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Car Culture História

O misterioso envolvimento de DeLorean com o tráfico de cocaína

Há exatos 14 anos, em 19 de março de 2005, John Zachary DeLorean morreu vitimado por um derrame aos 80 anos de idade. Famoso mundialmente pelo carro que levava seu nome, antes de criar o esportivo de aço inoxídável que virou ícone do cinema, John DeLorean teve uma carreira brilhante na GM e foi, de certa forma, o pai dos muscle cars dos anos 1960 e 1970 por ter idealizado o Pontiac GTO.

Homem de personalidade marcante e adepto do culto à personalidade, DeLorean morreu longe dos holofotes, falido, vivendo em um condomínio simples com o dinheiro do seguro social devido aos processos que sofreu após o fechamento da DeLorean Motor Company. Além disso, ele nunca conseguiu se livrar das sombras do processo por tráfico de drogas que enfrentou nos anos 1980. Mesmo inocentado, sua reputação foi irreversivelmente manchada e sua carreira imediatamente sepultada.

Em 1982, DeLorean foi gravado em uma emboscada criada pelo FBI para desmontar uma quadrilha que trazia drogas da Colômbia, e acabou preso sob a acusação de tráfico de drogas. Ele foi inocentado de todas as acusações, mas sempre afirmou que fora vítima de uma armação planejada para minar sua reputação, e que a General Motors, sua antiga “casa”, estava por trás deste golpe.

É claro que uma declaração dessa desperta a curiosidade do público. Ela tem todos os elementos de uma teoria conspiratória: um homem legalmente inocente (DeLorean) tem sua reputação destruída por uma armação supostamente arquitetada por um grupo de poder. Quem não faria um roteiro de suspense com esta história?

Mas… será que a GM seria mesmo capaz de envolver DeLorean em uma quadrilha de traficantes de cocaína? Qual seria o interesse da toda-poderosa General Motors em arruinar um ex-funcionário que tentava  entrar no pequeno nicho dos esportivos de luxo?

 

Um telefonema conveniente

Em fevereiro de 1982, a DeLorean estava em situação de insolvência. O governo britânico já havia designado um administrador público para controlar a fábrica e pagamentos aos credores, e seu fechamento era apenas uma questão de tempo. A única salvação para seu fundador John DeLorean seria encontrar US$ 17 milhões quase que milagrosamente até o final daquele ano.

O milagre aconteceu em 29 de junho: John recebeu uma ligação de seu antigo vizinho James T. Hoffman, dizendo que gostaria de apresentá-lo a alguns investidores, o que pareceu muito conveniente naquele momento em que ele precisava desesperadamente de dinheiro para salvar a DeLorean.

John e Hoffman haviam se falado pela primeira vez na páscoa de 1980. Seus filhos se conheciam da vizinhança, e DeLorean sabia que Hoffman era piloto de avião por ter ouvido dele “uma história sobre recuperar um avião em alguma república das Bananas enquanto fugia de uma rajada de tiros”.

O que John não sabia, é que Hoffman era um informante do FBI que trabalhava em operações de emboscada para capturar traficantes de drogas, e que sua ligação fazia parte de um plano para capturá-lo. Por quê? Bem… é aqui que nasce a teoria conspiratória.

 

Segundas intenções

No final de 1981, pouco antes da concordata da DeLorean Motor Company, Hoffman foi ao tribunal testemunhar em um dos casos em que estava trabalhando junto de um outro agente da divisão de entorpecentes (DEA) chamado Gerald Scotti. Durante o trajeto, eles começaram a conversar e Hoffman disse a Scotti que poderia oferecer um “figurão” à DEA: seu antigo vizinho John DeLorean, que, segundo Hoffman, estava “encrencado com sua fabricante”. Como ele sabia da situação da DMC?

Isso nunca foi esclarecido.

O que se sabe é que nesta mesma época, a secretária particular de John DeLorean na DMC, Marian Gibson, começou a guardar uma série de documentos financeiros da empresa porque suspeitava que o negócio principal da fabricante não eram os carros, mas alguma outra atividade que ela desconhecia. Ela conhecia os hábitos de compra de John, assinava cheques, enviava pagamentos e sabia que havia muito dinheiro saindo do caixa da empresa. Quando suspeitou que pudesse haver algo errado, começou a montar seu dossiê.

Não havia nada muito comprometedor, mas as duplicatas, notas e comprovantes poderiam provar, por exemplo, que DeLorean estava esbanjando o dinheiro recebido como incentivo do governo britânico. Além disso, John tinha um plano para a oferta pública inicial (IPO) da DeLorean na bolsa de valores, o que poderia render até US$ 120 milhões para ele e ainda tiraria o governo britânico da jogada.

Marian levou os documentos a um deputado (MP), que prometeu tomar providências junto à Scotland Yard. Ela aguardou uma semana, mas, sem ver nenhuma ação, decidiu vender a história a um jornalista chamado John Lisners, que a repassou ao tablóide sensacionalista News Of The World. O jornal entrou em contato com DeLorean não para pegar sua versão dos fatos, mas para avisá-lo que ele havia sido traído por um funcionário.

A matéria acabou derrubada a pedido de um amigo de John, mas Lisners a vendeu ao Daily Mirror e ela acabou publicada. A Scotland Yard iniciou uma investigação e não encontrou nenhuma irregularidade, mas a polêmica derrubou os planos de abertura de capital da DMC. Lá se foram seus US$ 120 milhões.

John lidou com Marian, Lisners e o deputado de forma sutil: usou sua imagem para descreditá-los junto à imprensa. Em uma entrevista à BBC, na qual sua esposa derramava lágrimas ao seu lado, John DeLorean disse que Marian era problemática e instável, que Lisners era um “escritor desempregado servido a uma ideologia política” e que o deputado nunca foi intelectualmente brilhante. Além de tudo, anunciou que iria processar Lisners e o Daily Mirror.

Qual a intenção de Marian? John DeLorean perguntou e nunca ouviu uma resposta.

 

Na mira do FBI

Em julho de 1982, Hoffman finalmente conseguiu o que havia prometido a seu colega Gerald Scotti. Ele estava investigando um piloto de aviões chamado William Morgan Hetrick, que acumulou um patrimônio vistoso e estava fazendo viagens frequentes à Colômbia. Hetrick também era proprietário de uma empresa de táxi aéreo para a qual Hoffman trabalhara no passado.

Foi quando Hoffman ligou para DeLorean falando dos investidores.

Naquele mesmo mês a revista Car and Driver publicou uma matéria sobre as dificuldades financeiras da DeLorean Motor Company. Os dois se encontraram pessoalmente pela primeira vez em um bar na Califórnia, onde Hoffman deu detalhes do investimento.

O encontro no bar e a ligação para DeLorean não foram gravados por Hoffman, mas logo após o encontro DeLorean entrou na mira do FBI. A investigação se tornou algo maior: a Operação Full Circle, que visava pegar William Morgan Hetrick e John Zachary DeLorean.

O que Hoffman e DeLorean conversaram por telefone e, depois, naquele bar? Cada um tem sua versão.

DeLorean diz que Hoffman jamais falou em drogas, mas em investimentos legais. Hoffman reportou aos superiores que DeLorean o procurou e perguntou se ele não poderia ajudá-lo a transformar US$ 2 milhões em US$ 40 milhões usando “suas conexões no Oriente”.

A versão de Hoffman foi a base para o início da operação. Ea em agosto de 1982 pelo agente do FBI Benedict Tisa, registrou em um relatório entregue à sua equipe o seguinte plano:

“Como John DeLorean quer participar de uma transação de narcóticos, segundo o Informante (Hoffman), para realizar os lucros e financiar sua empresa com US$ 2 milhões, e Hetrick irá oferecer cocaína, deixe que DeLorean compre de Hetrick enquanto tenta trazer o dinheiro offshore para os EUA como um investimento/empréstimo temporário, até que os narcóticos sejam levados pelo Informante. Isso permitirá a apreensão de rendimentos ilegais e narcóticos, se tudo estiver coordenado.”

Em 19 de outubro de 1982, John DeLorean desembarcou no Aeroporto Internacional de Los Angeles vindo de Nova York e, imediatamente, se dirigiu a um hotel próximo ao terminal, onde encontraria seus Hoffman e Hetrick — além de 27 kg de cocaína distribuídos em valises e câmeras escondidas gravando a ação.

Quando Hoffman abre uma das valises e mostra a cocaína aos sócios, DeLorean diz que o narcótico é “melhor que ouro”. Segundos depois um agente do FBI entra no quarto, anuncia a detenção de John DeLorean por porte de cocaína e suspeita de tráfico de drogas. Naquele mesmo mês, sem dinheiro para honrar suas dívidas e compromissos, a DeLorean foi fechada pelo governo britânico.

 

O culpado inocente

O julgamento durou dois anos, e DeLorean acabou inocentado das oito acusações que lhe foram imputadas, dentre as quais tráfico de drogas, posse de drogas, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Seus advogados convenceram o júri de que DeLorean foi atraído por Hoffman sem saber que eles traficavam cocaína colombiana.

Ao apresentar seu depoimento no tribunal, Hoffman disse que DeLorean sabia desde o início que se tratava de tráfico de drogas, que havia falado sobre a cocaína desde a primeira ligação e mesmo assim DeLorean topou o negócio. John negou a versão e disse que, por achar que Hoffman e Hetrick eram pilotos que trabalhavam com aviões usados, pensou se tratar de um negócio lícito.

No julgamento, os advogados de John argumentaram que ele só percebeu que estava entrando em um esquema de tráfico de drogas quando era tarde demais. Em sua autobiografia DeLorean contou que tentou sair do esquema, mas Hoffman o ameaçou: “Você sabe demais. Não dá para sair. Vou mandar a cabeça de sua filhinha em uma sacola de supermercado”.

O que se sabe é que Hoffman realmente foi piloto de avião e trabalhou com o Hetrick. Algumas versões da história dizem que ele ganhou US$ 32.000 para pegar Hetrick e DeLorean, mas os advogados de John DeLorean descobriram que Hoffman estava colaborando com o FBI para reduzir sua sentença: ele estava sendo processado por tráfico de cocaína e aguardava seu julgamento.

O antecedente de Hoffman serviu como argumento aos advogados de DeLorean: Hoffman era um criminoso que se beneficiaria com a incriminação de DeLorean, que fez o DEA e o FBI “perseguir e emboscar injustamente” DeLorean ao permitir que Hoffman envolvesse DeLorean em uma conspiração criminosa porque sabiam que ele estava financeiramente vulnerável. Além disso, DeLorean não tinha antecedentes criminais e sua defesa nem precisou chamar testemunhas.

Ele foi absolvido em 16 de agosto de 1984, mas sua reputação estava arruinada. Ao sair do tribunal como um homem livre, DeLorean reforçou a tese de armação para arruiná-lo e, ao ser questionado se retomaria sua carreira, respondeu: “Você compraria um carro usado de mim?”

A pergunta que nunca foi esclarecida é: qual a motivação de Hoffman? Ele realmente tentava desmascarar a super-estrela da indústria automotiva? Tentou usar a prisão de John DeLorean para ganhar reputação no FBI? Seria ele um agente contratado pela General Motors para acabar com DeLorean? Ou ele agiu em parceria com a Scotland Yard?