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Pensatas

O que achamos da transformação do Land Rover Defender?

Nesta semana, finalmente conhecemos o novo Land Rover Defender por inteiro. Trata-se da segunda geração do modelo – a primeira foi lançada em 1983 e, apesar das constantes atualizações no projeto, permaneceu praticamente a mesma até sair de linha, em 2016. Isto posto, o jipe lançado na década de 1980 era uma evolução do Land Rover Series, utilitário (no sentido literal da palavra) que estreou em 1948, pouco depois da Segunda Guerra Mundial.

É uma trajetória muito parecida com a de outro jipe clássico que foi renovado recentemente – e você provavelmente já sabe que estou me referindo ao Jeep Wrangler.

O Wrangler nasceu como Willys MB, primeiro para servir aos Aliados na Segunda Guerra e, já em 1944, tornando-se um modelo civil, o Jeep CJ. Ele era um produto tão bom que, mesmo que a marca e os direitos sobre o projeto tenham trocado de mãos várias vezes ao longo das décadas, ninguém teve a ousadia de realizar mudanças drásticas no projeto. Em 1986, o Jeep CJ passou a se chamar Wrangler, mas manteve a mesma identidade visual e as mesmas qualidades de sempre.

O que a Land Rover fez foi seguir foi o oposto da abordagem da Chrysler em relação ao mais recente Jeep Wrangler. O icônico off-roader americano trouxe diversas melhorias, mas manteve-se fiel à construção original, com carroceria sobre chassi, para-lamas bem destacados, peças removíveis (como portas e teto) e, claro a estética original. E ele ainda ganhou uma picape novinha para complementar a linha.

No caso do Defender, a fabricante afirmou que a ideia era “tomar inspiração no clássico, sem ficar preso a ele”. Isto vale tanto para os aspectos técnicos do utilitário quanto para o visual. O novo Defender traz certa semelhança com o conceito DC100 (“Defender Concept 100”) apresentado no Salão de Frankfurt de 2011. Esta é uma das fontes das críticas – dizem que o Defender ficou parecendo um conceito de quase dez anos atrás. É claro que, por mais que existam semelhanças, a versão de produção ficou menos, digamos… conceitual. As formas são mais limpas, a silhueta lembra mais o Defender clássico e, a exemplo do original, há versões de duas ou quatro portas, cada uma com um entre-eixos diferente.

A maior revolução, porém, foi estrutural: o Defender abandonou a construção com carroceria sobre chassi, adotando um monobloco de alumínio (material tradicional na construção do Defender) baseado no Discovery. A plataforma, chamada D7x, é exclusiva para o Defender e, de acordo com a Jaguar, torna o veículo três vezes mais rígido que o anterior, e o Land Rover mais resistente da história. Ele agora tem suspensão independente nas quatro rodas e suspensão a ar opcional. Não dá para achar isto ruim – a Land Rover realizou, literalmente, dezenas de milhares de testes, incluindo simulações de impacto e uma viagem de mais de 6.400 km entre o Cazaquistão e a Alemanha.

Para os detratores do Defender 2020, nada disto importa – simplificando um pouco, apenas porque um fora-de-estrada de verdade precisa ter carroceria sobre chassi. Nisto o Jeep é mais old school e, para quem aprecia o old school, esta é uma boa razão para preferi-lo.

No entanto, isto acaba se revelando mais uma questão de gosto quando analisamos os dados. De acordo com as fichas técnicas do Wrangler e do Defender, a capacidade off-road de ambos se equivale.

Consideremos, por exemplo, os ângulos máximos de ataque e de saída, além do vão livre do solo. O Jeep possui um ângulo de ataque consideravelmente maior: 41,4° contra 30,1° do Land Rover. No entanto, o vão livre do solo é bem maior no Defender, 292 mm contra 267 mm; e seu ângulo de saída também é razoavelmente melhor, de 37,7° contra 36,1°.

A profundidade máxima de mergulho do Defender é largamente superior, passando dos 90 cm, enquanto o máximo que o Wrangler consegue cruzar sem modificações é de pouco mais de 76 cm — o que impressiona, se considerarmos que o novo Defender é um carro muito mais sofisticado internamente.

O que podemos fazer, porém, é comparar a filosofia de ambos. O Wrangler é possivelmente o mais emblemático de todos os fora-de-estrada – dentro do espectro off-road, ele tem carisma comparável ao do Fusca, e uma gigantesca base de fãs. Ele é mais comum de se ver nas ruas do que o Defender (e isto inclui o Brasil, se considerarmos os modelos Willys), e com o passar do tempo tornou-se intimamente ligado a um certo estilo de vida.

O Land Rover Defender também é cultuado, mas é fato que ele possui uma imagem diferente diante do público. Ainda que o Defender original fosse um veículo espartano e robusto, ao longo dos anos a Land Rover se transformou em uma fabricante de luxo, que atingiu uma fatia do mercado completamente diferente da Jeep, e tornou-se objeto de desejo. O Defender, especialmente a partir da segunda metade da década de 2000, absorveu esta imagem – ele é tratado por parte do grande público como um SUV de luxo para quem quer parecer radical. Isto não tem relação alguma com suas capacidades fora-de-estrada.

Assim, faz sentido que, com a oportunidade de fazer um Defender totalmente novo nas mãos, a Land Rover tenha buscado deixá-lo mais próximo dos outros membros da família, ao mesmo tempo em que fez o possível para torná-lo tão capaz quanto o anterior – ou, pelo que a própria fabricante diz, ainda mais.

Por outro lado, há a questão do preço. De acordo com a Land Rover, inicialmente apenas o Defender 110, versão de entre-eixos longo e quatro portas, teve o preço divulgado nos EUA: US$ 50.925. Não é um valor muito baixo, mas estamos falando de um Land Rover. Conforme Doug Demuro observa no vídeo abaixo,  comparando-o com o Mercedes-Benz Classe G (outro utilitário tradicional que ganhou uma nova geração recentemente), o Defender é bem acessível: o G550, versão “de entrada” nos EUA, equipada com um V8 biturbo de 420 cv, custa US$ 125.000.

Agora, comparando com o Jeep Wrangler quatro-portas mais barato parte de US$ 41.000 nos EUA. No Reino Unido a situação se inverte: o Wrangler mais barato sai por £ 46.455 e o Defender 110 sai £ 40.500. Você não esperava uma diferença maior entre o Wrangler e o Defender? Nós também. E a versão 90, de duas portas, deverá ser um pouco mais barata.

E aí começa a ficar clara a dupla função do novo Defender na linha da Land Rover. Era evidente que ele iria desagradar aos mais puristas mas, ao que parece, a fabricante britânica chegou à conclusão de que este era um preço pequeno a se pagar. Além disso, olhando além da casca, o novo Defender não perdeu sua capacidade off-road. Ele tem até uma versão básica, com rodas de aço, criada especificamente para enfrentar condições adversas sem dar prejuízo com acabamentos e equipamentos caros.

Pessoalmente, o visual do Land Rover Defender ainda não deu aquele “clique” – não consigo criticá-lo de forma objetiva, mas também não sei se me conquistou. Compreendo a decisão por torná-lo mais refinado e acho que, pelo visto, o Jeep Wrangler sempre vai estar aí para quem quiser um off-road com carroceria sobre chassi e visual verdadeiramente retrô. Com isso, ele deixa de concorrer diretamente com o Wrangler, o que pode ser positivo. Além disso, ele é mais uma opção — e quanto mais opções, melhor.