos e chegou a afirmar: “Eu amo esse carro. Com ele, tremo de frio no inverno e morro de calor no verão.”

Embora pareça uma crítica, a citação resume o espírito do 2CV e o motivo pelo qual Miyazaki gostava tanto dele. O 2CV, sem luxo nem tecnologia avançada, era um carro projetado para atender às necessidades básicas de locomoção, sem frescuras. E, de certa forma, essa simplicidade extrema se conecta diretamente com os temas de seus filmes: uma valorização do essencial e uma resistência ao consumo desenfreado.

Lançado em 1948, o Citroën 2CV nasceu como um carro de baixo custo para o povo francês do pós-guerra. Com um motor bicilíndrico refrigerado a ar, suspensão macia de curso longo e um design minimalista, ele foi criado para ser leve, econômico e incrivelmente funcional. A simplicidade de sua engenharia, que permitia fácil manutenção e baixo consumo de combustível, fazia dele um carro acessível e confiável. Seu comportamento dinâmico peculiar — com uma rolagem insana da carroceria completamente controlada pelo criativo sistema de suspensão com molas longitudinais e braços arrastados/empurrados, tornava a experiência ao volante divertida, especialmente em estradas sinuosas.

Não à toa, Miyazaki levou sua paixão pelo 2CV para suas animações. Em O Castelo de Cagliostro (1979), seu primeiro longa-metragem como diretor, um Citroën 2CV aparece em uma das cenas mais icônicas do filme. No início da trama, a princesa Clarisse foge de um Fiat 500 dirigindo um 2CV, que pula barrancos, atravessa curvas fechadas e desafia a gravidade em uma perseguição espetacular. A cena captura perfeitamente o espírito do carro: ágil, resiliente e um pouco desajeitado, mas sempre pronto para qualquer desafio. Essa sequência não foi uma escolha aleatória—Miyazaki desenhou cada detalhe inspirado em sua própria experiência ao volante de um 2CV, trazendo autenticidade à animação.

O carinho de Miyazaki pelo Citroën 2CV vai além da nostalgia. O carro representa uma filosofia de vida: a valorização da simplicidade, a conexão com a mecânica pura e uma rejeição ao excesso de tecnologia e sofisticação desnecessária. Em um mundo onde os automóveis estão cada vez mais carregados de eletrônicos e design agressivo, o 2CV permanece um símbolo de uma era em que o essencial era mais importante do que o supérfluo. Para Miyazaki, esse pequeno Citroën não era apenas um carro, mas uma manifestação física dos ideais que ele trouxe para seus filmes—uma lembrança de que, às vezes, o que realmente importa é apenas seguir viagem, sentindo o vento no rosto e ouvindo o motorzinho bicilíndrico trabalhar.

A influência “filosófica” do 2CV também é observada em outros dois filmes de Myazaki: em 1995 ele dirigiu um curta-metragem animado de sete minutos que foi lançado como um videoclipe para a música “On Your Mark” da dupla japonesa Chage & Aska. O filme combina ficção científica, humanismo e a estética visual marcante de Miyazaki, mas também coloca um carro realista em evidência na história.

A narrativa se passa em um futuro distópico após um desastre nuclear, um cenário que evoca reflexões sobre o impacto da tecnologia e da destruição ambiental — temas recorrentes na obra de Miyazaki. A história segue dois policiais que, durante uma operação em uma cidade futurista, encontram uma jovem alada em um laboratório ou instalação misteriosa, possivelmente ligada a experimentos ou cultos. Movidos por compaixão, eles decidem salvá-la, o que culmina em outra perseguição muito bem dirigida pelo produtor.

O carro dos protagonistas é nada menos que um Alfa Romeo Giulietta Spider, que além de ser o carro de fuga, é também o símbolo da resiliência dos personagens diante da distopia — o que fica evidente pela escolha de um carro clássico que salva os protagonistas de um mundo futurista em colapso, criando uma tensão entre o clássico e o moderno.

O outro filme é “A Viagem de Chihiro”, que conta a história de uma menina de 10 anos chamada Chihiro, que está de mudança com seus pais para uma nova cidade e que, durante a viagem, a família se perde e acaba chegando a um lugar misterioso que, na verdade, é um mundo espiritual habitado por espíritos e criaturas sobrenaturais, governado por uma feiticeira.

O filme começa com a família dentro do carro, já durante a viagem para a nova casa. O carro escolhido por Miyazaki é um Audi A4 quattro, que não foi escolhido ao acaso. Por ser um carro premium Europeu, ele reflete a personalidade materialista e consumista da família, algo que contrasta com a cultura japonesa, fundamentada em simplicidade e tradição, e também representa valores totalmente opostos ao mundo espiritual e tradicional que Chihiro logo encontrará.

Além disso, a capacidade do Audi em atravessar a estrada retratada no filme, também mostra que Miyazaki vai além do simbolismo do carro, fazendo dele uma escolha coerente pela capacidade do carro no mundo real, ainda que se trate de um filme de fantasia. Essa facilidade de atravessar a estrada também pode representar a confiança excessiva da família na modernidade, uma vez que eles não hesitam em seguir em frente em um mundo desconhecido e sobrenatural, apesar do caminho tortuoso.

Quando o carro é abandonado após a transformação dos pais de Chihiro, ele também simboliza o momento em que a protagonista deve deixar para trás o conforto material e enfrentar os desafios do mundo espiritual sozinha. Isso faz com que o Audi A4 seja mais que um mero detalhe, mas também um elemento simbólico que enriquece a narrativa do filme, destacando os conflitos entre modernidade e tradição, materialismo e espiritualidade — o que, novamente, reflete os valores que Miyazaki enxerga em seu 2CV.

Falando nele, depois de dirigi-lo por 40 anos, Miyazaki agora doou o carro para o Ghibli Park, onde seu último 2CV está exposto desde o início deste ano. Uma aposentadoria justa para um carro que inspirou uma obra tão marcante, não?


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